5 perguntas para Milton Cunha, carnavalesco e psicólogo

Do Solta o Verbo às escolas de samba, Milton Cunha fala sobre saúde mental na infância, repertório cultural, religião, Brasil e a arte de construir uma carreira sendo fiel a si mesmo.

Montagem mostra Milton Cunha sorrindo, com camisa azul florida, diante de formas gráficas em tons alaranjados.
Milton Cunha fala sobre saúde mental, repertório cultural, religião, Brasil e a construção de uma carreira fiel à própria identidade.

Victor Calazans 11 minutos de leitura
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Milton Cunha é dessas pessoas que não cabem em uma só definição — e não é por falta de tentativas. Carnavalesco, psicólogo, professor, comentarista dos desfiles na TV Globo, apresentador do Rolé do Milton e jurado da Dança dos Famosos. Nascido em Belém do Pará, construiu uma carreira de mais de três décadas dedicada à valorização da cultura brasileira, das quadras das escolas de samba às câmeras da Globo.

Nas redes sociais, Milton é o Solta o Verbo: vídeos curtos em que compartilha reflexões filosóficas, conselhos de vida e mensagens sobre comportamento, respeito, amor e cultura. Um formato que construiu ao longo dos anos, escolhendo a dedo o que entrava e bloqueando, sem hesitar, o que não servia.

À Fast Company Brasil, ele fala sobre o que a saúde mental tem a ver com a infância, sobre o fechamento do repertório nas plataformas de áudio, sobre o que o resgate das religiões de matriz africana diz sobre o Brasil de hoje, sobre a força de um povo que não paralisa e sobre a arte de construir uma carreira dizendo muitos nãos.

FC Brasil - Saúde mental chegou ao mundo corporativo. Mas você defende que essa conversa precisa começar muito antes. Por quê?

Milton Cunha - Sobre saúde mental, uma coisa que eu vejo: as pessoas começam a se preocupar com saúde mental quando cai sobre elas o peso da vida adulta. Quando, na verdade, a saúde mental precisa ser focada desde a mais tenra infância. Porque cobram das crianças umas coisas tão absurdas, tão loucas. E aí como é que essa criança cresce com repertório para poder pensar em saúde mental?

Então a primeira coisa que eu diria: gente, pensa aí na saúde mental das crianças, pelo amor de Deus. O tempo do lúdico, o tempo da brincadeira, o tempo dos não papéis sexuais, papéis de fantasia. Deixa a criança estruturar o seu espírito pessoal. Falta muito dar força para as crianças desenvolverem o individual. Fica todo mundo na padronização, copiando, copiando: seja igual, seja melhor. Fica uma guerra eterna.

Eu acho isso uma doença mental enorme em cima das crianças. E aí cresce tudo descompensado e não vai resolver na vida adulta, não vai, porque o repertório vem de lá, do que você concluiu enquanto criança olhando para esses adultos. Eu acho tão disfuncional o mundo adulto. Uma das tarefas dele é desfuncionalizar a infância. É muita cobrança, é muita coisa.

A saúde mental precisa ser focada desde a mais tenra infância.

Nós somos uma geração que cresceu sem internet, cresceu livremente. As nossas referências eram livros, televisão. Era uma coisa muito mais aberta. E a gente vê agora essa geração crescendo com as redes sociais, já nasce com o tablet na mão. A geração alfa já nasce totalmente nativa com isso, e muitos países já têm essa preocupação também. Sobretudo o crivo: a falta de repertório para enfrentar certos assuntos.

Então não pode chegar à criança assuntos para os quais ela não tenha preparo, pensamento crítico para decidir sobre aquilo. Que esses tablets sejam vigiados, sejam acompanhados por pais, babás, educadoras, todo mundo. Porque é preciso proteger a infância de assuntos com os quais ela ainda não pode lidar.

Mas todos os tablets são bem-vindos se são canais da arte, da fantasia, do pensamento, das histórias boas. Como eu queria ter tido um tablet lá no meu início para ver as coisas que eram boas. Era tão escassa a comunicação com o mundo, nessa solidão, nessa distância da Belém do Pará dos anos 60. A televisão preto e branco, o rádio. A gente só tinha a enciclopédia, que era pesadíssima, era do meu tamanho.

E eu ficava me interessando pelos afrescos gregos, achava aquilo tão lindo. Como eu queria ter visto mais. A internet democratizou o acesso à informação e isso, sabendo usar, é extraordinário.

FC Brasil - As plataformas de áudio criam nichos tão fechados que podem estar reduzindo nosso repertório musical. Você concorda?

Milton Cunha - As pessoas só ouvem o que elas querem, o que elas gostam, e não ampliam o repertório. E daí nascem nichos musicais, não gêneros. As referências musicais estão morrendo porque as pessoas são muito focadas naquilo que já experimentaram.

Ontem eu estava pensando exatamente isto: por que eu vou botar no Spotify só o que já conheço, que me leva a um período, um pensamento, uma emoção que está lá datada? Eu quero sentir aos 64 o que eu sentia aos 45 com a Jevetta Steele cantando Calling You. Por que eu não dou chance para essa entrada de ontem?

Ouvi Ângela Rô Rô dar uma dica: ouçam Carmen McRae. Nunca ouvi falar. Veio uma música chamada Take Five e veio outra chamada Gloomy Sunday. Meu Deus, foi um arrebatamento que me levou para algo completamente novo.

Como posso ser um adulto vivendo aquela emoção, repetindo, repetindo, querendo voltar a sentir aquilo que foi interessante num outro tempo, num outro lugar? Você, vivo hoje, tem que fomentar o teu espírito, tem que chegar ao novo.

Qual é o problema de você escutar o novo e depois dizer: não gostei? Mas escutei. E nessa você vai encontrando, como na vida toda, vai experimentando um monte de coisas e vai encontrando o novo que te agrada. É preciso ouvir o novo. Senão a vida fica pequena demais.

Milton Cunha sorri usando camisa de cetim estampada e um colar dourado, apoiado em uma divisória.
“Nunca abri mão do que eu era para caber onde queriam que eu coubesse”, diz Milton Cunha.

FC Brasil - Nos últimos anos, o resgate das religiões de matriz africana chegou às redes sociais com uma força inédita. O que esse movimento diz sobre o Brasil de hoje?

Milton Cunha - Vou chegar nisso, mas vou começar com este lugar da religião dentro da vida humana. A religião seria o bem-estar, uma paz onde você, em comunhão com a tua crença, cumpre regras, mandamentos. É civilizatório.

Mas, em algum momento, ela saiu dessa esfera do bem-viver e foi para a guerra, a disputa política, o poder, o subjugo de povos vizinhos. Em algum momento, a religião deixou de ser esse conforto de espírito.

Quatrocentos anos de demonização, de perseguição. Ao chegar com as caravelas, arvorar-se superior, dono de um espírito, e dizer que aqueles seres de culturas diferentes não têm religião — que é feitiçaria — e empurrar tudo para a demonização. Que humanidade e solidariedade existem nessa prática?

E aí, nos anos 60, com as mudanças sociais, a ascensão dos movimentos negros, LGBTQIA+ e dos povos originários, o modelo hegemônico começa a ser questionado. A internet vai possibilitar o encontro dos clãs e o clã candomblecista vai entrar com toda força exigindo o seu direito à vida.

O que esse movimento revela é que existe outro modelo de convivência possível. Ali tem uma trança, ali tem um japonês, ali tem uma senhora muito velha, aqui tem uma criança. Um modelo em paz com muitas diferenças. E aí a surpresa é nossa: existe essa outra coisa que não é excludente.

Isso é extremamente sedutor para a gente que viveu na ponta do chicote, para a gente que teve que engolir a hóstia. É muito reconfortante você dar de cara com relações espirituais que te levam a uma hora sentada embaixo do balaio. Vocês encostam e vocês escutam o vento. Que tesouro, que riqueza que dinheiro nenhum compra: uma hora por dia, o tempo de si.

Quando eu descubro essa filosofia de relacionamentos que vai incluir a força da natureza que eu sentia quando morava na floresta e me sentava no tronco para olhar... Eu me sentava menino e olhava a quantidade de verdes nas copas. Misericórdia, lindo demais. O silêncio é lindo demais, o canto dos pássaros, a bromélia vermelha.

E aí eu ia para o templo e o templo me dizia: tu és o pecado, tu és o horror. Eu dizia: não pode ser só isso. Eu sou um espírito, eu sou uma força de luz, tem que ser maior do que isso.

Então, no mais inóspito dos lugares, a semente brota. A sabedoria nos ensina que você não represa a água, que vai demorar um tempo, mas ela vai encontrar o buraco da saída. Tudo isso já estava lá, no sistema de pensamento africano. Só faltava construir a turbina e deixar o vento operar.

“No mais inóspito dos lugares, a semente brota.”

FC Brasil - O Brasil é o país do futuro — ou já é o presente?

Milton Cunha - Eu pegaria pela minha esperança de que esse nosso modelo de triunfo de povo possa ensinar e sinalizar: um país que dança, que celebra, que canta, que abraça, que acorda cedo, pega o trem, vai, luta e volta cansado e ainda vai para a quadra da escola de samba. Porque senão a vida não cabe. Senão a vida não basta, é pouco.

De onde esse povo arranja força? De onde vem essa luz que faz com que a cultura popular brasileira triunfe de forma tão magnífica em tantos pontos, mesmo com a hegemonia tentando desqualificar: coisa de bêbado, coisa de índio. Não importa. A voz vem de lá e eles não escutam.

A lição que o brasileiro passa é: não escuta, não paralisa. Tá difícil, tá ruim, mora em barraco, o trem é péssimo, o salário é ruim, faz o carnaval e vai. Tu faz não porque tu estás com tudo bom. Tu faz porque tu não vais desistir, tu não vais te matar.

Essa resistência à desistência, que pode ser simbólica. O suicídio pode ser você ficar sentado no sofá, domingo à tarde, e aceitar o que é podre sem questionar. Os fabricantes da cultura popular dizem: pode sim, porque eu tenho uma luz dentro de mim e uma das coisas que vai tornar a minha vida boa é expressar essa luz.

O planeta está dando sinais. Enchentes, deslizamentos, convulsões climáticas. São sinais de que a humanidade não deu conta. O único futuro possível é a gestão humana sobre esses sinais, atento ao que o planeta está dizendo.

E a esperança é que a humanidade avance para acreditar que o encontro de realidades diferentes produz algo bonito, bom. Porque por que essa gente faz a festa? Porque são humanos e sabem que há um canal possível de celebração. Então o futuro passa pelo humanismo. E o Brasil já sabe disso há muito tempo.

O futuro passa pelo humanismo. E o Brasil já sabe disso há muito tempo.

FC Brasil - Você domina TV, digital e redes sociais sem perder o fio de quem você é. Como construiu uma carreira sem precisar caber no que esperavam de você?

Milton Cunha - Eu aceito o fracasso, eu aceito o não, eu aceito o “não gosto de ti”. Eu não quero ser unanimidade. Quero estar tranquilo e confortável na minha pele. Eu comigo. Vou falar o que eu quero, como eu quero, do jeito que eu quero.

Esse centramento — Milton, perder vai perder, ganhar vai ganhar. Vamos pelo menos ser de verdade. Vamos pelo menos não interpretar o que os outros querem. O público quer ver tu na tua plenitude de pessoa artística.

Então tem um pertencer: eu pertenço ao circo. O picadeiro está armado e eu vou aplaudir a bailarina em cima do cavalo, o trapezista, o palhaço — e, na hora que eu tiver que entrar domando as feras, eu entro.

E eu digo muito não. Porque eu sei o que eu não quero. Não me interessa, não. Me dá vergonha, não vou falar. A partir daí, tudo que eu quero é mamão com açúcar.

A sorte na vida é você encontrar o gestor que intui o teu talento naquilo que bate com o teu conforto de dizer: ah, eu quero. E aí uma coisa vai puxando a outra, é a tal da construção da carreira.

Queria ocupar espaços intelectuais, acadêmicos, de debate. Não queria ser confinado só ao espaço do entretenimento. Queria ser livre para circular em todos os territórios sendo o que sou. E consegui, porque nunca abri mão do que eu era para caber onde queriam que eu coubesse.

Nunca abri mão do que eu era para caber onde queriam que eu coubesse.

Mas, antes de tudo: se vista para você, se embeleze para você, se ache lindo você. E vai encontrar para quem te ache também. Sabendo o que eu não sou, definitivamente sei o que não quero. O que me sobra é a diversão do que eu quero.

Antes eu sou para mim. A dica é essa.


SOBRE O AUTOR

Victor Calazans tem mais de 15 anos de experiência em redes sociais, com uma década dedicada ao universo de celebridades e entretenime... saiba mais