5 perguntas para Clovis Mello, diretor e produtor
Diretor critica a lógica do engajamento no streaming e defende a inteligência artificial como ferramenta de apoio à criação audiovisual.

Clovis Mello construiu a carreira entre a publicidade e o cinema. Diretor há mais de 30 anos, tem mais de dois mil comerciais no repertório e dirigiu filmes como “Ninguém Ama Ninguém… por Mais de Dois Anos”, inspirado na obra de Nelson Rodrigues, e “Divaldo – O Mensageiro da Paz”. Também foi produtor do documentário “Coração Vagabundo”, sobre Caetano Veloso.
Nesse período, viu o audiovisual mudar de ponta a ponta. O streaming alterou a distribuição e os modelos de negócio, novas tecnologias reduziram custos de produção e, mais recentemente, a inteligência artificial passou a ocupar espaço em etapas antes concentradas nas equipes criativas.
Mello olha para essas mudanças com bastante ressalva. Critica a influência das métricas de engajamento sobre histórias e elencos e defende a IA como ferramenta de apoio — não como substituta do trabalho humano.
À Fast Company Brasil, ele fala sobre streaming, inteligência artificial, direitos autorais e sobre o que acontece quando a lógica das plataformas começa a pesar nas escolhas criativas.
FC Brasil - Olhando para os últimos 10 anos, quais foram as mudanças mais decisivas na cadeia produtiva audiovisual (financiamento, distribuição, produção) e como isso afetou a indústria?
Clovis Mello - O Brasil, num passado recente, franqueou a entrada das plataformas sem a regulamentação necessária. Com isso, os direitos autorais foram negligenciados para um segundo round que, aliás, nunca houve. Do ponto de vista comercial, uma série não apresenta grande diferença de um filme publicitário. Você é contratado, segue rigorosamente um shooting board e é remunerado pela produção em bases muito próximas às do mercado publicitário: margem espremida, nenhum direito autoral e, muitas vezes, atravessando sozinho toda sorte de riscos.
FC Brasil - Como a emergência das plataformas de streaming alterou os critérios de sucesso criativo e comercial para filmes e comerciais no Brasil?
Clovis Mello - Nesse momento vejo a maioria das plataformas de streaming como "inimigas da arte". Tudo, ou quase tudo, está a serviço do engajamento: dos temas à escolha dos atores, tudo segue a cartilha do "quanto mais likes, melhor.". De uma maneira geral, aquele tema foi escolhido pela sua capacidade de gerar polêmica ou espanto, não por sua utilidade social; aquele elenco foi escalado em função da sua quantidade de seguidores e não exclusivamente pelo seu talento. Ou seja, a arte, em seu estado mais puro, está cada vez mais rara.
Recentemente passei por isso, tentando oferecer uma série sobre um ex-jogador de futebol com grandes passagens pela seleção brasileira e pelo maior clube da Europa, onde ganhou uma dezena de Champions League. Simplesmente ninguém comprou a ideia porque a vida dele, pessoal e profissional, era muito certinha, sem polêmicas, traições, confusões, a família dele era muito perfeita. Aprendi ali que contos de fada não geram engajamento.
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FC Brasil - De que forma as novas tecnologias (IA, VFX em nuvem, realidade aumentada/virtual) reduziram barreiras de entrada e, ao mesmo tempo, elevaram padrões de produção?
Clovis Mello - Realmente reduziram as barreiras de entrada e tornaram o acesso mais democrático, apesar de ainda bem dispendiosas para um uso mais ostensivo na pessoa física. Acho que quando utilizados como coadjuvantes, esses recursos podem sim elevar o padrão de uma produção sem os custos absurdos que ele teria se fosse realizada da forma convencional. Mas como protagonistas, ainda não vi nada em IA, por exemplo, que me encante como me encantam imagens feitas de forma orgânica. Imagens em IA já servem para quando você quer que a plateia exclame: Uau! Mas ainda estão muito longe da meta quando você deseja tocar os corações.
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FC Brasil - Como você enxerga a influência da inteligência artificial nos processos criativos de direção e produção audiovisual — da concepção do roteiro à pós‑produção?
Clovis Mello - Comparo o surgimento da inteligência artificial com o surgimento da energia atômica, que tanto já foi usada para criar soluções e salvar vidas, como na medicina, quanto já foi usada para destruir vidas, como nas armas nucleares. A diferença está na intenção. Quem vai definir se no futuro ela terá sido boa ou ruim é o próprio ser humano, a partir do uso que faremos dela. Seremos deuses do nosso próprio destino. Assim como a energia atômica, se utilizada de forma ética, a IA pode ser muito útil. Como ferramenta de trabalho, ela só tem a contribuir, o problema começa quando você delega a ela a função de pensar por você. Confesso que me incomoda um pouco quando alguém a utiliza para fazer um texto criativo. Ela ainda não é uma boa escritora ou redatora publicitária. E o pior: não sabe disfarçar as suas fraquezas.
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FC Brasil - De que forma a IA pode transformar a indústria publicitária — sobretudo na criação de peças e na customização em escala — sem sacrificar a originalidade das ideias?
Clovis Mello - Acho que isso já tem acontecido na medida em que a IA pode impedir que você leve uma equipe imensa até uma determinada locação, pare o trânsito, atrapalhe a vida das pessoas e consuma uma boa parte do orçamento, apenas para captar a fachada de um prédio. Esse é o tal uso coadjuvante da ferramenta, ela ajuda sem ganhar protagonismo e a peça mantém a sua originalidade. Mas quando a utilizamos para reproduzir seres humanos, ainda mais com a intenção de que pareçam atores verdadeiros, nesse momento, fazemos o pior uso dela. Mas a transformação já está em curso. Nunca a expressão Livre Arbítrio foi tão necessária. A resposta está nas nossas mãos.