5 perguntas para Eduardo Lopez, CEO do Google Cloud para a América Latina
Nesta entrevista, Lopez fala sobre o papel do Brasil na estratégia do Google Cloud e sobre os gargalos que começam a aparecer na nuvem

Eduardo Lopez comanda o Google Cloud na América Latina em um momento no qual a inteligência artificial começa a sair do campo da experimentação e chega na operação das empresas. A conversa muda de tom. Infraestrutura, estratégia e gente preparada passam a pesar mais do que o acesso à tecnologia em si.
Ele acompanha esse movimento de perto. Engenheiro eletrônico de formação, com duas décadas na Oracle, Lopez olha para uma região em que a base já está montada: hoje, 86% das empresas brasileiras usam computação em nuvem, enquanto o mercado de cloud na América Latina já passa de US$ 50 bilhões e segue em expansão puxado por IA.
Nesta entrevista, Lopez fala sobre o papel do Brasil na estratégia do Google Cloud e sobre os gargalos que começam a aparecer na nuvem. No fundo, o desafio deixa de ser testar e passa a ser sustentar: transformar uso pontual em capacidade real nas organizações.
FC Brasil – O Google vem investindo em infraestrutura técnica no Brasil há alguns anos. O que esse investimento diz sobre o papel que o país ocupa na estratégia da empresa para computação em nuvem e inteligência artificial?
Eduardo Lopez – Abrimos nossa primeira região de nuvem na América Latina no Brasil em 2017 para atender a um mercado sofisticado. De lá para cá, aceleramos os investimentos em conectividade, como o cabo submarino Firmina, que nos conecta diretamente aos Estados Unidos e homenageia uma intelectual brasileira e a capacidade computacional.
O marco mais recente desse investimento contínuo foi a chegada das nossas TPUs [Unidade de Processamento de Tensor, chips aceleradores de IA] Trillium à região de São Paulo no ano passado, processadores que se destacam pela eficiência energética em cargas de IA.
Trazer essa infraestrutura de ponta nos permite atuar como aliados das organizações brasileiras na criação de capacidades digitais e na inovação com IA. Tudo isso reforça uma certeza: o Brasil é a peça central da nossa estratégia de crescimento na América Latina.
FC Brasil – Como o crescimento da IA pressiona a infraestrutura de nuvem de um jeito diferente dos serviços tradicionais?
Eduardo Lopez – A IA está transformando tudo o que sabemos sobre a nuvem; poderíamos até dizer que ela não está mais apenas na nuvem, mas que a IA é a nova nuvem. Na prática, isso significa que a inteligência artificial tem o potencial, e já estamos presenciando isso, de redefinir as bases da tecnologia.

É por isso que o Google otimiza todas as camadas da sua arquitetura (o famoso “stack”) para rodar IA da forma mais eficiente, desde a criação de processadores próprios há mais de uma década (TPUs) até o desenvolvimento dos nossos modelos.
Na corrida pela IA, o principal gargalo não é mais apenas a disponibilidade de computação, mas a eficiência da arquitetura.
Enquanto a indústria historicamente tratou a IA como uma série de compras de hardware e softwares desconectados, hoje é necessária uma abordagem unificada. É isso o que o Google Cloud coloca à disposição das organizações no Brasil que querem inovar com IA.
FC Brasil – O Google Cloud planeja treinar um milhão de brasileiros em IA nos próximos anos. Mas o que significa falar em letramento de uma tecnologia que muda tão rápido o tempo todo?
Eduardo Lopez – Treinar um milhão de brasileiros não é sobre ensinar um software que ficará obsoleto amanhã; é sobre construir capacidades adaptativas. O verdadeiro letramento em IA significa criar uma força de trabalho "bilíngue": especialistas em suas áreas – como finanças ou RH – que sabem aplicar a IA para resolver problemas.
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Como a interação hoje é em linguagem natural (o prompt), o foco muda de "como programar" para "como estruturar problemas" e ter senso crítico. Nosso objetivo é criar ecossistemas de aprendizado contínuo, garantindo que os profissionais evoluam na mesma velocidade da tecnologia.
FC Brasil – Pensando nos próximos anos, o que acha que vai fazer mais diferença para a América Latina nessa transformação: infraestrutura, formação ou capacidade de desenvolver soluções próprias?
Eduardo Lopez – Dados do Fórum Econômico Mundial mostram que a IA pode gerar um impacto econômico anual de até US$ 1,7 trilhão na América Latina, mas a tecnologia sozinha não destrava esse valor. O sucesso da região não virá de inventar modelos do zero, mas da nossa velocidade de adoção.
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Para capturar esse valor, precisamos daquela força de trabalho “bilíngue” capaz de transformar tecnologia em soluções reais. A infraestrutura é o pré-requisito, mas a formação de talentos é o que fará a maior diferença e por isso é um grande foco (e motivação!) para mim e para meu time.
FC Brasil – Há pesquisas mostrando o Brasil acima da média global no uso de IA generativa. O que precisa acontecer para esse uso deixar de ser pontual, puxado pela “curiosidade” e virar capacidade mais estrutural?
Eduardo Lopez – De fato, a pesquisa global "Our Life with AI" (Nossa Vida com IA), conduzida pela Ipsos a pedido do Google, confirma esse cenário: 71% dos brasileiros conectados já utilizam chatbots de IA, índice bem superior à média global de 62%.
Na corrida pela IA, o principal gargalo não é mais a disponibilidade de computação, mas a eficiência da arquitetura.
O estudo mostra que a transição para o uso estrutural já começou: a curiosidade inicial deu lugar à utilidade prática, com 79% dos brasileiros usando a IA para aprender algo novo e 75% para otimizar o trabalho.
Para que essa adoção se torne uma capacidade organizacional, nosso trabalho no Google Cloud com nossos clientes foca em superar a estratégia das "mil flores" – a experimentação pulverizada e sem foco – para ajudá-los a priorizar casos de uso que geram benefícios concretos no curto prazo, enquanto desenvolvem o "músculo" de conhecimento e inovação necessário para sustentar a adoção de IA em escala.
Por fim, como processos legados são barreiras reais, o salto para uma capacidade verdadeiramente estrutural exige o redesenho do modelo operacional e da governança. Não basta implementar a tecnologia, é preciso modernizar as estruturas de decisão para que a IA deixe de ser uma ferramenta acessória e se torne o motor da estratégia.