5 perguntas para Maria Sharapova, investidora e empreendedora
Ex-tenista fala sobre Nike, investimentos, mundo corporativo, fracassos empresariais e a nova realidade do esporte feminino

Cinco títulos de Grand Slam e mais de uma década como a atleta mais bem paga do mundo. Ainda assim, talvez a competição mais intensa que a russa Maria Sharapova enfrente hoje seja outra.
Em entrevista ao podcast Rapid Response, apresentado por Robert Safian (ex-editor-chefe da Fast Company), a ex-tenista fala sobre sua segunda carreira como investidora, empreendedora e podcaster e sobre o que as quadras nunca a prepararam para enfrentar.
Rapid Response – Você era muito jovem quando ganhou em Wimbledon, em 2004, o primeiro dos seus cinco Grand Slams, aos 17 anos. Naquela época, você já era estratégica em relação às marcas com as quais se associava? Ou nem participava dessas decisões?
Maria Sharapova – Eu participava desde o primeiro dia. Depois daquela vitória, lembro que saí do carro para o baile de Wimbledon e meu empresário – que continua sendo meu empresário até hoje – olhou para mim e disse: “não vai haver uma câmera que você não vá amar esta noite. Aproveite essa oportunidade ao máximo.”
Uma semana depois, eu já estava de volta à Califórnia treinando sete horas por dia. Mas, naquele momento, era sobre maximizar o potencial.
Naquela mesma semana, tirei alguns dias de folga, fui para Portland e renovei meu contrato com a Nike. Meu pai me disse para entrar na sala de negociação. Disse: “talvez haja coisas que você não entenda. Algumas partes do contrato não vão ser familiares para você. Mas este é o seu futuro. É o seu dinheiro. Você precisa estar naquela sala.”
Eu era adolescente, tinha 17 anos. O que eu sabia sobre dinheiro? Mas ele dizia: “só esteja lá. As pessoas do alto escalão que vão jogar esse grande jogo vão ver o seu rosto. E vai ser mais difícil tentar diminuir o valor do acordo.” Lembro de ficar impressionada com a quantidade de zeros sendo discutida naquela sala.
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Logo depois, assinei meu primeiro contrato fora do esporte com a Motorola, que estava lançando o celular Razr. Não era um cheque enorme, mas a oportunidade era gigantesca, porque eu estaria em outdoors no mundo inteiro.
Meu empresário disse: “aceite esse contrato. As pessoas vão ver seu rosto, conhecer seu nome e isso vai abrir portas para coisas maiores.” Foi uma lição muito importante.
Rapid Response – Para muitos atletas e celebridades, o negócio se resume a contratos de patrocínio. Você foi além: tornou-se investidora, empreendedora e líder estratégica de negócios. Hoje faz parte do conselho da marca de moda Moncler. Participar de um conselho traz uma pressão diferente? Como você enxerga seu papel ali?
Maria Sharapova – É um tipo diferente de intensidade. Cada encontro parece uma reunião da ONU. Tudo acontece em italiano porque é uma empresa italiana de capital aberto.
Uma coisa que faz falta é aquela sensação de match point que existe no esporte, aquela tensão constante. Você vive sob pressão e, quando termina algo que exigiu tanta concentração emocional, não existe nada parecido.
"Se existisse [um manual], acho que ele estaria sendo completamente reescrito agora para as atletas mulheres."
Poucas coisas fazem sua adrenalina disparar daquele jeito. Estar naquela sala do conselho foi uma das primeiras vezes em que pensei: “uau, estou em território desconhecido. Gosto dessa sensação de precisar aparecer e provar algo.”
Talvez isso não funcione para todo mundo, mas eu vi como uma oportunidade de aprender. Sentar em uma sala com Remo Ruffini e discutir sucessão, evolução de negócios…
A Moncler é uma empresa sazonal, muito associada ao inverno. Então surge a pergunta: como se tornar relevante não apenas durante 70% do ano, mas em 95% dele?
Eu aprendo muito. Amo isso. E tenho a chance de estar cercada de pessoas inteligentes.
Rapid Response – Você sempre teve reputação de competidora implacável nas quadras. Nos negócios você é competitiva do mesmo jeito?
Maria Sharapova – Não acho que eu seja tão agressiva. Não saio comemorando com o punho cerrado o tempo todo, mas tenho uma natureza competitiva.
Adoro trabalho em equipe. Gosto da ideia de ter um objetivo e reunir pessoas com perspectivas diferentes alinhadas em torno da mesma meta. Mesmo jogando um esporte individual, equipe era tudo para mim.
Sair da quadra depois de uma atuação horrível e reconhecer que perdemos juntos… Esses foram momentos difíceis da minha carreira, mas sinto falta deles.
Rapid Response – Você construiu um portfólio de investimentos com empresas como BetterUp, Therabody e Supergoop. Também foi empreendedora com a Sugarpova, sua marca premium de doces, encerrada em 2021. Que lições tirou da experiência de liderar e investir em startups?
Maria Sharapova – Tive a Sugarpova por mais de 10 anos enquanto ainda jogava tênis e a empresa só se tornou lucrativa depois de alguns anos. No fim das contas, foi um MBA na prática.

Quando comecei, não sabia o que era um P&L [demonstrativo de lucros e perdas]. Não sabia o que era um plano estratégico de marketing.
Vender em lojas populares ou posicionar o produto como premium? Como escalar um produto de US$ 5 mantendo a qualidade?
Tudo isso foi extremamente valioso e hoje influencia a forma como penso ao investir em empresas.
Rapid Response – Você foi a atleta mais bem paga do mundo por mais de uma década e, em muitos aspectos, criou um modelo para as que vieram depois. O esporte feminino fora do tênis recebe hoje muito mais atenção. Você vê esse “manual” para as atletas de maneira diferente?
Maria Sharapova – Nunca houve um manual. Se existisse, acho que ele está sendo completamente reescrito agora para as atletas mulheres. Isso tem aspectos positivos, mas também negativos.
É fácil se distrair em um mundo cheio de oportunidades de ganhar dinheiro e aproveitar uma carreira de sucesso, seja você uma campeã de Grand Slam ou uma atleta universitária. Lembro de contratos financeiros incríveis que precisei recusar porque sabia que tomariam tempo demais.
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Dizer “sim” para eventos maravilhosos parecia muito divertido e interessante para uma garota jovem. Mas, ao mesmo tempo, você sabe que precisa estar do outro lado do mundo competindo.
Existem muitos tubarões nesse mercado. Você precisa encontrar as pessoas certas.