5 perguntas para Juliette Freire

Vencedora do Big Brother Brasil 21, Juliette fala sobre inteligência emocional, responsabilidade nas redes sociais, autenticidade e saúde mental em um mundo cada vez mais acelerado.

Juliette Freire, apresentadora, cantora e comunicadora, durante entrevista à Fast Company Brasil sobre inteligência emocional, influência digital e saúde mental.
Juliette Freire defende que inteligência emocional é o principal diferencial humano diante do avanço da inteligência artificial.

Victor Calazans 8 minutos de leitura

Antes de vencer o Big Brother Brasil 21, Juliette Freire já tinha sido advogada e maquiadora. Depois do programa, se tornou uma das comunicadoras mais influentes do país e hoje soma apresentação, música e produção de conteúdo digital a uma trajetória marcada por reinvenções.

Com vaga fixa no Saia Justa, do GNT, e milhões de seguidores nas redes sociais, Juliette construiu uma marca pessoal em torno da espontaneidade e da opinião própria, características que ela diz cultivar deliberadamente, inclusive nas parcerias publicitárias que recusa quando não fazem sentido para a sua imagem.

Nesta entrevista, ela fala sobre a confiança que diz ter conquistado mesmo antes da fama, os limites entre a influenciadora e a pensadora, e a forma como tenta cuidar da própria saúde mental e da de quem está à sua volta, num ritmo que considera adoecido.


FC Brasil – Você é vista hoje como uma pessoa muito mais opinativa, alguém que ocupa um espaço de pensadora antes mesmo de chegar com a sua imagem. Como você encontrou essa voz?

Juliette Freire – Eu sempre tive muita consciência do poder da minha voz, do meu repertório e das minhas experiências, e muita confiança no que estudei, no que vivi e no que acredito. Por isso nunca foi difícil para mim colocar minha opinião, tenho uma segurança muito grande.

Sou um produto, queira ou não  e meu produto não pode danificar a vida do outro

No Big Brother, curiosamente, perdi um pouco dessa confiança nos primeiros momentos. Foi um processo de chegar ao fundo do poço comigo mesma, de não me reconhecer quando fraquejei na minha assertividade. Mas isso também foi uma mola, porque precisei entender rápido que o que eu tinha de mais potente não era ser vulnerável, era ser eu mesma, era o meu repertório, era a minha experiência. Fortaleci isso de uma forma muito potente, e fiquei tão mais robusta e confiante que tudo o que acontecia no programa, por mais difícil que fosse, confirmava que aquele era o meu superpoder. Ganhei o respeito do público, a credibilidade, e isso me fortaleceu ainda mais.

Sempre fui uma pessoa autoconfiante, embora fraqueje muitas vezes, até hoje. Tenho um repertório social muito rico, formado com muitas quedas, dificuldades e ambientes difíceis, de falta, de carência, de violência, de comunidade e também um repertório intelectual, construído por experiências que me desenvolveram academicamente. São essas coisas que me deixam segura. Posso até falar alguma besteira, mas é a minha verdade. Acho que isso assusta as pessoas, porque talvez elas não me achem tão... assim. Mas eu me acho, então, para mim, é fácil.

FC Brasil – Hoje você é uma influenciadora digital e produtora de conteúdo muito presente nas redes. Como você separa esse lado influenciadora do lado pensadora, já que toda opinião sua tem consequência?

Juliette Freire – Eu acho que existem duas dimensões. Tenho o direito de exercer minha individualidade em assuntos que cabem só a mim, que não vão influenciar negativamente o outro. Mas existe outra dimensão, que é o ser coletivo: como influenciadora, tenho a obrigação de proteger o meu público e, minimamente, não machucá-lo, não danificá-lo.

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Em tudo que vai refletir na vida do outro, na existência do outro ou na sociedade, é minha responsabilidade ter essa consciência. Em assuntos que dizem respeito só a mim, o problema é meu. Acho que, hoje, muita gente que ganha engajamento e protagonismo nas redes não faz essa reflexão de que é um ser social com responsabilidade sobre esse público. Sou um produto, queira ou não  e meu produto não pode danificar a vida do outro, a existência do outro, o direito do outro. A gente vê os danos causados por más influências por aí.

Tem coisas que as pessoas não precisam se espelhar em mim, não sou exemplo para ninguém em vários aspectos da minha vida pessoal, como a sexualidade. Mas tenho obrigação de respeitar a sexualidade de todos os outros. Falta um pouco essa consciência de qual é o lugar coletivo e qual é o lugar individual. O individual cabe a mim, e posso partilhar ou não. Mas quando partilho, e quando isso influencia outras pessoas, sou responsável por tudo o que causa.

FC Brasil – A espontaneidade é uma das suas marcas, mas em parcerias publicitárias ela muitas vezes precisa ser gerenciada. Já pediram para você suavizar seu jeito de falar, ou até o seu sotaque?

Juliette Freire – Já pediram de tudo: para suavizar o sotaque, para falar de um jeito que não fosse o meu, para passar uma informação em que eu não acredito. Mas eu tenho o privilégio de selecionar as marcas com que trabalho, assim como elas me escolhem. Sei que nem tudo me cabe, por mais financeiramente maravilhosa que seja uma proposta, se não fizer sentido, eu não aceito.

A maior habilidade do ser humano é a inteligência emocional.

Quando vamos montar uma estratégia, existe a marca e existe a persona que vai representá-la. O primeiro filtro é se a marca faz sentido para mim. O segundo é que, se você quer a Juliette, tem que se moldar à Juliette e eu não me descaracterizo para fazer absolutamente nada. Tem que ser a minha comunicação, senão não faz sentido. Então eu coloco minha opinião, marco reunião com o marketing, com quem for, e me recuso quando preciso: não vou falar dessa forma, porque não sou eu.

Tenho muita sorte de ter uma comunicação clara e honesta com parceiros que entendem e seguem comigo. Gosto de criar junto com a marca, então tenho pouquíssimos problemas, porque faço parte das criações. Já tive parceiros que me escolheram como embaixadora justamente porque sei dizer não e porque eles não querem uma boneca que faça só o que pedem, sem entender a minha comunidade. Eles querem minha comunidade, minha comunicação e minha opinião. E é por isso que dá certo.

FC Brasil – Você já foi advogada, maquiadora e hoje é apresentadora, comunicadora e cantora. Em um momento em que estudos apontam que profissões inteiras podem desaparecer, como você vê essa capacidade de se reinventar?

Juliette Freire – O que eu acreditava há muitos anos se prova todos os dias na minha vida e faz total sentido com essas pesquisas: a maior habilidade do ser humano é a inteligência emocional. Isso envolve a capacidade de lidar com o social, com problemas, com mudanças e isso máquina não substitui. Conhecimentos técnicos são muito substituíveis, por máquinas ou por outras pessoas. Inteligência emocional é algo único, quase como a impressão digital de cada um.

Sempre fui moldada por experiências diversas, muitas vezes vistas como contraditórias, mas na minha cabeça nunca foram. Maquiagem e direito parecem dois universos totalmente diferentes, mas existem pontos de conexão, do esmero e do cuidado até questões de marca, patente e direito autoral. Áreas de conhecimento técnico são diferentes entre si, mas a maior potência do ser humano é a inteligência emocional.

Foi isso que me fez passar por várias carreiras, e me faz até hoje: se me colocam para trocar uma peça do carro, eu vou trocar; se me colocam para liderar uma empresa, eu vou estudar e fazer; se é para cantar, eu estudo e canto. Se você tem inteligência emocional, capacidade de se adaptar e intelectualidade para se preparar, a máquina e a IA não vão substituir isso. Não tenho preocupação nenhuma. A inteligência emocional, no sentido amplo, de sentimento e de habilidade para lidar com as coisas, é o diferencial do ser humano. Sempre foi, e sempre será.

FC Brasil – Você fala abertamente sobre saúde mental, a sua e a das pessoas no seu entorno. Como você cuida disso, da sua família e da sua equipe?

Juliette Freire – É um desafio diário, não é fácil. Sou uma pessoa bem resolvida com muita coisa, mas enfrento muitos desafios, eu, minha família, minha equipe, meus amigos. Acho que é uma questão da nossa geração, da humanidade hoje. Tento ser o mais justa e transparente possível com quem está perto de mim, mas a cobrança e a velocidade são constantes. Esse é o ritmo que a gente foi estabelecendo, e que deixou todo mundo doente e é muito difícil se dissociar disso. Sair desse ritmo é uma escolha corajosa, e confesso que não tenho sempre essa força.

Faço terapia, tento ler, converso muito na minha relação, com meus amigos. Temos reuniões semanais, mentoria, terapia de família, terapia institucional. Até montei uma rodada de livros com meus sobrinhos em casa: cada um lê um livro, depois trocamos. É tentativa, todo mundo tentando. A gente não tem a fórmula estamos inseridos numa sociedade adoecida, e não tem como estar imune. Quem tiver a receita, me dê, porque eu não tenho. Mas acho que é isso: buscar ajuda profissional e se proteger, mesmo sabendo que isso não significa estar imune.


SOBRE O AUTOR

Victor Calazans tem mais de 15 anos de experiência em redes sociais, com uma década dedicada ao universo de celebridades e entretenime... saiba mais