5 perguntas para David Gruber, biólogo e fundador do Projeto CETI

O biólogo marinho explica por que estudar a comunicação das baleias cachalote pode revelar algo importante sobre o futuro da própria humanidade

David Gruber, biólogo e fundador do Projeto CETI
Crédito: Divulgação

Redação Fast Company Brasil 5 minutos de leitura

E se a superinteligência que procuramos não for artificial? Com mais de 40 toneladas e até 20 metros de comprimento, a baleia cachalote é um dos animais mais extraordinários do planeta. Além do tamanho impressionante, ela carrega o maior cérebro conhecido do reino animal – cerca de cinco vezes o tamanho do cérebro de um humano.

É justamente tentando entender como esses animais pensam e se comunicam que o biólogo marinho David Gruber lidera o Project CETI (Cetacean Translation Initiative), uma iniciativa científica que usa inteligência artificial para decifrar a linguagem das baleias. O projeto reúne mais de 50 pesquisadores de diferentes áreas, da linguística à robótica.

Gruber vai apresentar a pesquisa nas próximas semanas no South by Southwest (SXSW), em Austin. Em entrevista à Fast Company Brasil, ele explica o que já descobriu sobre a comunicação das cachalotes e por que estudar essas sociedades animais pode revelar algo importante sobre o futuro da própria humanidade. 

FC Brasil – Como funciona o projeto CETI e como vocês estão tentando traduzir a comunicação das baleias?

David Gruber – O Project CETI significa Cetacean Translation Initiative. Somos uma organização sem fins lucrativos formada em 2020 e hoje reunimos mais de 50 cientistas de oito disciplinas diferentes, todos trabalhando juntos com um objetivo em comum: traduzir as vozes das cachalotes.

Trabalhamos no Caribe Oriental, na ilha de Dominica, onde uma bióloga da nossa equipe estuda essas baleias há mais de 20 anos e conhece entre 200 e 400 delas, literalmente pelo nome e pelos grupos familiares.

Temos pesquisadores de inteligência artificial e robótica, porque precisamos construir dispositivos capazes de escutar as baleias no oceano, além de linguistas, biólogos marinhos, especialistas em processamento de sinais e criptógrafos.

É um dos primeiros projetos de comunicação com animais marinhos que traz especialistas em linguística humana. 

FC Brasil – Qual é o principal desafio para traduzir a linguagem das baleias?

David Gruber – O grande desafio é que não existe um falante bilíngue. Quando humanos traduzem idiomas, normalmente existe um dicionário ou alguém que fala duas línguas. Aqui não temos isso.

Outro desafio é que as cachalotes vivem em um ambiente extremamente difícil para nós. Eles passam grande parte da vida a cerca de 900 metros de profundidade, onde é muito difícil observar diretamente o que está acontecendo.

baleia cachalote com filhote
Baleia cachalote com filhote (Crédito: Gabriel Barathieu/ Wikipédia)

Por isso precisamos desenvolver tecnologias específicas para essa pesquisa. Usamos robôs, sensores e dispositivos que permitem escutar as baleias no próprio ambiente delas.

Primeiro tentamos entender as regras básicas da comunicação. Descobrimos os blocos fundamentais de como elas falam, o que chamamos de alfabeto fonético das baleias, e então começamos a relacionar os sons com comportamentos.

FC Brasil – O projeto está em andamento há cinco anos. O que vocês já descobriram sobre a linguagem das baleias?

David Gruber – Uma das descobertas mais importantes foi identificar o que chamamos de alfabeto fonético das baleias, os blocos fundamentais da comunicação entre elas. 

Também sabemos que diferentes grupos de cachalotes têm dialetos regionais, algo parecido com sotaques humanos. Mesmo vivendo na mesma região, grupos diferentes podem ter variações na forma como se comunicam.

a IA pode ser algo semelhante ao que o telescópio foi para o olho humano ou o microscópio foi para a biologia.

Outra descoberta importante é que a comunicação não depende apenas dos sons. O ritmo e o tempo dos cliques também são importantes, e eles podem ser combinados de diferentes maneiras.

Quando elas estão próximas, encostam as cabeças e produzem um som por condução óssea. Quando estão em grupos separados, elas soltam sons que podem viajar de dois a 10 quilômetros. 

Quanto mais estudamos esse sistema de comunicação, mais percebemos o quão complexo ele é e estamos apenas começando a entendê-lo.

FC Brasil – Você vai falar nesta edição do SXSW sobre o uso da IA na pesquisa do projeto CETI. O que estão preparando com relação à IA?

David Gruber – Hoje, cerca de 99,9% da inteligência artificial é construída para apenas uma espécie: nós. Às vezes penso que a inteligência artificial é como projetar um foguete. Você constrói uma tecnologia capaz de ir até a Lua ou Marte, mas muitas vezes estamos usando esse foguete apenas para ir até a esquina comprar um suco.

Mas essas ferramentas podem expandir nossa percepção do mundo natural. Para mim, a IA pode ser algo semelhante ao que o telescópio foi para o olho humano ou o microscópio foi para a biologia, uma forma de perceber coisas que antes estavam além dos nossos sentidos. 

Projeto CETI estuda linguagem das baleias
Projeto estuda linguagem das baleias (Crédito: Projeto CETI)

Estamos construindo modelos de linguagem que conseguem prever qual será o próximo som produzido por uma baleia, de forma semelhante ao que modelos como o ChatGPT fazem ao prever a próxima palavra em uma frase.

Também conseguimos relacionar sons com comportamentos. Por exemplo, podemos analisar as vocalizações e prever quando uma baleia vai mergulhar.

FC Brasil – O que as baleias têm a nos ensinar para o futuro? E por que é importante escutá-las?

David Gruber – Estamos procurando superinteligência em computadores quando já temos superinteligência nadando nos oceanos. Existem algumas centenas de milhares de baleias, e algumas podem viver mais de 200 anos. Imagine decodificar esses conhecimentos?

Em 30 milhões de anos de evolução, as baleias nunca precisaram fazer uma reunião climática para discutir o estado do planeta. Elas nunca disseram: “escutem, estamos comendo lulas demais. Você pode comer lulas aqui, você ali, precisamos regular isso”. Diferente dos humanos, que estão rumando para a própria extinção.

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De certa forma, elas têm sido guardiãs benevolentes dos oceanos por milhões de anos. Acho muito poderoso olhar para isso e aprender com elas. Também é um exercício de humildade. A própria essência da palavra humano está ligada à humildade. Humildade diante da ideia de que existem formas profundas de inteligência ao nosso redor.

Não precisamos nos sentir ameaçados por isso. Podemos simplesmente sentir admiração pelo fato de vivermos em um planeta extraordinário, um planeta azul, cheio de plantas verdes e de milhões de outras espécies.


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