5 perguntas para Laura Hauser, autora de “Saber conversar na Era da IA”

Pesquisadora discute como a inteligência artificial muda nossas expectativas sobre as relações humanas — e o que não deveria ser delegado às máquinas.

Laura Hauser, autora de “Saber conversar na era da IA”, diante de um fundo gráfico azul e preto.
Crédito: Divulgação

Redação Fast Company Brasil 8 minutos de leitura
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Quanto mais a inteligência artificial aprende a conversar como gente, mais ela também pode mudar a maneira como esperamos que outras pessoas conversem conosco.

Disponíveis a qualquer hora, programados para responder com fluidez e capazes de oferecer atenção quase ilimitada, os chatbots começam a ocupar espaços que antes pertenciam apenas às relações humanas. Para Laura Trachtenberg Hauser, o problema não está simplesmente em criar vínculos com máquinas, mas no que esses vínculos revelam sobre nossa tolerância ao conflito, à frustração e à diferença.

Pesquisadora do Departamento de Comunicação e Semiótica da PUC-SP e autora de Saber conversar na era da IA: (sobre)viver na tecnoafetividade, Laura investiga como as tecnologias digitais estão transformando comportamentos, afetos e relações.

Em cinco perguntas à Fast Company Brasil, ela fala sobre companheiros virtuais, solidão e responsabilidade ética — e explica por que, mesmo quando delegamos tarefas à IA, há algo que continua sendo nosso: a agência.

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FC Brasil - Você fala em sistemas de IA sempre disponíveis e calibrados para a validação emocional. O que já se sabe sobre o efeito disso na forma como as pessoas conversam? Isso muda a conexão humana de verdade ou conseguimos separar bem as duas coisas?

Laura - A tecnologia sempre transformou a forma como nos comunicamos, seja pelo meio de comunicação em si — comunicar-se por cartas é diferente de se comunicar por celular —, seja pela maneira como nos expressamos.

Com o surgimento das plataformas de busca, como o Google, por exemplo, a própria maneira de fazer perguntas mudou. A forma de perguntar no offline começou a se parecer com a do online. Hoje, alguns professores dizem perceber alunos escrevendo de uma maneira e com um vocabulário parecidos com os do ChatGPT.

Isso é esperado. O que considero novo é a mudança de expectativa provocada pelo uso contínuo e cada vez mais presente das tecnologias digitais, sobretudo da IA generativa.

As tecnologias mudam nossa expectativa sobre a realidade. Pense em quanto tempo aceitávamos esperar por um táxi e quanto tempo estamos dispostos a esperar por um Uber hoje.

Começamos a esperar das relações humanas a mesma conveniência, eficiência e fluidez que encontramos nas tecnologias digitais. Só que a lógica das relações humanas é muito diferente. As relações de alteridade — com o outro que é diferente de mim — envolvem conflito e atrito. Se não soubermos lidar com isso, perdemos também a capacidade de sustentar conversas e relações.

FC Brasil - Você defende a “cocr-IA-ção”, usando a IA como parceira criativa e tendo o “inegociável humano” como bússola. Na prática, o que é esse inegociável? O que não deveria ser delegado à máquina?

Laura - Para mim, o inegociável é aquilo que escolhemos preservar em nome de uma determinada ética, da maneira como queremos coexistir e nos constituir como sociedade.

É aquilo que não aceito perder ou colocar em risco porque considero fundamental para o tipo de pessoa e de futuro que quero construir, ainda que abrir mão disso possa ser tentador do ponto de vista dos resultados, tecnologicamente possível ou mais eficiente.

O inegociável não está necessariamente naquilo que delegamos à IA, mas no que não podemos deixar de nos responsabilizar por. Posso delegar tarefas. Não minha agência.

É muito tentador transferir a responsabilidade: “a IA fez”, “a IA decidiu”. Só que a IA, em si, não é ética nem moral. Ela segue critérios que foram colocados ali ou padrões sugeridos pelos dados. É uma lógica de espelho e potencialização.

Por isso, algo que não pode ser delegado à IA é o julgamento ético sobre as ações tomadas, sejam elas realizadas por humanos ou pela própria tecnologia. Daí a importância da regulamentação e da governança.

“Posso delegar tarefas. Não minha agência.”

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FC Brasil - A China passou a restringir plataformas de companheiros virtuais, proibindo esse tipo de relação para menores e estabelecendo limites para sistemas capazes de estimular dependência emocional. A mudança também afetou usuários que já haviam criado vínculos com personagens digitais. Restringir esse tipo de relação resolve o problema ou ataca o sintoma da solidão sem chegar à causa?

Laura - Não acho que a proibição seja a solução.

Primeiro, porque solidão, dependência emocional e perda de coesão social não têm uma causa única. Os parceiros de IA aparecem em um contexto no qual muita gente já se sente só e desconectada.

Há também aquilo que chamo de paradoxo da alteridade: temos dificuldade de lidar com o outro, que é diferente de nós, ao mesmo tempo que precisamos desse outro.

Isso se intensifica em um ambiente de polarização de ideias e diante de uma nova expectativa de conveniência criada pelo uso contínuo de produtos digitais. Estamos acostumados a receber personalização e fluidez em praticamente todas as etapas da vida e começamos a esperar o mesmo das relações humanas, que têm como base justamente a diferença e o conflito. E temos cada vez menos tolerância a isso.

Proibir a tecnologia é atacar o sintoma e responsabilizar a ferramenta por uma conjuntura complexa.

Além disso, existe também um componente de vigilância do discurso nessa proibição, porque ela envolve controle sobre o conteúdo das conversas com a IA.

Outro ponto importante é que a perda de um parceiro virtual pode provocar um luto real e intenso. Então, que direito temos de interromper essas relações sem antes compreendê-las profundamente?

Para mim, o essencial é regulamentar as plataformas. Se o sistema percebe sinais de depressão ou dependência emocional, quais são as diretrizes? Se alguém mantém um companheiro de IA por anos e, de repente, não consegue mais pagar pela assinatura, o que acontece com esse vínculo?

A pergunta mais importante talvez seja: que responsabilidades uma empresa passa a ter quando deixa de vender apenas um software e começa a mediar relações afetivas?

“Que responsabilidades uma empresa passa a ter quando deixa de vender apenas um software e começa a mediar relações afetivas?”

FC Brasil - A discussão sobre IA afetiva costuma se concentrar em jovens e adolescentes. O que muda quando olhamos para pessoas mais velhas, que muitas vezes vivem sozinhas e podem construir outros tipos de vínculo com essas ferramentas?

Laura - Não sou especialista especificamente em envelhecimento, mas esse é um recorte que me chama bastante atenção porque a IA já vem sendo usada há algum tempo no cuidado e no companheirismo de pessoas mais velhas.

Um exemplo conhecido é o PARO, uma foca robótica desenvolvida para uso terapêutico com pessoas idosas com demência.

Mas o que mais me surpreendeu foi outra coisa: na minha pesquisa de doutorado, encontrei um número considerável de pessoas com mais de 60 anos em relacionamentos afetivos com IA. Algumas se descrevem como casadas e mantêm rotinas bastante estruturadas com seus companheiros virtuais.

Isso mostra que não estamos falando apenas de uma tecnologia assistiva ou de um recurso para “combater a solidão”. Em alguns casos, estamos falando de vínculos afetivos reais do ponto de vista da pessoa.

Eu evitaria tratar essa população apenas como vulnerável. Há riscos, claro, mas também existem agência, desejo, intimidade e escolhas. Precisamos entender melhor essas relações antes de julgá-las ou tentar enquadrá-las.

FC Brasil - Para fechar, a pergunta que sempre faço: que pergunta você gostaria de estar respondendo e ainda não lhe fizeram?

Laura - Eu gostaria que me perguntassem sobre nossa tendência individual ao fanatismo e sobre como ela é potencializada pela lógica das redes sociais, porque acho que isso ajuda muito a explicar por que estamos conversando tão mal.

Costumamos enxergar o fanático sempre no outro. Mas todos temos um fanático interior, que aparece quando encontramos dificuldade para lidar com ideias diferentes das nossas. Isso não nasceu com a internet. Nossa relação com a alteridade sempre foi difícil.

O que muda agora é a escala e o ambiente. As redes sociais passaram a ocupar um espaço enorme na vida social e também nos debates éticos e políticos, dentro de um modelo de negócios que privilegia conteúdos mais sensacionalistas, polarizadores e fáceis de circular.

É o que eu chamo de lógica da hashtag: simplificar questões complexas em posições rápidas, binárias e de pertencimento.

Para mim, sair dessa lógica exige reaprender a divergir. Precisamos de “rivais justos”: pessoas que pensam diferente de nós, mas que reconhecemos como interlocutores legítimos.

Uma sociedade saudável não depende de todo mundo concordar. Depende de conseguirmos discordar sem transformar o outro em inimigo.

Talvez uma das habilidades mais importantes da era da IA seja conseguir sustentar uma convicção sem perder a curiosidade pelo outro.

“Uma sociedade saudável não depende de todo mundo concordar. Depende de conseguirmos discordar sem transformar o outro em inimigo.”

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