5 perguntas para Nina Jankowicz, cofundadora do American Sunlight Project
Para ela, o Brasil oferece lições importantes sobre responsabilização e defesa da democracia em tempos de desinformação acelerada por IA

O Brasil é exemplo de como enfrentar a desinformação. Quem afirma é Nina Jankowicz, cofundadora do American Sunlight Project e uma das principais especialistas internacionais em desinformação e manipulação política das mídias digitais.
Nina é ex-diretora do Disinformation Board, do governo dos Estados Unidos. A autora de How to Lose the Information War" e "How to Be a Woman Online (Como perder a guerra da informação" e "Como ser uma mulher online", em tradução livre) virá para o Brasil este ano para pesquisa de seu novo livro.
Na obra, ainda sem título, o Brasil será um dos quatro casos centrais de como o sistema jurídico pode responder às ameaças da ultradireita e do discurso de ódio nas redes sociais.
Para Nina, o Brasil oferece lições importantes sobre responsabilização, coordenação institucional e defesa da democracia em tempos de desinformação acelerada por inteligência artificial.
Entre 2021 e 2022, ela trabalhou no governo do presidente Joe Biden como diretora do (agora extinto) Disinformation Governance Board, órgão criado pelo Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos para coordenar a resposta federal a campanhas de desinformação ligadas a eleições, imigração e segurança nacional.
Atualmente, lidera o American Sunlight Project, espaço que rastreia e expõe operações de manipulação digital conduzida por grupos extremistas.
FC Brasil – Você é autora de livros importantes sobre desinformação e manipulação online, como "How to Lose the Information War" e "How to Be a Woman Online". Agora está vindo para o Brasil para o seu novo livro. O que te traz para o país?
Nina Jankowicz – Meu novo livro é sobre como a extrema direita está reprimindo pessoas que querem tornar a internet mais segura e mais verdadeira. E o Brasil tem sido um caso muito positivo de como um governo pode responder a esse tipo de pressão.
Estou olhando exemplos de quatro regiões: Estados Unidos, União Europeia, Austrália e Brasil. O que me interessa no Brasil é essa tradição de legislação cooperativa, como o Marco Civil.
Ninguém tem que ser especialista em identificar deepfakes, mas é preciso esperar uma fonte confiável verificar.
A aplicação nem sempre é uniforme por causa do papel do Judiciário, mas eu fiquei impressionada com a forma como o país lidou com o “6 de janeiro” de vocês [o ataque à sede do Poder Legislativo dos EUA em 2021].
As pessoas foram responsabilizadas e houve ação contra aqueles que promoveram a violência no meio digital. Para muitos de nós nos Estados Unidos, o que vocês fizeram parece exatamente o que deveríamos ter feito.
O Brasil também foi um dos poucos países a enfrentar Elon Musk e o X. Houve uma sanção contra a plataforma e Musk teve que responder. O Brasil venceu.
FC Brasil – Em 2026 teremos eleições presidenciais no Brasil. Em meio à onda de IA sendo usada para manipular imagens e notícias, o que você espera do cenário eleitoral, do papel das plataformas e da interferência internacional?
Nina Jankowicz – O Brasil está extremamente dividido, assim como os Estados Unidos, e as redes sociais têm colocado mais combustível nessa polarização.
Espero interferência internacional, sim. Na última eleição, Steve Bannon falou e trabalhou publicamente a favor dos Bolsonaro, e imagino que teremos novamente atuação da extrema direita norte-americana em 2026.
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Também acho possível que Elon Musk tente se envolver, embora talvez de um jeito mais cuidadoso, porque ele quase perdeu um mercado enorme no Brasil. Mesmo assim, ele nem precisa fazer muita coisa: só o fato de o X/ Twitter existir já beneficia a extrema direita.
Isso vale para outras plataformas. Muitas recuaram em moderação e fact checking. Então, infelizmente, espero um ambiente ainda mais inflamado do que antes.
FC Brasil – Deepfakes estão ficando cada vez mais realistas, tanto em imagens quanto em voz. Qual a sua preocupação com relação à IA e a escalada da desinformação em 2026?
Nina Jankowicz – O que mais me preocupa não é o vídeo – embora a pornografia deepfake seja um problema enorme –, mas o texto gerado pelos grandes modelos de linguagem [LLMs, na sigla em inglês]. Esse é o impacto mais perigoso da IA.
A Rússia já está envenenando e "treinando" chatbots com propaganda, e isso pode ser replicado por qualquer governo autoritário.

A estratégia é simples: eles usam LLMs para criar uma enorme quantidade de conteúdo e lixo na internet. Os modelos absorvem esse material durante o treinamento e começam a devolver exatamente esse lixo, fontes tendenciosas, distorcidas ou pura propaganda.
Isso é especialmente preocupante porque as pessoas estão usando chatbots como se fossem mecanismos de busca. Elas esperam respostas neutras ou verificadas, mas estão recebendo conteúdo contaminado e propaganda pura.
Existe um problema sério de alfabetização em IA. Muita gente viu imagens falsas do Maduro [o presidente deposto da Venezuela, Nicolás Maduro] e achou que eram reais porque ele ‘trocou de roupa várias vezes’, quando na verdade três daquelas fotos eram falsas.
Ninguém precisa ser especialista em identificar deepfakes. Mas, quando é algo muito recente e confuso, você precisa esperar uma fonte confiável verificar. Não um influenciador, não um tuíte aleatório, mas uma instituição que confirme com múltiplas fontes.
FC Brasil – Em momentos de crise, o fluxo de notícias é caótico e as redes aceleram ainda mais essa confusão. Por que estamos tão vulneráveis ao colapso informacional?
Nina Jankowicz – Todo mundo quer se manter informado, mas precisamos reconhecer que quando estamos fazendo doomscrolling no celular nem sempre significa estar realmente informado.
Cada coisa que aparece no nosso feed – especialmente conteúdo visual, mas também em outras plataformas – tem um propósito.
O Brasil foi um dos poucos países a enfrentar Elon Musk e o X. E venceu.
Pode ser alguém tentando vender assinaturas no Substack ou em um veículo de mídia, pode ser alguém alinhado a um político fazendo propaganda, e, acima de tudo, as próprias plataformas têm motivações: nos manter rolando e clicando para ganhar dinheiro.
Por isso é tão importante colocar limites de tempo e de exposição a esse tipo de conteúdo, principalmente quando estamos vendo tantas coisas horríveis. Às vezes a gente já viu o suficiente de uma mesma cena violenta ou chocante e não precisa ver de um novo ângulo, por uma nova câmera. Já fomos informados.
FC Brasil – O que nós ainda não entendemos sobre o impacto real do assédio digital e da desinformação fora das telas?
Nina Jankowicz – Muita gente ainda não entende que isso tem consequências fora da internet. Não são "só palavras". O assédio muda a forma como vivemos, nos movimentamos e olhamos para outras pessoas.
A desinformação pode levar à violência. Vimos isso no 6 de janeiro nos EUA e no 8 de janeiro no Brasil. Eu esperava que aqueles episódios fossem o fim desse tipo de ataque, mas infelizmente não foram.
O impacto psicológico é real, especialmente quando os ataques são contínuos. Sem alfabetização em mídia e em IA, tudo fica ainda mais perigoso, porque a gente perde a capacidade de distinguir o que é real do que é fabricado com intenção política.