5 perguntas para Sônia Guimarães, física e autora de “A Primeira, não A Última”
Autora de "A primeira, não a última" fala sobre racismo na academia, os limites da persistência e o que universidades e empresas precisam fazer para ampliar oportunidades na ciência

Primeira mulher negra brasileira a obter um doutorado em Física, Sônia Guimarães é física, inventora e PhD pela Universidade de Manchester, no Reino Unido. Em 1993, ingressou no corpo docente do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), quando a instituição ainda não aceitava mulheres entre seus alunos.
Em reconhecimento à sua trajetória, recebeu a Medalha Santos Dumont de Honra ao Mérito pelos 30 anos de atuação no instituto e foi eleita pela Bloomberg Línea uma das 100 pessoas mais inovadoras da América Latina.
Em A primeira, não a última, lançado em outubro de 2026 pela Editora Bambual, Guimarães compartilha histórias de sua trajetória dentro e fora da academia, marcada por experiências de racismo e desafios na carreira científica. O livro foi escrito com a colaboração das jornalistas Jacqueline Lafloufa e Poliana Casemiro.
Nesta entrevista à Fast Company Brasil, ela fala sobre os obstáculos que enfrentou, a importância de reconhecer os próprios limites e o que universidades e empresas precisam mudar para ampliar a presença de pessoas negras na ciência e no mercado de trabalho.
FC Brasil - Você fala dessas experiências em palestras há anos. O que conseguiu contar no livro que não conseguia colocar nas suas falas?
Sônia Guimarães - Tenho duas coautoras comigo, as jornalistas Jacqueline Lafloufa e Poliana Casemiro, que me ajudaram muito a construir esse trabalho e a escrever o livro.
A obra traz os bastidores, as emoções e o meu jeitinho de lidar com as adversidades, coisas que não cabem em uma palestra ou entrevista.
Além disso, tem muita gente da instituição em que trabalho que acompanha o que faço nas redes sociais e lê os meus e-mails. Existem coisas que não posso falar publicamente, porque já me proibiram e, caso eu fale, posso ser processada. Isso já aconteceu uma vez, como conto no livro, então é preciso ter cuidado.
“Ser a primeira só faz sentido se houver outras depois.”
Tanto que não falo mais o nome da instituição em que trabalho. Eu só digo "a instituição em que trabalho". Há bastante coisa que não posso dizer em uma palestra ou entrevista.
No livro, consegui falar sobre algumas dessas questões, mas ele foi lido por uma advogada e por uma conselheira jurídica, e está tudo dentro da lei.
FC Brasil - Você aborda o colorismo dentro da própria família e o racismo velado na academia. Como essas experiências influenciaram a maneira como passou a se posicionar nesses espaços?
Sônia Guimarães - Essa é uma parte bem complicada. Como falei agora na Escola Superior de Propaganda e Marketing, eu não sou branca o suficiente nem preta o suficiente. Isso dá um nó, porque, qualquer coisa que eu diga, alguém pode responder: "Ah, mas ela não é tão preta" ou "Ah, mas ela não é tão branca".
Uma vez, uma mulher branca me disse: "Ah, se eu tomar um solzinho, fico da tua cor". Essas coisas são um pouco frustrantes.
Como você viu no livro, também existiam discussões com os meus irmãos. Antes, eu tingia o cabelo de loiro; agora, estou deixando crescer, e ele já está com bastante cabelo branco. Um dos meus irmãos questionou: "Ah, mas ela fala tanto de negritude e tingiu o cabelo de loiro".
A Hebe Camargo já foi morena, mas nós a conhecemos loira durante a vida inteira, por causa dos cabelos brancos, que ficaram escondidos por muitos anos. Então, é tudo muito complicado nessa história de autoidentificação e heteroidentificação.
Meus pais têm a minha cor, mas minha avó paterna era negra retinta, assim como o pai da minha mãe. Quer dizer, eu sou negra.
Isso é bastante complicado nas comissões de heteroidentificação, porque você não pode ver o avô ou a avó de uma pessoa, por exemplo. Tem que fazer a identificação a partir do que está olhando ali, na sua frente, nada mais. É uma discussão bastante complicada neste país.
A minha posição é: eu sou negra, sim. Tive avós negros retintos, que se casaram com pessoas mais claras. Isso resultou no meu pai e na minha mãe, que se casaram e me tiveram. Eu nasci assim, mas tenho sangue negro por parte de pai e de mãe.

FC Brasil - O livro retoma os "nuncas" que você ouviu desde a escola. Qual deles mais marcou sua trajetória e como lidou com essas tentativas de limitar o que poderia alcançar?
Sônia Guimarães - O "nunca" que mais me doeu foi aquele que me tirou de um cargo que eu havia conquistado por concurso. Como os racistas costumam dizer, foi por mérito: aquele cargo era meu, eu merecia estar ali, porque passei no concurso.
No entanto, fui expulsa do cargo ouvindo coisas como: "Você não sabe Física", "Você é a pior professora do mundo" e "A tua roupa chama muita atenção para o teu corpo".
Como lidei com isso? Trabalhei que nem louca, inventei uma forma de obter sensores de radiação infravermelha e agora sou inventora. A minha forma de lidar com todos esses "nãos" sempre foi conseguir um resultado melhor.
Ainda no ensino fundamental, fui a segunda melhor aluna do ginásio. Todos nós tivemos que fazer um exame para entrar no ensino médio, e a minha nota foi a segunda melhor da escola inteira.
A minha forma de lidar com todos esses "nãos" sempre foi conseguir um resultado melhor.
Já na graduação, ouvi que nunca faria nada com Física e que não valia a pena desperdiçar uma bolsa de iniciação científica comigo. Terminei minha licenciatura em Física no tempo regulamentar, em quatro anos. Das cinco meninas que entraram naquela turma, somente duas se formaram nesse período: eu e mais uma.
Então, eu vou lá e mostro que sou capaz, sim, e consigo tudo aquilo que estão dizendo que não vou conseguir.
FC Brasil - Você defende que persistir não é insistir a qualquer custo. Como distinguir uma barreira que exige uma nova estratégia daquela diante da qual é preciso parar e se reorganizar?
Sônia Guimarães - Quando aquilo começar a fazer mal à sua saúde mental, é hora de parar. Não vale a pena ficar doente por causa de nada neste mundo. Nada, nada, nada.
Você está percebendo que aquilo está fazendo mais mal do que bem? É uma coisa que você quer muito, mas está adoecendo mentalmente ou seu corpo começou a adoecer?
Pare tudo. Respire. Se quiser chorar, chore, chore, chore.
Quando terminar, enxugue as lágrimas, lave o rosto e veja o que fez de errado, o que aconteceu e qual era realmente o problema.
Se conseguir chegar a um entendimento consigo mesma, corrija o que for necessário e comece tudo de novo. Se houver alguém prejudicando você, denuncie. Se for racismo, procure a delegacia, a polícia, um advogado ou uma advogada.
Pare tudo. Respire. Se quiser chorar, chore, chore, chore.
Você precisa perceber o que está acontecendo, identificar os problemas e tentar resolvê-los.
Sempre que encontrar uma barreira, se conseguir passar por cima, passe. Se conseguir derrubá-la, derrube. Se conseguir dar a volta e seguir em frente, vá em frente.
Mas não estrague sua saúde mental ou física. Não vale a pena.
FC Brasil - Ser a primeira só faz sentido se houver outras depois. O que universidades e empresas precisam mudar para que a presença de pessoas negras em posições de destaque deixe de ser exceção e passe a fazer parte da estrutura dessas instituições?
Sônia Guimarães - Essa é a parte mais importante. Ser a primeira só faz sentido se houver outras depois. As universidades precisam mudar para que a presença de pessoas negras em posições de destaque deixe de ser exceção e passe a fazer parte da estrutura dessas instituições.
Existe uma pesquisa terrível que aponta que três em cada quatro empregadores não estão encontrando os talentos que procuram. Mas qual será a cor da pele e o gênero dessas pessoas? São homens brancos? Será que não está na hora de procurar pessoas pretas?
Existem pessoas extremamente talentosas que se formaram em Física. Às vezes, alguém pergunta: "O que uma pessoa formada em Física faz? O que a Física estuda?". A Física estuda tudo, é a mãe das ciências. Você pode encontrar um talento em uma pessoa formada nessa área.
Então, abra oportunidades para essas pessoas, para as meninas negras que estudam Física. Isso não significa deixar de contratar homens brancos, mas também olhar para outros profissionais.
Nas universidades, os reitores são homens brancos, assim como os chefes dos departamentos de Física e Química. São homens brancos à frente das universidades e dos departamentos.
Em um concurso com 30 ou 32 candidatos, por exemplo, ter apenas três pessoas negras é suficiente? Existem ações afirmativas para pessoas negras, indígenas e pessoas com deficiência, mas precisamos olhar para a presença desses profissionais nas instituições.
Por favor, deem uma oportunidade. Se você contratar um físico negro e não der certo, tudo bem. Mas dê a oportunidade. E não faça isso já pensando que não vai funcionar e que, por isso, vai mandar a pessoa embora.
Vamos fazer melhor, senhores empresários. Que tal abrir oportunidades por meio de estágios? Chamem estudantes que ainda estão cursando Física e incluam meninas negras nesse processo. Divulguem as vagas nas universidades que têm cursos de Física e deem a essas estudantes a oportunidade de experimentar, aprender e mostrar o que podem fazer dentro da empresa.
Mas também é preciso oferecer acolhimento. Não adianta colocar uma mulher negra formada em Física sob a liderança de um homem branco racista e esperar que a experiência funcione. Isso não vai dar certo.
Além de oferecer oportunidades, trabalhem com seus funcionários para acolher pessoas não brancas, porque elas também são seres humanos, sabia?
Façam isso e vejam os resultados. Tenho certeza de que, com isso, vocês vão conhecer muitos talentos.