Em um mundo de dados, te desejo um 2026 de histórias

Contar histórias com dados é admitir que os números não falam por si – eles precisam de contexto, interpretação e um toque humano para fazer sentido

Greenwashing nas empresas brasileiras
Créditos: bagotaj, Vertigo3d e Fototocam via Getty Images

Letícia Pozza 8 minutos de leitura

Chegamos ao fim de 2025 e sinto informar que seguimos com painéis de dados que não são usados, gráficos que pouco informam e números e relatórios que não são lidos.

Se você não acredita em mim, te desafio a calcular quantos relatórios enviados na sua empresa você leu (ou só arquivou); quantas abas abertas você tem neste exato momento que jamais serão lidas; e as três estatísticas deste ano que você lembra de cabeça.

Todo ano o ciclo se repete: recebemos cada vez mais dados e informação, muito mais do que temos capacidade de consumir. Além de deixar nossos cérebros exaustos até para tomar decisões banais, no fundo toda informação busca o mesmo, mas falha miseravelmente: tentar conquistar o mundo iniciar conversas para mudar um determinado comportamento.

A teoria do KAB (knowlege, attitude e behaviour) nos diz algo poderosamente simples: o que as pessoas sabem (conhecimento) molda como elas se sentem (atitudes), o que por sua vez influencia suas ações (comportamentos).

Mas mudar comportamento não é nada fácil e dados, relatórios e dashboards atuam quase exclusivamente no primeiro estágio – eles informam, pouco explicam e raramente esclarecem. Saber raramente é o suficiente.

Entre entender um número e agir a partir dele existe um abismo emocional, cultural e contextual. Por mais que eu saiba que fumar me faz mal, posso passar uma vida não conseguindo parar.

Teorias posteriores aprofundam essa lacuna. A teoria do comportamento planejado mostra que mesmo atitudes positivas não se convertem em ação se a pessoa não se sentir capaz de agir ou se o contexto não permitir.

Por exemplo: quero me alimentar melhor e ser mais ativa, mas trabalho 12 horas por dia e tenho três filhos me esperando em casa sem nenhuma rede de apoio. Até tenho vontade, mas meu contexto não me permite mudar.

egoísmo/ homem se olha no espelho
Crédito: Anthony Harvie/ iStock

O modelo de crença em saúde (health belief model) reforça que só mudamos quando percebemos relevância pessoal, risco real e benefício concreto – algo que números raramente despertam sozinhos. Para que eu possa realmente implementar atitudes de mudança, preciso perceber os benefícios antes de agir, o que é muito difícil.

Já o modelo COM-B (capability/ opportunity/ motivation = behaviour) amarra tudo isso ao lembrar que comportamento só acontece quando há capacidade, oportunidade e motivação ao mesmo tempo. São pontos importantes a serem conside- rados antes de você fazer suas resoluções de final de ano.

Mas o que todas essas teorias têm em comum é que, para o comportamento ser alterado, é necessário significado emocional e pessoal. É exatamente aí que as histórias se tornam essenciais, pois elas traduzem dados em significado humano, transformam conhecimento em atitude e criam o impulso necessário para que a informação, finalmente, saia do painel de dados e entre no mundo real.

COMO HISTÓRIAS DÃO VIDA AOS DADOS

E se agora eu te desafiar a me contar o filme ou a séria favorita que você assistiu este ano, ou o livro que mais te impactou? É mais fácil, não é mesmo?

Não contamos histórias por capricho estético ou artifício narrativo. Contamos histórias porque o cérebro está programado para elas. Desde as cavernas até as redes sociais, histórias são como processamos informação, construímos significado e nos conectamos uns com os outros.

As histórias fazem três coisas que os números sozinhos não conseguem: criam contexto, geram conexão emocional e facilitam a memória. E vou explicar isso mostrando três dos meus projetos favoritos de dados que entregamos este ano.

Contextualizando os diferentes caminhos educacionais dos brasileiros

Como explicar as diferentes trajetórias e desigualdades dos estudantes brasileiros? Desenvolvido com a Fundação Itaú a partir de dados de todas os municípios, mostramos se jovens de nove a 18 anos completam a escola ou não.

Ao saber que "37% dos estudantes abandonam o ensino médio", você pode até estar informado, mas dificilmente sabe o que está por trás do número. E vai colocar os seus vieses, interpretando e julgando incorretamente. O cérebro não gosta de parecer burro e nos conta histórias para preencher lacunas de informação que temos.

Ou seja, se eu te der um dado sem contexto, você vai se contar uma história. É da natureza humana. Assim, explicar que raça, gênero, se o jovem é PCD ou não e a classe social pertencente impactam significativamente nesses resultados pode mudar o seu comportamento em relação à situação desses jovens. E quem sabe, das políticas implementadas para adesão à escola. 

Projeto Trajetórias Educacionais, da Fundação Itaú
Crédito: Divulgação

Mesmo que o resultado final seja um painel interativo, trouxemos a história para o início: dando contexto e introduzindo um assunto importante, mas delicado. Ao ver a informação final, elas não são mais abstrações estatísticas que o seu cérebro vai preencher; são confirmações visuais de histórias que já te contextualizaram.

Números isolados não criam significado. Histórias fornecem contexto, causa e consequência, facilitando a compreensão. O usuário não é bombardeado com gráficos – ele é convidado a entender primeiro porque aqueles dados importam. Ao entender os momentos de progresso e ruptura, visualiza as desigualdades silenciosas que moldam cada trajetória de aprendizagem. 

Palavras como conexão no Kuwait

No Kuwait, você só é naturalizado se seu pai for kuwaitiano. Hoje, 68% da população não é cidadã, mesmo tendo nascido no país. Isso impacta diretamente como as pessoas se sentem parte da comunidade, mesmo tendo vivido toda a vida ali.

Na pesquisa conduzida pela Envearth, organização que apoiamos para este projeto, 70% das pessoas não kuwaitis reportam experiências negativas, comparadas a 15% dos kuwaitis. Isso, em um país com mais de 100 nacionalidades, ou seja, bastante diverso.

O objetivo desse projeto é promover um jogo educacional desenvolvido para ajudar as pessoas a se colocar no lugar do outro. Mas como podemos contar histórias sobre diversidade, pertencimento e identidade em um contexto culturalmente sensível, sem reduzi-los a estereótipos, símbolos ou imagens?

Decidimos trazer aquilo que nos une mas também nos distingue: os mais de 10 idiomas que se escutam diariamente nas ruas, restaurantes, shoppings e praças. Assim, criamos o "mapa de memórias" – uma representação dos espaços e locais significativos do país, que se destacam por evocar sentimentos e emoções.

site do projeto Sidra, sobre a nacionalidade kwaitiana
Crédito: Projeto Sidra/ Reprodução

Pedimos a locais que falam farsi, persa, amárico, árabe, inglês, tagalog, hindi, tamil e nepali que definissem palavras únicas dos seus idiomas e que definem esses espaços do ponto de vista pessoal.

Um país e seus espaços são repletos de memórias, e as palavras dão significado a esses locais. Sejam eles cidadãos ou não. Ao final, pedimos que eles gravassem suas vozes reproduzindo as palavras. O resultado do mapa final, você pode ver aqui.

O site combina pesquisa e memórias pessoais a um espaço que pode não ser de pertencimento a muitos. Um dado como "entre aqueles que disseram ter nascido no Kuwait, apenas 55,5% são considerados kuwaitianos" não é apenas uma estatística – é a porta de entrada para conversas sobre identidade e o que significa chamar um lugar de lar.

Hábitos culturais: quando os dados dançam ao ritmo da memória

Também em parceria com a Fundação Itaú, este projeto sobre hábitos culturais brasileiros ancora dados em elementos que já vivemos, sentimos e conhecemos, para que se tornem parte da sua memória.

Você pode facilmente esquecer que "X% dos brasileiros frequentam cinemas mensalmente". Mas, e se em vez de um número abstrato, você visualizar as ruas da sua cidade transbordando de samba, as cores vibrantes de um festival que já frequentou, o cheiro de pipoca do cinema do seu bairro? De repente, aquele dado sobre frequência cultural não é mais um número – é uma memória sua, ativada e ampliada.

Usamos referências culturais que ressoam com a experiência vivida dos brasileiros: frases de músicas do Gil, elementos culturais de diferentes partes do país e memórias dos antigos modulares do Windows 2000.

projeto sobre hábitos culturais brasileiros, da Fundação Itaú
Crédito: Divulgação

Quando você usa elementos da cultura que as pessoas já conhecem e sentem para explicar dados sobre essa mesma cultura, cria um ciclo de reforço memorial. O dado ativa uma memória cultural existente e essa memória cultural, por sua vez, ancora o dado de forma permanente.

O projeto mostra quem participa, com que frequência, onde a cultura floresce e onde ela é sufocada por falta de estrutura. Mas, mais importante: ele mostra isso de uma forma que gruda na memória porque está ancorado em experiências suas, bem como nos contrastes daquilo que você não vive.

CONTAR HISTÓRIAS É UM ATO DE RESPEITO

Acredito que contar histórias com dados é um ato de respeito com quem está do outro lado. É reconhecer que estamos cansados, que precisamos de ajuda para agir sobre uma informação e que preciso me conectar com algo para incorporar no meu dia a dia. É admitir que os números sozinhos não falam por si – eles precisam de contexto, interpretação e um toque humano para fazer sentido.

Então, aqui vai meu desejo para 2026: que você se pergunte, antes de enviar aquele relatório de 50 páginas: que história estou tentando contar? Qual ação quero gerar?

Contamos histórias porque nosso cérebro está programado para elas.

Quem são as pessoas por trás desses números? Quem recebe a minha história do outro lado? Que emoções, lutas e possibilidades estão escondidas nessas linhas e colunas e como trazê-las à vida? Como facilitar e aproximar, trazendo emoção em vez de somente mostrar números?

Também desejo que alguém faça isso por você, pois todos nós merecemos histórias bem contadas e baseadas em dados e informações confiáveis.

Que 2026 seja um ano de muitas histórias com bons dados.


SOBRE A AUTORA

Letícia Pozza é fundadora e CEO da Odd, onde lidera uma equipe multidisciplinar para transformar dados complexos em narrativas signifi... saiba mais