5 perguntas para Jordan Edjemo, head de design da Ikea

Executivo explica como a marca combina conforto, economia de materiais e preços acessíveis e por que não usa IA no design de produtos

Jordan Edjemo, head de design da Ikea
Crédito: Ikea

Nate Berg 5 minutos de leitura
Favoritar no Google

Marceneiro de formação, o sueco Johan Ejdemo acumula quase 30 anos de experiência na Ikea. Desde 2022, lidera o design da companhia, à frente de uma equipe de 20 designers na Suécia e de profissionais independentes de diferentes países. Juntos, eles dão forma aos 1,5 mil a dois mil produtos que a marca lança a cada ano.

Boa parte desses projetos passa anos em desenvolvimento. Alguns levam mais de uma década até chegar às lojas. Nesse trabalho de imaginar o que as pessoas terão em casa no futuro, Ejdemo olha para a escolha dos materiais, as emoções que os objetos despertam e as possibilidades de reduzir custos sem abrir mão da qualidade.

É o que a Ikea chama de design democrático: produtos de alta qualidade, desenvolvidos e produzidos em escala para chegar ao menor preço possível. “Somos muito nerds. Vamos muito a fundo nos detalhes”, afirma.

Nesta entrevista, Ejdemo fala sobre circularidade, inteligência artificial e os desafios de manter uma equipe experiente aberta a novas ideias. A conversa aconteceu na sede da Ikea, em Älmhult, na Suécia.

Fast Company – Como o design está mudando na Ikea em 2026 e o que impulsiona essas mudanças?

Johan Ejdemo – Um dos aspectos que mais levamos em conta no design hoje é a circularidade. E ela é considerada em toda a cadeia de valor. Essa é a grande novidade na maneira de desenhar e projetar produtos.

Fast Company – Que tipos de produtos vocês estão priorizando?

Johan Ejdemo – O desejo de otimismo, de diversão e de interação humana está muito presente na maneira como projetamos e desenvolvemos produtos hoje. Isso fica evidente em alguns dos lançamentos e das coleções que apresentamos recentemente e ficará ainda mais claro no futuro.

Mas essa abordagem vai além da irreverência, da diversão e das cores. Ela também pode aparecer nos materiais naturais e na sensação de aconchego. Há muitas dimensões nisso.

FFast Company – Há categorias de produtos ou áreas da casa que recebem mais atenção neste momento?

Johan Ejdemo – Não, mas sempre existe um desafio quando há demanda por produtos grandes e volumosos. São categorias difíceis para nós porque esses itens precisam ser transportados, o que custa caro. Eles também podem consumir muito material se o projeto não for bem pensado.

Boa parte desse trabalho está relacionada ao conforto de colchões e sofás, mas acredito que estamos à frente nesse campo. Somos muito bons em oferecer um alto nível de conforto usando materiais de maneira eficiente.

Conseguimos reduzir o uso de espuma e, ainda assim, alcançar um conforto superior ao de quando esses produtos dependiam muito dela.

Nos guarda-roupas, por exemplo, acabamos de lançar um novo sistema de montagem simplificada, para que o consumidor não tenha de fazer todo o trabalho. Isso facilita a vida de quem compra e, ao mesmo tempo, torna a produção mais eficiente.

Esses guarda-roupas são feitos de painéis de partículas de madeira, mas a densidade é maior nas áreas onde são feitos os furos para as prateleiras e menor onde isso não é necessário.

Até nisso somos muito nerds. Vamos muito a fundo nos detalhes para identificar onde podemos economizar material. Aqui precisamos de um reforço; ali, ele não faz sentido. Distribuímos o valor e o custo dentro do próprio produto.

Fast Company – A inteligência artificial está mudando a maneira como vocês trabalham ou influenciando quais ideias se tornam produtos?

Johan Ejdemo – Não usamos IA no design. A tecnologia ainda envolve muitas questões. Todos precisamos seguir regras sobre as ferramentas que usamos, e elas têm de ser aprovadas.

Talvez surja algum tipo de apoio de IA que seja útil para os designers, mas hoje não temos isso. Há também um aspecto jurídico. Se você usa IA no processo de design, não pode reivindicar direitos sobre esse design, por exemplo. Tentamos evitar cair nessa armadilha.

Leia também: O que a Ikea aprendeu ao desistir da meta de ser “carbono positiva”

Mas já vi a IA ser bastante útil para criar uma simulação visual de uma imagem que poderia ser usada depois em materiais de comunicação. Apenas um esboço, para que as pessoas possam olhar e dizer “sim, é nessa direção que queremos seguir.”

Ela não está sendo usada para projetar o produto final. Entra como qualquer outra ferramenta que simplificou alguma tarefa. Antes, as imagens eram feitas com pintura. Depois veio a fotografia, depois a digitalização e assim por diante. Agora, também é possível acrescentar uma camada de IA que pode ser útil.

Fast Company – Como você incentiva os designers, tanto da equipe interna quanto de fora da empresa, a assumir riscos criativos ao desenvolver novos conceitos?

Johan Ejdemo – Preciso insistir muito. Quando alguém trabalha com design há cerca de 20 anos, começa a descartar as próprias ideias cedo demais, porque já sabe demais.

Essa é uma das razões estratégicas para eu sempre ter de três a quatro estagiários na equipe. Eles acrescentam algo diferente à conversa. Exploram, experimentam, e todos são orientados por designers da equipe interna. Isso mantém o diálogo e a troca.

Talvez surja algum tipo de apoio de IA que seja útil para os designers, mas hoje não temos isso.

É difícil simplesmente dizer a alguém que precisa ousar mais. A questão é como incorporar isso à cultura da equipe de design.

Também existe uma dimensão individual. Uma pessoa sempre vai explorar mais os limites. Outra será mais focada na execução da tarefa. Uma terceira talvez precise de um incentivo para arriscar um pouco mais.

Por isso, a orientação também precisa ser individual. Eles não são uma pessoa só. Pensam de formas diferentes, fazem as coisas de maneiras diferentes e seus processos criativos também são distintos.


SOBRE O AUTOR

Nate Berg é jornalista e cobre cidades, planejamento urbano e arquitetura. saiba mais