5 perguntas com Bob Burnquist
Prestes a completar 50 anos, o skatista fala sobre risco, inovação, o que ainda quer criar e por que continua procurando o próximo movimento.

Bob Burnquist não fica parado. Durante a conversa, movimenta as pernas, muda de posição na cadeira e se inclina para a frente. Quando começa a falar de skate, o corpo acompanha.
A inquietação ajuda a entender uma carreira construída em torno da ideia de progressão. Mais de três décadas depois de se profissionalizar, Burnquist segue como o atleta com mais medalhas na história do X Games: são 30 no total. Seus 14 ouros também fizeram dele uma das referências que ajudaram a transformar o skate nas últimas décadas.
Mas os números parecem ocupar um lugar menor quando ele conta a própria história. Prestes a completar 50 anos, Burnquist fala mais sobre a próxima manobra do que sobre as que já acertou. Mais sobre aprender do que ganhar. “A evolução é mais importante que a medalha”, diz em um momento da conversa.
Essa busca pelo que ainda pode ser feito também atravessa seus projetos fora das pistas. Burnquist produz eventos, empreende e hoje é gerente-geral do X Games Club São Paulo, um dos quatro clubes que inauguraram o novo formato de liga do X Games em 2026. A própria organização destaca sua criatividade e sua busca constante por progressão.
Em conversa com a Fast Company Brasil, ele fala sobre identidade, risco e inovação — e sobre por que, depois de tudo o que conquistou, ainda parece estar procurando o próximo lugar para onde ir.
FC Brasil - O skate é um esporte muito individual. O que ele te ensinou sobre assumir a responsabilidade pelo próprio caminho?
Bob Burnquist - Eu comecei a andar de skate porque queria liderar a mim mesmo. Acho que começa por aí.
Eu jogava outros esportes. Era goleiro, sempre fui asmático e era bem pequeno. Uma vez, fui para uma competição de handebol da escola como goleiro reserva. A gente ganhou, mas eu não joguei nem um segundo. Quando foram colocar a medalha em mim, eu não quis.
Claro, eu fazia parte da equipe, treinava junto e tudo mais. Hoje você entende isso. Mas eu não sentia aquela conquista.
Quando comecei a andar de skate, percebi que, quando voltava a manobra, era meu mérito. Se eu caía do skate, a responsabilidade também era minha. Então, senti que ali era o dono da minha direção. Nesse sentido, fui o líder da minha vida quando comecei a andar de skate.
E havia uma brincadeira entre os amigos. Cada um escolhia alguém em quem se espelhava. Um falava: “eu sou o Tony Hawk”. Outro: “eu sou o Lance Mountain”. Quando chegava a minha vez, eu falava: “eu sou o Bob”.
“Não, você tem que escolher alguém.”
“Não. Eu sou o Bob.”
Não era uma coisa de “quero ser líder”. Era mais uma questão de puxar a responsabilidade para mim.
Depois, quando cheguei às competições, percebi que também não queria fazer apenas o que estava vendo. Claro que você aprende com o que vê. Mas, depois, eu queria fazer aquilo que ainda não tinha sido feito.
Como posso criar algo novo?
Acho que focar nisso acabou me colocando em uma posição de liderança. As pessoas começaram a se espelhar em mim.
FC Brasil - Você ganhou muito ao longo da carreira, mas disse que a evolução é mais importante que a medalha. O que continuou te movendo depois das primeiras vitórias?
Bob Burnquist - Quando você ganha, chega ao próximo evento e já esperam que ganhe novamente. Se você ganha de novo, falam: “lógico que ganhou”. Parece fácil. Só você sabe o que passou para conseguir.
Continuar ganhando é muito difícil. Você precisa continuar com muita vontade — e essa vontade tem que encontrar em algum lugar.
Quando eu ia aos eventos, pensava: vou fazer aquilo que faço, que é o que sei fazer. Deu mais certo do que errado, mas, obviamente, houve vários momentos em que não deu.
Só que não é por isso que você anda de skate.Quando eu me dava mal em uma competição, ia para casa aprender uma manobra nova. Aquilo me recuperava.
Porque, na verdade, a evolução é mais importante que a medalha.
Às vezes, eu deixava de ir a competições para ficar em casa filmando uma manobra nova. Enquanto a galera estava lá competindo, eu estava em casa com a equipe de filmagem.
Quando volto uma manobra, é como se tivesse concluído alguma coisa. E ela dura mais do que a medalha. Hoje, as partes que tenho em vídeo, as coleções e as curadorias de manobras que fiz vão viver por muito mais tempo do que a lembrança de uma medalha de ouro em determinado evento.
Hoje, vejo o skate como uma extensão de mim. É uma forma de evoluir e manifestar ideias novas.
Quando crio uma manobra que ninguém nunca fez, aquilo é uma manifestação única, criativa e minha. Então, vai muito além de aprender uma manobra para ser melhor no skate.
Posso ter 50, 60 ou 70 anos e sei que vou conseguir aprender alguma coisa nova. Pode não ser uma superperformance. Se for algo novo para mim, ótimo. Se for novo para o skate em geral, melhor ainda.
A evolução é mais importante que a medalha.

FC Brasil - Você passou a carreira fazendo coisas que, para quem olha de fora, parecem muito arriscadas. Como sabe quando ir — e quando não ir?
Bob Burnquist - Andando de skate ou não, posso morrer atravessando a rua. Então, começa por aí. Já que vou morrer um dia, por que não viver até esse dia? As pessoas podem olhar para mim e falar: “é maluco, é coisa de louco”. Mas é calculado.
Se vou fazer uma ação no Grand Canyon, tenho que pensar em diversas coisas, principalmente na segurança. Como está a minha habilidade? O que vou fazer?
Você conecta todas as contas e faz o melhor possível.
No dia, como está o vento? Se o vento estiver errado, não vai. Se você for, vai morrer.
Também sou piloto, então carreguei muito essa lógica de checklist. Há o risco financeiro e o risco real de vida, mas é administração de risco.
E há uma coisa que falamos na aviação: se você não quer bater naquela árvore, não olhe para aquela árvore.
Você está pilotando, aterrissando. Se pensa “não quero bater naquela árvore”, mas fica olhando para ela, vai bater.
Se não quer bater na árvore, olhe para onde quer ir.
É sempre essa visão: aonde você quer ir é para onde você vai. Se ficar olhando o buraco, vai cair no buraco.
Uso há muito tempo uma frase: “visualize e materialize”. Você tem que enxergar para poder materializar.
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Se não quer bater na árvore, olhe para onde quer ir.
FC Brasil - E quando esse jeito de pensar sai do skate e vai para a inovação ou para uma empresa? É o mesmo movimento?
Bob Burnquist - Acho que cada manobra nova que se aprende é quase como um empreendimento.
Se quero fazer um looping em parafuso, por exemplo, tenho que visualizar. Preciso chamar os construtores e descobrir como faremos, ainda mais se nunca foi feito.
Você passa seis ou sete meses insistindo e constrói. Está bem, agora está construído. Agora tem que fazer. Você falou que faria.
Aí passa pelo processo, acerta, enfrenta a dificuldade e ajusta.
E a rampa custa dinheiro. Então, é preciso fazer a planilha de quanto vai custar. Tenho que preparar um pitch para o patrocinador acreditar. Dependendo do projeto, não quero que o cara desligue o telefone na minha cara e fale: “esse cara é maluco”.
“Vou fazer um salto no Grand Canyon.”
“Você vai morrer.”
Só que, no final, quem estará no alto da rampa para descer sou eu.
Então, tento projetar e visualizar algo que sei que vou fazer. Na primeira vez, é mais difícil convencer o mercado. Na segunda, a galera já viu que você faz o que promete. Na terceira ou na quarta, as pessoas já sabem que você entrega.
Acho que esse paralelo entre manobra e empreendimento é tudo a mesma coisa.
Tenho uma empresa em que estou empreendendo desde 2017. Ela começou como uma empresa de cannabis. Construímos produtos, captamos investidores, mas rapidamente percebi que teria dificuldade para escalar. A regulamentação mudava: agora isso, agora aquilo, pode isso, não pode aquilo.
Em vez de falar “não deu”, paramos para tentar entender outra coisa: isso é o que era. Agora, o que pode ser?
A ideia foi se transformando e hoje é uma plataforma digital de saúde.
Foram nove anos insistindo e redesenhando. Como skatista, talvez isso seja mais fácil para mim. Não digo que seja fácil, porque há o dia a dia em que você pensa: “agora não vai dar certo”.
Aí eu falo: não, vamos redesenhar.
Da mesma maneira, se quebrei o pé, vou pensar na solução, e não no problema. Porque o pé já está quebrado.
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FC Brasil - Você está prestes a completar 50 anos. Quando começou a andar de skate, imaginava chegar até aqui? E, quando olha para os próximos 10 ou 20 anos, o que ainda quer estar fazendo?
Bob Burnquist - Eu nem pensava nos 50 anos. Comecei a andar com 10. Mas, quando comecei, houve um dia em que bateu uma coisa: eu nunca mais vou parar de andar de skate.
Não quer dizer que pensei “vou ser campeão mundial”. Não pensei nisso. Era: eu não paro mais de andar de skate. Não importa quando, não importa o quê.
Aí o tempo foi passando, vieram os sonhos e os objetivos. Você vê os vídeos e pensa: “nossa, eu queria tanto ir para os Estados Unidos, andar com essa pessoa, seria legal competir”. E eu me imaginava ali. Imaginava-me na competição e nos Estados Unidos.
Mas nunca foi: “vou ser o maior campeão”. Era uma coisa de cada vez. No meu dia a dia, andando de skate, me divertindo e evoluindo. As coisas foram acontecendo como consequência.
Hoje, o skate é uma extensão de mim. Por isso, com essa visão, é eterno. Posso ter 50, 60 ou 70 anos e sei que ainda vou conseguir aprender algo novo.
Nos próximos 20 anos, se estiver fazendo o que faço hoje, estará maravilhoso.
Espero, de repente, ter alguns agentes de IA trabalhando para mim, as empresas rodando e eu apenas direcionando em um dashboard: “beleza, vamos para cá, vamos para cá”.
E eu tendo tempo para andar de skate, pintar e continuar evoluindo.
E arrumar dinheiro para construir rampa cara e alta.