5 perguntas para Arthur Lorenzetti, vice-presidente de nutrição especializada da Danone Brasil

Executivo fala sobre proteínas, medicamentos GLP-1, envelhecimento e os desafios para ampliar o acesso à nutrição especializada no país

Arthur Lorenzetti, vice-presidente de Nutrição Especializada da Danone Brasil, fala ao microfone.
Arthur Lorenzetti, vice-presidente de Nutrição Especializada da Danone Brasil, fala sobre proteínas, medicamentos GLP-1, envelhecimento e acesso à terapia nutricional. Crédito: Arte Fast Company Brasil

Sofia Bolina 7 minutos de leitura
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Vice-presidente de Nutrição Especializada da Danone Brasil, Arthur Lorenzetti está na empresa há 12 anos. Com passagem pela indústria farmacêutica e experiência em marketing, lidera a área responsável pelo desenvolvimento de produtos para pessoas que não conseguem se alimentar de maneira convencional ou possuem necessidades nutricionais específicas.

Esse público inclui bebês com alergia à proteína do leite de vaca, pacientes com câncer ou em recuperação cirúrgica, pessoas alimentadas por sondas e idosos que enfrentam perda de massa muscular.

Atender a necessidades tão diferentes exige pesquisa, adequação às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária e diálogo com o centro de inovação da Danone em Utrecht, nos Países Baixos, dedicado à nutrição especializada.

Nesta entrevista à Fast Company Brasil, concedida durante uma visita ao centro, Lorenzetti fala sobre os efeitos dos medicamentos GLP-1 no desenvolvimento de produtos, a procura por alimentos ricos em proteína e o desafio de ampliar o acesso à nutrição especializada em um país desigual.

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FC Brasil - Quais são as particularidades do Brasil como produtor e consumidor dos produtos da Danone, sobretudo nas linhas de nutrição especializada?

Arthur Lorenzetti - O Brasil ocupa uma posição muito relevante dentro da Danone globalmente. Isso traz alguns pontos importantes. Quando pensamos em nutrição especializada, estamos próximos do centro de pesquisa de Utrecht, nos Países Baixos, mas também temos as fábricas em Poços de Caldas, em Minas Gerais, e suas equipes.

Essa estrutura nos dá flexibilidade para desenvolver produtos regionais e, ao mesmo tempo, trazer inovações criadas fora do país e adaptá-las ao Brasil.

Também existe uma questão regulatória. A legislação brasileira é considerada uma das mais restritivas do mundo em alguns segmentos, considerando especificações, padrões, componentes obrigatórios das fórmulas e processos de registro.

Temos conseguido crescer com produtos locais que atendem às necessidades da população brasileira. Nos últimos anos, nossa unidade de nutrição especializada no país triplicou de tamanho e ampliou sua rentabilidade.

FC Brasil - A proteína ganhou espaço nas discussões sobre alimentação e no desenvolvimento de produtos. Como distinguir uma tendência de mercado de uma necessidade nutricional real?

Arthur Lorenzetti - A proteína ganhou proeminência junto com o debate sobre sua ingestão, impulsionado pela busca por uma alimentação considerada mais saudável e pelo uso de medicamentos para perda de peso e diabetes. Estamos atentos à forma como ela pode cumprir seu papel.

Uma das grandes plataformas da Danone, tanto em nutrição especializada quanto na categoria de iogurtes, está justamente na oferta proteica. Na nutrição especializada, precisamos ir além.

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À medida que as pessoas envelhecem, ocorre uma perda natural de massa magra. Também podem diminuir a quantidade e a qualidade dos alimentos ingeridos, reduzindo a densidade nutricional da dieta.

Podemos ter o produto mais tecnológico e mais bem desenvolvido, mas, se ele não chega ao paciente, o impacto é zero.

Um produto destinado a essa faixa etária não pode oferecer apenas proteína. Também precisa conter vitaminas e considerar como essas pessoas consomem o produto e qual formato facilita sua inclusão na rotina.

Foi esse raciocínio que orientou a chegada e a adaptação da formulação do Nutridrink Protein Senior. O produto possui 25 gramas de proteína, não tem sabor e pode ser incorporado mais facilmente à alimentação de pessoas que estão envelhecendo.

Na nutrição especializada destinada a pacientes em tratamento oncológico, também trabalhamos com aporte proteico. Nesse caso, a equação exige combinar uma alta quantidade de calorias com um volume pequeno.

FC Brasil - O uso de medicamentos GLP-1 tem provocado mudanças na forma como a Danone pesquisa e desenvolve seus produtos?

Arthur Lorenzetti - O consumo de medicamentos GLP-1 tem implicações importantes. Fala-se muito sobre a perda de massa muscular, mas é preciso lembrar que essa é apenas uma das consequências.

Em um processo convencional de emagrecimento, cerca de 20% do peso perdido corresponde à massa magra. Com o uso desses medicamentos, como a perda de peso acontece rapidamente, esse percentual pode ser maior.

Também ocorre uma redução no volume de alimentos ingeridos e, consequentemente, na quantidade de nutrientes consumidos.

O primeiro ponto que observamos é como oferecer uma densidade nutricional adequada para essa população e contribuir para a preservação da massa muscular.

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O segundo ponto é comportamental. Quando as pessoas iniciam um tratamento com esses medicamentos, seja por uma indicação médica específica ou para perder peso, ocorre uma mudança nos hábitos de consumo.

Elas passam a buscar alimentos percebidos como mais saudáveis e reduzem o consumo de produtos com pouca densidade nutricional.

Consideramos esse movimento em todo o portfólio da Danone. O iogurte, por exemplo, ganha espaço por oferecer proteína e outros benefícios nutricionais. O mesmo acontece com os shakes proteicos, como os produtos da linha YoPro.

FC Brasil - A nutrição especializada ainda é de difícil acesso no Brasil. Como ampliar a escala desses produtos em um país marcado pela desigualdade?

Arthur Lorenzetti - O propósito da Danone é levar saúde por meio da alimentação ao maior número possível de pessoas. Na nutrição especializada, isso significa fazer com que as inovações cheguem a quem realmente precisa delas.

Podemos ter o produto mais tecnológico e mais bem desenvolvido, mas, se ele não chega ao paciente, o impacto é zero.

Trabalhamos com organizações do terceiro setor e com entidades públicas para ampliar o acesso a essas soluções. Em muitos casos, elas não são apenas suplementos. Fazem parte da terapia e do cuidado oferecido ao paciente.

Por isso, participamos do Movimento Nutrindo Vidas, que procura ampliar a conscientização entre médicos, gestores públicos e outros agentes do sistema de saúde.

Pela primeira vez, a nova Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer incluiu um capítulo específico sobre terapia nutricional.

Esse é um primeiro passo para que a nutrição especializada chegue às pessoas com câncer. Reconhecer sua importância permite avançar nas discussões sobre o financiamento pelo sistema de saúde e ampliar o impacto sobre a vida dos pacientes.

Ao mesmo tempo, os programas destinados ao atendimento de alergias alimentares ainda estão concentrados em poucos estados. Embora existam Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, atualmente apenas seis estados possuem programas estruturados especificamente para alergia à proteína do leite de vaca.

Trabalhamos para mostrar como os estados podem adotar o protocolo e estruturar seus programas. Isso pode melhorar o atendimento aos pacientes, organizar o sistema e reduzir custos.

Infelizmente, o acesso a determinados tratamentos no Brasil ainda depende muito de onde a pessoa nasce ou vive. Queremos ajudar a mudar esse cenário.

FC Brasil - Em 2026, a Danone completa 55 anos no Brasil. Como mudanças populacionais e climáticas influenciam os planos da empresa para as próximas décadas?

Arthur Lorenzetti - Temos muito orgulho de estar há 55 anos no Brasil e de manter uma relação tão próxima com a comunidade e com a realidade brasileira. Essa presença aparece nas fábricas e até na maneira como a marca passou a representar uma categoria. A frase “me dá um Danone” entrou no vocabulário do país.

Quando olhamos para o futuro da nutrição especializada, alguns caminhos estão claros. A transformação demográfica é uma das principais tendências que precisamos acompanhar porque ela vai criar novas necessidades.

Com o envelhecimento da população, levar saúde ao maior número possível de pessoas exige olhar para esse público.

Hoje, a nutrição especializada no Brasil está mais concentrada na pediatria do que no atendimento aos adultos e às pessoas idosas. Para nós, é estratégico promover essa evolução.

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Em relação às mudanças climáticas, a sustentabilidade está integrada ao negócio. O impacto faz parte do propósito da Danone e está presente no estatuto da empresa.

Não existe um caminho possível sem reduzir o impacto ambiental da produção. Buscamos operar de maneira mais eficiente e construir uma cadeia cada vez mais descarbonizada no país.

Nota de transparência: Sofia Bolina viajou a Utrecht, nos Países Baixos, a convite da Danone.


SOBRE A AUTORA

Sofia Bolina é jornalista, formada em Estudos Culturais pela Universidade Humboldt de Berlim e mestre em escrita de não-ficção pela Un... saiba mais