5 perguntas para Charlie Tyrell, codiretor do documentário “The AI Doc”
Documentário sobre IA expõe incertezas do futuro e provoca debate emocional sobre tecnologia, responsabilidade e o mundo que estamos construindo

Vale a pena ter filhos na era da IA?
Essa é a pergunta no centro de "The AI Doc: Or How I Became an Apocaloptimist" (O doc IA: ou como virei um apocaliptotimista, em tradução livre), novo documentário sobre as promessas, os riscos e as incertezas que cercam a inteligência artificial.
Codirigido por Charlie Tyrell e pelo vencedor do Oscar Daniel Roher, o filme acompanha Roher – prestes a se tornar pai – enquanto tenta entender como a IA funciona, quais perigos pode trazer e em que tipo de mundo ele e sua esposa estão prestes a receber o filho.
Ao longo da jornada, ele encontra tanto os críticos mais contundentes da tecnologia quanto seus defensores mais entusiasmados.
O longa reúne dezenas de especialistas, incluindo CEOs como Sam Altman, da OpenAI, e Dario Amodei, da Anthropic, além de pesquisadores preocupados com o futuro e vozes críticas como Tristan Harris, que também participou do documentário "O Dilema das Redes" (de 2020).
Antes da estreia nos cinemas, marcada para 27 de março, o filme foi exibido no SXSW, em Austin, onde a IA tem sido tema constante, entre hype e apreensão.
Por lá, a Fast Company conversou com Tyrell sobre o filme, o processo criativo e por que a obra provoca tanta conexão – a ponto de, após as sessões, desconhecidos começarem a conversar entre si.
Fast Company – Começar pelos realistas de IA e continuar até chegar aos especialistas de startups foi uma estrutura pensada desde o começo?
Charlie Tyrell – Quando você está começando a entender [a inteligência artificial] e vai pesquisar, a primeira coisa que encontra são os conteúdos mais apocalípticos. Depois, aparece o contraponto, os "aceleracionistas" e, por fim, uma terceira via: os realistas, que olham para o que está acontecendo agora.
Não importa por onde você comece ou a ordem que siga, você acaba chegando à mesma pergunta: quais são, de fato, as respostas – e qual é o plano?
É por isso que, no filme, vamos até os CEOs, porque são eles que estão construindo tudo isso. Então, teoricamente, deveriam ter um plano, certo? … Deve haver adultos na sala com um plano.
E aí, como o filme mostra, você chega lá e não existe plano. Isso transfere a responsabilidade para os usuários, para quem não é da área de tecnologia, de decidir o que fazer.
Fast Company – Vocês ficaram decepcionados com as respostas que receberam?
Charlie Tyrell – Com certeza. Como cineasta, você quer que as pessoas expressem suas emoções de forma mais evidente. É assim que estamos acostumados a assistir filmes, com tudo um pouco mais elevado.
O teatro leva isso ao extremo. O cinema traz para um nível mais moderado, mas, na vida real, quando alguém sofre um acidente de carro ou vê a própria casa pegando fogo, a reação costuma ser bem contida. Essa é a realidade.
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Então o cinema é uma técnica narrativa em que você precisa traduzir isso de forma humana, para que o público entenda o que aquela pessoa está sentindo por dentro.
Isso aparece muito nas reações do Daniel. Dá para ver a frustração dele ao ouvir pessoas com poder sobre o ritmo e a direção da IA avançando a todo vapor, mesmo estando preocupadas.
Fast Company – Essa frustração fica bem evidente na tela, não é?
Charlie Tyrell – Todo mundo acredita na própria verdade dentro desse universo. E é muito difícil, quando você transforma algo em fato absoluto na sua cabeça, aceitar que outras verdades possam existir.
É isso que essa tecnologia é: ela vai ser mais de uma coisa ao mesmo tempo… e todo mundo precisa reaprender a lidar com essa ideia.

Hoje, especialmente num mundo tão dividido em polos – bom ou ruim, esquerda ou direita –, estamos condicionados a pensar em termos de certo ou errado.
Mas as pessoas são muito mais complexas do que isso. E os problemas que enfrentamos, assim como as tecnologias que usamos, também são muito mais complexos.
Fast Company – É um filme surpreendentemente emocional para um tema tão denso, não acha?
Charlie Tyrell – Muita gente diz que não esperava se emocionar com um filme sobre tecnologia. Mas você precisa se emocionar para encarar essa tecnologia, para entender o que nos diferencia de algo que não é humano, que não é tecnologia, e identificar o que realmente valorizamos. Precisamos decidir o que importa, o que nos define e como vamos construir máquinas a partir disso.
Fast Company – Cinco anos atrás, "O Dilema das Redes" chegou quando parecia tarde demais para mudar alguma coisa. Este filme busca ser mais proativo?
Charlie Tyrell – Mesmo com aquela sensação de que já era tarde demais depois de "O Dilema das Redes", a verdade é que as coisas acontecem quando acontecem. E isso significa que não dá para ficar lamentando o atraso quando ainda há trabalho a ser feito, certo?
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"O Dilema das Redes" conseguiu mobilizar muita gente e mudar a forma como muitas pessoas enxergam as redes sociais, inclusive eu. E eu cresci como nativo digital.
O Instagram já foi algo legal. Hoje parece mais um shopping. Não suporto mais. Mas entender o que realmente estava acontecendo ali fez diferença.
Foi tarde demais? Teria sido melhor antes. Mas ainda não é tarde.