5 perguntas para Flávia da Justa, diretora de comunicação e conteúdo do Flamengo

Nesta entrevista, a executiva fala das pressões e dos desafios de lidar com o público extremamente engajado (e apaixonado) do futebol

Flávia da Justa, diretora de comunicação e conteúdo do Flamengo
Crédito: Divulgação

Redação Fast Company Brasil 3 minutos de leitura

No Brasil, futebol não é só entretenimento. É rotina, assunto do final de semana, tema da segunda-feira e termômetro do humor coletivo. E nenhum clube vive isso em escala maior do que o Flamengo, dono da maior torcida do país, com 19% dos torcedores de futebol.

Depois de um 2025 marcado por títulos como a Copa Libertadores e o Campeonato Brasileiro, o Flamengo também ampliou sua presença fora de campo. O clube lidera as redes sociais nas Américas, com 66,7 milhões seguidores, segundo levantamento do Ibope Repucom. Só no Instagram são 24,5 milhões (com crescimento de 175 mil novos fãs apenas em janeiro). 

À frente dessa operação está Flavia da Justa, diretora de comunicação e conteúdo do clube. Com trajetória no marketing, ela tenta estruturar o Flamengo como uma media house, capaz de manter relação contínua com o torcedor, independentemente do resultado do fim de semana.

Nesta entrevista à Fast Company Brasil, Flávia fala das pressões e dos desafios de lidar com o público extremamente engajado (e apaixonado) do futebol.

FC Brasil – O Flamengo tem 19% da torcida brasileira. Como equilibrar paixão e abordagem profissional para maximizar faturamento?

Flavia da Justa – O Flamengo nasce da paixão e isso não é um obstáculo. É o principal ativo. O equilíbrio acontece quando essa paixão é respeitada e organizada dentro de uma lógica profissional.

Nosso papel não é esfriar a relação com o torcedor, mas transformar esse vínculo emocional em experiências consistentes, produtos relevantes e relações de longo prazo.

Profissionalismo, para nós, não significa distanciamento, mas confiança e entrega. Quanto mais o torcedor percebe coerência entre discurso e prática, maior é a disposição para se engajar, consumir e caminhar junto com o clube.

FC Brasil – Escala não é relacionamento. Quais métricas orientam decisões de produto e investimento?

Flavia da Justa – Hoje, a escala é ponto de partida, não de chegada. As decisões do Flamengo são orientadas por métricas de qualidade de vínculo, não apenas de volume.

torcida do Flamengo na final do  campeonato carioca de 2025
Crédito: Pexels

Olhamos recorrência de interação, profundidade de engajamento, retenção em produtos, comportamento entre plataformas e, principalmente, a jornada do torcedor: como ele entra, por onde circula e quanto tempo permanece conectado ao clube.

FC Brasil – Quais os desafios de lidar com uma audiência tão engajada? Quando responder, filtrar ou sustentar decisões impopulares?

Flavia da Justa – O maior desafio é entender que engajamento alto significa expectativa alta. A comunicação do Flamengo parte de alguns princípios: escutar, responder quando há valor em esclarecer, filtrar quando o ruído não contribui e sustentar decisões quando elas fazem parte de um projeto de longo prazo.

Nem toda decisão popular é a melhor decisão, e nem toda insatisfação exige reação imediata. O torcedor pode discordar, mas ele precisa entender o caminho. Transparência, coerência e constância são fundamentais para manter a confiança, mesmo nos momentos de tensão.

FC Brasil – O Flamengo disputa atenção com streaming, creators e produtos culturais. Como pensar fora da lógica tradicional do futebol?

Flavia da Justa – O Flamengo se enxerga como um hub de mídia e conteúdo. É uma media house, com canais proprietários como Flamengo TV, redes sociais e site, e também uma content house, criando e coproduzindo conteúdo para terceiros usando o DNA rubro-negro para gerar histórias e conexão legítima com a nossa audiência. 

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O Flamengo ultrapassa o próprio futebol, é cultura, comportamento, lifestyle, fé, brasilidade. Pensar fora da lógica tradicional do futebol é assumir que a marca Flamengo é muito mais do que o resultado esportivo.

FC Brasil – Olhando para os próximos anos, quais frentes são decisivas para reduzir a dependência dos ciclos esportivos?

Flavia da Justa – O futebol seguirá sendo o motor, mas a sustentabilidade passa por diversificação e profundidade de relacionamento.

As frentes decisivas estão na consolidação da mídia própria, no uso inteligente de tecnologia e dados, na evolução dos programas de relacionamento e na criação de experiências que façam o torcedor se sentir parte do clube em diferentes momentos, não apenas em dias de jogo.

Quanto mais o Flamengo constrói vínculo contínuo, mais resiliente se torna frente aos ciclos naturais do esporte.


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