5 perguntas para Guilherme Gennari, da Unilever

Crédito: divulgação/Solen Feyissa/unsplash

Claudia Penteado 5 minutos de leitura

Guilherme Gennari é natural de Jundiaí, no interior de São Paulo, pai da Alice, de 3 anos, e ex-jogador profissional de pólo aquático. Formado em Biologia pela Unicamp, e atualmente cursando uma Especialização em Biomimética na Arizona State University, ele trabalha com inovação há mais de 15 anos e atualmente lidera projetos disruptivos para a divisão de home care da Unilever para as Américas. Nesta conversa com a Fast Company Brasil, ele traz sua visão sobre inovação, fala sobre sobre cuidado e transparência na liderança, sobre a liberdade de ser quem se é, sobre genialidade, poder e magia.

O que é inovação para você?

Inovar, para mim, é gerar movimento por meio de novidades que agreguem valor! E acredito que isso se aplica tanto para produtos, serviços, processos e modelos de negócio, por exemplo, mas também para nossas relações pessoais. É fundamental que exista geração de movimento, algo que te tire de uma posição inicial, mas é igualmente importante que se agregue valor real ao maior número de elementos ao longo de toda a cadeia (inclusive ao próprio planeta). Também acredito que o critério de ‘novidade’ e da própria ‘inovação’ depende do contexto, de diferentes lentes de observação e histórias de vida, não cabendo uma única classificação. O acesso a um vaso sanitário, por exemplo, mesmo com muitos anos de existência, ainda nos dias de hoje seria – infelizmente – uma inovação relevante para quem não tem um mínimo de saneamento básico. Acredito que estamos mal-acostumados a pensar inovação apenas como algo completamente inédito em nosso setor ou na história, além do fato de muitas vezes não enxergarmos nossas próprias limitações e vieses – a natureza inova há 3,8 bilhões de anos e pouco percebemos ou falamos sobre isso.

Qual é, na sua opinião, a habilidade mais importante para exercer a (boa) liderança?

Um bom líder deve ter capacidade de inspirar, cuidar e servir sua equipe, além de agir com transparência. A liderança inspiracional vai além das relações de poder e hierarquia apenas, ela é construída sobre visões compartilhadas de futuros e valores e, por isso, tem maior potência na mobilização e engajamento de pessoas. Já o cuidado implica uma escuta ativa, conhecer cada indivíduo em suas fortalezas e vulnerabilidades (e não apenas àquelas empregadas na função que exerce), e coloca a relação humana como ponto de partida. Isso não quer dizer que não exista cobrança e compromisso, muito pelo contrário, faz com que cada pessoa se sinta vista por inteiro, como realmente é, tenha mais liberdade, se sinta mais valorizada e produza com maior qualidade! E ao permitir ver e ser visto, a transparência permite conduzir a relação de forma clara, ancorada em fatos e entregas reais, e abre ainda mais oportunidades de evolução por meio do entendimento e discussão dos erros cometidos e dos movimentos acertados.

Qual a sua visão sobre qualidade de vida?

Para mim é poder ter liberdade de ser quem você realmente é em qualquer lugar e ter garantia sobre direitos humanos básicos – e nestes dois aspectos temos muito a avançar como sociedade. Acredito que seja o resultado do constante balanço entre o ‘eu’ e o ‘externo’, uma combinação de como estou (física e emocionalmente) mas também de como estão as pessoas ao meu redor e o contexto em que estamos inseridos – tudo está conectado! Na posição de homem branco, cis, hetero, sou privilegiado em poder dizer que minha qualidade de vida está inicialmente em ter liberdade para ser quem eu sou (o que não ocorre com muitas pessoas), tenho acesso aos meus direitos básicos e isso também me permite avançar na busca por meus sonhos, me dedicar à minha filha, passar tempo com minha família e amigos mais próximos. E costumo dividir com companheiros de trabalho muitos temas da minha jornada pessoal, acho que isso ajuda a criar um ambiente em que outros podem também ser quem realmente são, expor suas fortalezas e fraquezas e, desta forma, trazer mais verdade para as relações.

O que o conceito de sustentabilidade representa para você?

Acredito que o conceito de sustentabilidade e sua evolução para ESG (environmental, social, governance) são fundamentais para nossa sobrevivência como espécie e, portanto, também são fundamentais para a forma como fazemos negócios em qualquer organização. Como sociedade temos muito o que avançar nos temas de diversidade, equidade e inclusão, de forma a ampliarmos os pontos de vista e perspectivas, e assim agregarmos mais valor para a vida das pessoas. Mas acredito que apenas arranhamos a superfície na maioria das atividades porque simplesmente buscamos formas mais eficientes e mais sustentáveis de fazer a mesma coisa – o que também é importante mas, na situação em que chegamos com o planeta, não é o suficiente. A natureza é completamente circular e tem padrões muito claros do que é ser sustentável, dos quais nos distanciamos muito: como a alta eficiência e zero desperdício no uso de materiais e energia, ou mesmo o uso de química segura à própria vida sem solventes e compostos tóxicos. Precisamos de todos os setores, indústrias, governos, organizações e cidadãos repensando como funcionamos como sociedade, afinal a natureza também é muito mais cooperativa e simbiótica do que competitiva.

Qual o melhor conselho que já recebeu na vida?

Tive uma formação no esporte de alto rendimento (jogo polo aquático desde os 12 anos) e aprendi na prática o valor do trabalho em equipe, da liderança circunstancial, da importância de reconhecer a fortaleza e vulnerabilidade de cada membro do time, da preparação, das reações das vitórias e derrotas, e da disciplina e confiança ao longo da jornada. Mas além destas vivências especiais tem uma frase do Goethe que me marcou e ainda me motiva muito olhando para os futuros possíveis: “Seja qual for seu sonho, comece: ousadia tem genialidade, poder e magia”. Ela é atemporal, inspira uma dose de ousadia necessária, traz o conceito de um novo começo sempre, é inclusiva porque a todos é possível sonhar, além de abordar a genialidade e magia por trás de simplesmente ir atrás de seus próprios sonhos (sem julgamentos de quais serão eles!).  


SOBRE A AUTORA

Claudia Penteado é editora chefe da Fast Company Brasil. saiba mais