5 perguntas para Tarika Barrett, CEO da Girls Who Code

Tarika Barrett fala sobre IA, desigualdade de gênero, programação e por que a hesitação diante da tecnologia pode ser uma vantagem

Tarika Barrett , CEO da Girls Who Code
Crédito: Divulgação

Rebecca Heilweil 6 minutos de leitura

Há mais de uma década, a organização sem fins lucrativos Girls Who Code trabalha para preparar jovens mulheres para carreiras em tecnologia e ampliar a igualdade de gênero na ciência da computação.

A chegada da inteligência artificial, porém, inaugura uma nova fase para a organização, marcada por dúvidas dos estudantes sobre a tecnologia e por uma mudança profunda no próprio significado de programar.

Até estudantes universitários de ciência da computação que ainda sonham em entrar para o Vale do Silício encaram um futuro incerto, já que a IA reduz rapidamente o número de programadores que as empresas efetivamente precisam contratar.

Outro fator complica ainda mais o cenário: mulheres parecem, desproporcionalmente, demonstrar maior resistência ao uso da tecnologia. Muitas se preocupam com os erros que a IA pode cometer, com o enorme consumo energético dos modelos e com o risco de ampliar ainda mais a influência já gigantesca dos bilionários da tecnologia.

O resultado é uma aparente lacuna no uso de IA, especialmente entre gêneros.

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Tarika Barrett, CEO da Girls Who Code (que deve deixar o posto em algumas semanas), sabe que a organização está no centro dessas tensões.

Ao ser questionada sobre o desconforto em relação à IA, especialmente entre mulheres e meninas, ela afirma que essas preocupações são legítimas e devem orientar a forma como as pessoas se relacionam com a tecnologia.

Fast Company – Ouvimos muito falar sobre vibe coding. Quando você pensa no Girls Who Code hoje, como pensa a própria ideia de programar?

Tarika Barrett – Este é um momento em que reconhecemos que a identidade da programação está mudando. No Girls Who Code, sempre fomos muito ágeis e estamos abraçando todas essas transformações. Vamos expor nossas alunas e alunos ao vibe coding, sim, porque isso está no ar e eles precisam entender como funciona.

logotipo da Girls Who Code

Como organização, sempre fomos mais do que código. Sempre foi sobre fundamentos do pensamento computacional. É resolução de problemas, colaboração...

Toda área precisa de pessoas que entendam como usar tecnologia e como aplicá-la de maneira ética e eficaz. Sabemos que aprender a programar, sozinho, já não basta para entrar na indústria de tecnologia.

Grande parte disso agora é aprender a aprender e desenvolver essa mentalidade. Porque tudo bem: existe o vibe coding, mas alguém precisa verificar se aquele código realmente funciona, certo?

Fast Company – Quão real é a lacuna de gênero no uso de IA?

Tarika Barrett – Nós pensamos nisso em termos de intenção. Sabemos o que os dados mostram. Vemos estudos, como os da Escola de Negócios de Harvard, indicando que mulheres adotam ferramentas de IA em um ritmo 25% menor do que homens.

Mas também sabemos que não se trata apenas de usar menos ferramentas porque somos mais lentas ou não queremos fazer isso. Mulheres relatam sentir limitações, proibições e incertezas sobre as políticas de IA das empresas onde trabalham.

Tarika Barrett , CEO da Girls Who Code

O que acontece quando a política da empresa não é clara? Quem gosta de correr riscos pensa: “vamos nessa”. Já as pessoas que agem com intenção e cautela tendem a hesitar mais. E isso frequentemente segue linhas de gênero.

Outra descoberta surpreendente da nossa pesquisa foi que participantes disseram estar sendo desencorajadas a desenvolver habilidades fora das suas funções. Isso é meio absurdo, porque muito do aprendizado sobre IA acontece de forma dispersa. Você acaba buscando informação onde consegue. Esse foi outro obstáculo que identificamos.

Pense no capital social: parte da razão pela qual construímos esta organização (e já alcançamos 860 mil estudantes) é justamente a ideia de irmandade, capital social, conexões. Sabemos que essas redes costumam abrir portas para o primeiro emprego.

Mas estamos vendo isso se repetir também na adoção de IA: quem tem acesso ao conhecimento e como esse conhecimento circula. As pessoas que responderam à nossa pesquisa valorizavam muito mentores, mas, conforme avançavam na carreira, ficava cada vez mais difícil sustentar essas relações.

Fast Company – No passado, ouvimos muito empresas de tecnologia falando sobre ampliar diversidade e criar oportunidades para grupos sub-representados. Agora temos uma nova geração de empresas, como OpenAI, Anthropic e outros laboratórios de LLMs. Você sente o mesmo comprometimento?

Tarika Barrett – Tivemos recentemente nosso conselho consultivo de ex-alunas visitando o escritório. É um grupo de mulheres na faixa dos 20 e poucos anos, e elas são uma fonte enorme de aprendizado para nós. Ouvindo o que elas compartilham sobre o que estão vendo, diria que não percebemos mais a mesma paixão de antes em trazer todo mundo junto.

Não acho que as pessoas ignorem o tema, mas parece que ele acaba se perdendo nessa corrida armamentista da IA, nessa lógica inicial de: “vamos fazer isso o mais rápido possível; depois pensamos no resto”. Esse não é exatamente o tipo de pensamento que vai gerar a tecnologia que queremos ver no mundo.

Mulheres relatam sentir limitações, proibições e incertezas sobre as políticas de IA das empresas onde trabalham.

Quando jovens chegam à mesa – especialmente pessoas historicamente sub-representadas –, criamos tecnologias que realmente atendem às nossas necessidades.

Por isso, este último ano foi delicado para nós. Reconhecemos que os sentimentos dos jovens sobre IA são mistos, e há grandes grupos que simplesmente não estão empolgados. Os dados mostram isso também.

Se não tivermos cuidado, podemos perder uma geração inteira de jovens que ouviu durante anos que tecnologia era a resposta. Tecnologia entrou nas escolas, nos currículos, nas parcerias com a indústria, porque era o futuro.

Se não formos cuidadosos, esses mesmos jovens podem desistir porque não enxergam perspectivas reais. E, se desistirem, perderemos a chance de construir tecnologias realmente transformadoras.

Fast Company – Imagine uma pessoa jovem preocupada com os dilemas éticos da IA. Talvez ela pense no impacto ambiental, no consumo de energia, ou tenha medo de usar IA no trabalho e cometer erros. O que você diria para ela?

Tarika Barrett – Eu diria para abraçar esse sentimento e entender que essa paralisia, essa preocupação, pode ser o seu superpoder, porque significa que você não vai usar a tecnologia de qualquer jeito.

Diz muito sobre um jovem quando ele pensa no impacto ambiental e age como um usuário, consumidor e intérprete cuidadoso do que recebe. Nem toda pergunta precisa de IA neste momento.

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Eu diria para essa pessoa não se julgar tão duramente por sua hesitação, porque, no fim das contas, hesitação também é discernimento. Isso significa que a forma como ela vai usar essa ferramenta será cuidadosa. E ela deveria procurar pessoas que também estejam usando a tecnologia dessa maneira.

Fast Company – Parece uma conclusão que coloca o discernimento no centro da decisão sobre quando usar IA.

Tarika Barrett – Não é algo que você está evitando sem motivo. Se o seu instinto está dizendo: “estou preocupado”, ouça. É exatamente isso que mulheres – especialmente mulheres – estão trazendo para a mesa quando pensamos em IA. E provavelmente será isso que vai nos salvar quando chegar a hora de implantar essas tecnologias em larga escala.


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