5 perguntas para Harvey Mason Jr., CEO da The Recording Academy

O líder da organização que distribui um dos mais prestigiados prêmios da indústria fonográfica fala sobre o que diferencia o Grammy Awards na era da IA

Harvey Mason Jr, CEO daThe Record Academy
Crédito: Divulgação

Robert Safian 5 minutos de leitura

A cerimônia de entrega do Grammy Award aconteceu neste domingo (1º de fevereiro), em um momento decisivo para a indústria da música, influenciada pela ascensão de artistas latinos, pelo retorno de lendas do rock e até por criações feitas com IA.

Em entrevista ao podcast Rapid Response, apresentado por Robert Safian (ex-editor-chefe da Fast Company), o CEO da The Recording Academy, Harvey Mason Jr., explica como os vencedores do Grammy são escolhidos e como a música tanto reflete quanto influencia a sociedade e os negócios.

Robert Safian – Estava olhando os indicados a Álbum do Ano, que reúnem vários megaartistas: Justin Bieber, Tyler, the Creator, Lady Gaga, Kendrick Lamar, Bad Bunny. Até que ponto os indicados ao Grammy refletem o mercado?

Harvey Mason Jr. – Os indicados têm a intenção de refletir o mercado – essa é a nossa expectativa –, mas, na prática, refletem a vontade dos votantes. E você nunca sabe o que vai cair no gosto dos votantes de um ano para o outro.

Temos cerca de 15 mil membros votantes. Todos são profissionais da música, sejam compositores, arranjadores, produtores ou artistas. Ou seja, são pares das pessoas que estão sendo indicadas.

Às vezes eles surpreendem e votam em algo que eu não estava esperando; em outras, ficam bem no meio do caminho. Mas a ideia é que as indicações sejam um reflexo direto e sem interferências daquilo que os votantes apreciam e querem votar.

Robert Safian KPop Demon Hunters é a banda animada desse filme inovador o longa mais assistido da história da Netflix. Mas o álbum da trilha sonora também chegou ao nº 1 da Billboard. Há alguma mensagem nisso sobre a música e para onde ela está indo no futuro?

Harvey Mason Jr. – Não me surpreendeu, porque era realmente muito bom. E a mensagem que isso passa é que você pode vir de qualquer lugar – de qualquer país, de qualquer mídia. Pode surgir de uma plataforma de streaming, de um programa, de um estúdio montado na garagem. Se a sua música for boa, ela vai fazer sucesso. Vai encontrar um público.

filme de animação KPop Demon Hunters

O que me empolga na música hoje é justamente a diversidade de lugares onde ela está sendo criada e de onde ela está surgindo. E também a acessibilidade ao público.

Você não precisa gravar um disco e torcer para que ele seja mixado e masterizado, depois esperar que alguém o lance e faça o marketing do jeito certo. Você pode criar algo e lançar. E, se isso gerar empolgação… as pessoas vão amar e circular em torno disso.

Robert Safian Uma das bandas que acabou registrando grandes números de streaming foi a Velvet Sundown, que é baseada em IA. Vai chegar um momento em que criações feitas por inteligência artificial terão sua própria categoria no Grammy? Hoje existem restrições para artistas que usam IA na música?

Harvey Mason Jr. – A IA está avançando rápido demais… De um mês para o outro, ela faz coisas novas, melhora e muda o que está fazendo. Então vamos ter de ser muito diligentes, acompanhar de perto e ver o que acontece.

O que me empolga na música hoje é justamente a diversidade de lugares onde ela está sendo criada.

Minha perspectiva sempre será proteger os criadores humanos, mas também preciso reconhecer que a IA é, sim, uma ferramenta que vai ser usada. Pessoas como eu e outros nos estúdios pelo mundo vão descobrir como usar isso para fazer boa música.

Por enquanto, a IA não desqualifica ninguém de submeter um trabalho ao Grammy. Há certas exigências e regras a serem seguidas, mas o uso de IA não impede a inscrição.

Não tenho problema em admitir que uso a IA como ferramenta criativa. Às vezes quero ouvir um som diferente ou uma instrumentação fora do comum…

Nunca serei o artista que depende da IA para criar algo do zero, porque o que eu mais amo no mundo é fazer música. Então, não acho que algum dia serei essa pessoa que simplesmente confia em um computador, software ou plataforma para fazer isso por mim.

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Mas, assim como o auto-tune, uma bateria eletrônica ou um sintetizador, existem coisas que podem ampliar o que estou tentando levar daqui até ali. E, se essas coisas vierem nesse formato, acho que todos nós vamos acabar tirando proveito delas.

Só que precisamos fazer isso com cuidado. Com limites claros. Com respeito. Em que música isso está sendo treinado? Existe consentimento? Os artistas estão sendo remunerados adequadamente? Tudo isso precisa estar bem estabelecido.

Robert Safian – A Latin Recording Academy se separou da Recording Academy há cerca de 20 anos. Você repensa essa decisão hoje em dia? A música latina domina as paradas mainstream [nos EUA] e muitos artistas recebem indicações ao Grammy. A música latina deveria ser separada?

Harvey Mason Jr. – A história é um pouco diferente. Nós já representávamos a música latina no show principal e sua popularidade exigiu que criássemos mais categorias. Para dar espaço a mais categorias e honrar toda a diversidade dos diferentes gêneros da música latina, criamos o Grammy Latino, para que eles tivessem esse destaque.

Atualmente, os membros da Latin Academy também são membros da The Recording Academy dos EUA. Ou seja, não deixamos os gêneros latinos de lado nem tentamos separá-los. O que fizemos foi destacá-los e valorizá-los.

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Acho que veremos mais disso no futuro, à medida que outros gêneros e outras regiões tornem sua música ainda mais conhecida globalmente. Não se trata apenas de música feita em um único país – pelo menos, não deveria ser. Deveria ser sobre música do mundo inteiro.

Robert Safian Em vez de estreitar o foco, vocês poderiam ter… academias adicionais ou complementares, ou projetos que tragam essa expertise para áreas novas e em crescimento pelo mundo?

Harvey Mason Jr. – Com certeza. Vamos precisar continuar expandindo nosso quadro de membros. Para honrar toda a música que está sendo feita hoje – mais do que nunca e em mais lugares do que nunca –, nossa base de membros precisa refletir essa realidade. Precisamos de pessoas que conheçam diferentes gêneros.

Há tantos artistas incríveis e tantos discos excelentes. E estamos vendo uma mistura de gêneros, com artistas ocidentais interagindo ou colaborando com artistas de diferentes partes do mundo. É isso que está acontecendo. Não dá para negar.


SOBRE O AUTOR

Robert Safian é diretor e editor do The Flux Group. De 2007 a 2017, dirigiu as operações da Fast Company em mídia impressa, digital e ... saiba mais