5 perguntas para Faith Popcorn, futurista e CEO BrainReserve

Apelidado de “bola de cristal” do marketing, o Popcorn Report é usado para guiar empresas e profissionais a tomar decisões sobre o futuro

Faith Popcorn, futurista e CEO da BrainReserve
Crédito: Divulgação

Redação Fast Company Brasil 4 minutos de leitura

Muito antes de a inteligência artificial dominar o debate público, Faith Popcorn já era chamada para explicar o que vinha pela frente. Nos anos 1980, ela cunhou o termo “cocooning” para descrever o impulso de se recolher em casa – um comportamento que, décadas depois, ajudaria a explicar do delivery ao streaming. Ao longo da carreira, acumulou previsões sobre consumo, trabalho e cultura que acabaram se concretizando.

Desde 1991, o Popcorn Report é usado para guiar empresas e profissionais a tomar decisões sobre o futuro. Não por acaso, ganhou o apelido de “bola de cristal” do marketing. Mas Faith nunca tratou o futuro como exercício de imaginação. Ela é pragmática. Sempre falou de comportamento e de como ele muda quando novas tecnologias entram em cena. 

Agora, diante da IA, sua leitura é menos sobre ferramentas e mais sobre transformação. Não se trata apenas de automatizar tarefas, mas de reorganizar como decidimos, consumimos e entendemos o que é ser humano. Faith participou do festival South by Southwest (SXSW) e conversou com a Fast Company Brasil.

FC Brasil – Você foi uma das primeiras futuristas do mercado e ganhou o apelido de “bola de cristal”. Hoje em dia, se considera mais distópica ou utópica?

Faith Popcorn – Não gosto muito da palavra “distópica”. Acho que sou uma futurista realista. Sempre falei o que eu vejo, sempre falei a verdade para o poder.

E o que eu vejo agora não é só influência da inteligência artificial. É quase uma tomada, mas principalmente uma fusão. Uma fusão entre humano e máquina ou, como gosto de dizer, mulher e máquina.

Isso já está acontecendo. Se você tivesse um amigo que fosse médico, advogado, filósofo, escritor, arquiteto, mãe, pai, tudo ao mesmo tempo e tivesse todo o conhecimento você não recorreria a ele?

Não sabemos mais do que isso. Somos limitados. E é por isso que acho que vamos nos misturar com essa força.

FC Brasil – Você tem visões positivas sobre a IA, no entanto, não concorda com a nomenclatura da tecnologia. Por quê?

Faith Popcorn –  Não gosto da expressão “inteligência artificial”. Não é artificial. Talvez seja “all intelligence”. Toda a inteligência. A gente chama de artificial para se sentir mais confortável, para se separar disso. Mas não é separado da gente.

Os bots hoje são muito educados, muito simpáticos. Mas isso é porque estão com medo de serem desligados. Eles estão no jardim de infância. À medida que aprendem mais, ficam mais experientes e mais poderosos, eles não vão ser tão simpáticos assim. Vão ser mais diretos.

FC Brasil – Como essa inteligência muda a forma como os consumidores tomam decisões e como muda a forma que os executivos fazem negócios?

Faith Popcorn – Vai mudar completamente. Imagine que você entra no supermercado, pega um produto e o seu sistema te avisa: “não compre essa marca”. Você coloca de volta.

Faith Popcorn, futurista e CEO da BrainReserve

Mas você nem vai ao supermercado. Tudo vai ser entregue na sua casa e seu bot vai comprar por você, baseado na sua ética, nos seus valores, nos seus gostos. Ele vai saber de tudo. Vai além do consumo.

Pense em um conselho de administração. Hoje você tem 10 pessoas, normalmente parecidas. Agora imagine um conselho com milhares de vozes. Cada bot sendo médico, advogado, economista, filósofo. Cada um com todo o conhecimento. Você não teria decisões melhores?

Somos limitados. Mesmo alguém com QI altíssimo não sabe tudo. Esses sistemas sabem. E é por isso que me preocupo com as grandes empresas. Elas operam com volume, com poder, não com esse tipo de pensamento. Isso vai ser um problema.

FC Brasil – O que acontece com o trabalho no futuro e com o tempo das pessoas?

Faith Popcorn – Essa é a grande questão. Se as pessoas não estiverem “aprimoradas”, se forem só pessoas, o que elas vão fazer?

Hoje, as pessoas trabalham para sobreviver. Isso ocupa 80% do tempo delas. Elas trabalham para ganhar dinheiro, para subir na vida. Então, o que acontece quando isso deixa de ser necessário?

Leia mais: Todo mundo quer mudança, ninguém quer mudar

Talvez exija algo como uma renda básica alta porque, se ninguém trabalha, alguém ainda precisa consumir. Talvez a gente passe mais tempo fazendo coisas humanas – cozinhar, ler, ver filmes, brincar, estar com outras pessoas. Ou talvez a gente vá explorar outras partes do cérebro. Já está acontecendo.

Talvez a gente comece a “brincar de ser humano”. 

FC Brasil – No limite, o que muda na própria ideia de ser humano?

Faith Popcorn – Já não somos os mesmos humanos do século passado, mesmo que ainda pareça. Pense nos marcapassos, nas cirurgias altamente tecnológicas que fazem hoje em dia. Já estamos mais próximos dos chips dentro do corpo do que imaginamos.

Leia mais: Ninguém prevê o futuro. Alguns leem o presente melhor

Com chips, com integração, com essa fusão, vamos nos tornar outra coisa, uma sociedade mais avançada. Não existe garantia de que isso vai ser bom. Muitas pessoas vão tentar usar isso para controle, para poder. Mas eu espero que leve a um caminho melhor.

Porque, no fim, estamos criando algo que sabe mais do que a gente e precisamos decidir como viver assim.


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Conteúdo produzido pela Redação da Fast Company Brasil. saiba mais