Por que a Ford decidiu dobrar a aposta nos carros híbridos
Após rever planos com veículos elétricos, montadora americana amplia foco em híbridos diante de custos altos, incertezas regulatórias e pressão por rentabilidade

O futuro da indústria automotiva do país não parece tão elétrico quanto as montadoras esperavam. Mas isso não significa que o setor de veículos elétricos esteja completamente morto.
Recentemente, a Ford Motor Co. anunciou que está tomando medidas drásticas para reduzir seu plano de negócios focado em veículos elétricos. A montadora está descartando o projeto de produzir uma nova picape elétrica, redirecionando uma fábrica de baterias para veículos elétricos à produção dedicada ao armazenamento para a rede elétrica e convertendo sua F-150 Lightning totalmente elétrica em uma híbrida.
A Ford também planeja expandir suas opções a gasolina e híbridas. Essa mudança de estratégia custará à montadora US$ 19,5 bilhões.
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A medida pode parecer uma crítica aos veículos elétricos em geral. Também pode parecer contra-intuitiva, visto que as vendas de veículos elétricos nos EUA atingiram recordes históricos este ano.
Mas especialistas afirmam que ela ilustra os desafios específicos que os fabricantes de veículos elétricos enfrentaram nos EUA este ano, bem como as dificuldades de escalar uma tecnologia emergente.
CRÉDITOS FISCAIS E TARIFAS
Fabricar veículos nos EUA se tornou cada vez mais caro, em parte devido aos custos trabalhistas mais elevados, regulamentações ambientais mais rigorosas e problemas na cadeia de suprimentos. E um ambiente de fabricação mais caro significa maior risco de investimento.
Em 2025, o desafio se agravou ainda mais. "Muitas medidas criadas para mitigar esse risco foram desfeitas", afirma Albert Gore, diretor executivo da Zero Emission Transportation Association (ZETA), uma coalizão que defende o avanço dos veículos elétricos.
"O custo de se fazer negócios nos EUA aumentou significativamente"
Albert Gore, da ZETA
O presidente americano Donald Trump eliminou os créditos fiscais federais para veículos elétricos e implementou tarifas abrangentes (e, por vezes, imprevisíveis). O republicano também revogou padrões de economia de combustível e, de modo geral, adicionou imensa incerteza a todas as decisões de investimento na indústria manufatureira dos EUA. "O custo de se fazer negócios nos EUA aumentou significativamente", afirma Gore.
O próprio anúncio da Ford menciona isso, observando que "mudanças regulatórias" afetaram seus planos para veículos elétricos.
PREOCUPAÇÕES COM RENTABILIDADE
A situação da Ford nesse cenário é singular, em parte devido ao tipo específico de veículo elétrico que oferece. O principal veículo elétrico da Ford era a F-150 Lightning, uma picape grande com preço elevado.
Embora a F-150 Lightning tenha sido anunciada em 2021 com preço inicial de US$ 40.000 (no mercado americano), após o início da produção, o custo aumentou. A F-150 de 2025 tinha preço inicial em torno de US$ 55.000, embora outras versões fossem ainda mais caras; a F-150 Lightning Platinum, por exemplo, começa em torno de US$ 85.000.
A Ford vinha enfrentando dificuldades com a rentabilidade de seus veículos elétricos há algum tempo; estava perdendo dinheiro em cada veículo elétrico vendido, mesmo no início de 2024.
Embora a demanda por veículos elétricos tenha sido forte — Gore afirma que, nos últimos 15 anos, a procura por veículos elétricos "superou em muito as estimativas do setor" —, o preço é um componente importante dessa demanda.
De modo geral, o mercado automobilístico dos EUA concentra-se em SUVs e caminhonetes, que têm preços médios de transação mais altos do que os sedãs. Isso impacta os consumidores americanos, que têm enfrentado custos crescentes em diversos setores, incluindo supermercados e eletricidade.
Também torna mais desafiador para as empresas americanas competirem internacionalmente. Em 1960, cerca de 52% das vendas globais de automóveis eram de veículos fabricados nos EUA. Hoje, esse número gira em torno de 11% e continua caindo.
Leia mais: Disfarçada de brinquedo, esta escova de dentes estilo Lego pode ser a salvação : Por que a Ford decidiu dobrar a aposta nos carros híbridosParte disso se deve ao fato de o resto do mundo estar expandindo sua produção, observa Gore. Mas “parte disso se deve à forma como os carros fabricados aqui para este mercado mudaram, de uma maneira que os coloca um tanto defasados em relação ao resto do mundo”.
A Ford, no entanto, não está desistindo totalmente dos veículos elétricos. A mudança de estratégia da montadora se concentra especificamente em não produzir mais “veículos elétricos maiores selecionados, cuja viabilidade comercial se deteriorou devido à demanda menor do que a esperada, aos altos custos e às mudanças regulatórias”, afirmou a empresa.
Embora tenha descontinuado a F-150 Lightning, a empresa ainda planeja fabricar modelos menores e mais acessíveis, além de expandir sua linha de veículos elétricos híbridos e de autonomia estendida.
CHINA SAIU NA FRENTE NOS AVANÇOS TECNOLÓGICOS
Para que os veículos elétricos sejam lucrativos, a produção precisa atingir uma certa escala. Mas esses fatores — tipo de veículo, bem como mudanças nas políticas comerciais e tributárias — dificultam a capacidade das montadoras de fazer isso.
E os veículos elétricos ainda estão em um estágio inicial, pelo menos em comparação com os modelos a combustão interna.
"Fabricar novos veículos com sistemas de propulsão é difícil", diz Gore, "e requer particularmente economias de escala que foram alcançadas ao longo de um século com veículos a combustão interna, mas que só agora estão começando a ser alcançadas nos EUA com veículos elétricos, nos últimos sete anos, aproximadamente."
Cerca de 1 em cada 4 veículos vendidos no mundo em 2025 será um veículo elétrico. Mas, atualmente, o mercado é dominado pela China, que responde por cerca de 70% da produção global de veículos elétricos.
Leia mais: Reciclar tecidos elásticos pode deixar de ser desafio, segundo esta startup: Por que a Ford decidiu dobrar a aposta nos carros híbridosA China dominou o mercado global de veículos elétricos em parte devido aos seus avanços tecnológicos, especialmente na inovação de baterias, e à sua capacidade de produzir veículos elétricos ultra-acessíveis.
Alguns veículos elétricos chineses têm preços a partir de US$ 10.000; o próprio CEO da Ford, Jim Farley, testou (e adorou) um Xiaomi SU7, que custa cerca de US$ 30.000.
O sucesso da China no setor de veículos elétricos revela o quão atrasados os EUA estão em termos de avanços nessa área. E embora o domínio chinês não esteja afetando diretamente o mercado automobilístico americano — o ex-presidente americano, o democrata Joe Biden, impôs tarifas de 100% sobre veículos elétricos chineses como forma de proteger a indústria automobilística americana —, ele está tendo impactos globais.
A União Europeia está abandonando a proibição de veículos a combustão após pressão das montadoras, informou a Bloomberg recentemente, dando mais tempo para que as montadoras se adaptem à eletrificação. A medida surge em um momento em que as montadoras europeias enfrentam maior concorrência da China, além de altas tarifas impostas pelos EUA.
ESPERANÇA NOS VEÍCULOS ELÉTRICOS
Outro fator que contribui para o complexo cenário dos veículos elétricos, principalmente nos EUA, é a mudança na percepção do consumidor em relação à tecnologia. As vendas de veículos elétricos atingiram um recorde no mercado americano em 2025, mas isso provavelmente foi influenciado pela corrida dos consumidores para se qualificarem para os créditos fiscais federais antes que expirassem no final de setembro passado.
Um estudo recente da CDK Global constatou que o interesse por veículos elétricos entre os motoristas de carros a gasolina caiu 20%. Quando questionados se comprariam um veículo elétrico no futuro, 31% dos motoristas de carros a gasolina responderam que sim em 2024, em comparação com 11% em 2025.
Leia mais: Nada a esconder: com as novas caixas de som, a Ikea diz que é hora de exibir: Por que a Ford decidiu dobrar a aposta nos carros híbridosO interesse diminuiu até mesmo entre os motoristas de híbridos, dos quais 54% afirmaram em 2024 que trocariam para um veículo elétrico no futuro, em comparação com 35% em 2025.
Gore não participou dessa pesquisa, mas destaca que a discussão em torno dos veículos elétricos se tornou cada vez mais politizada. "A retórica é, por natureza, extremamente negativa e estridente", afirma.
Isso pode afetar a adoção de veículos elétricos, principalmente para uma tecnologia que precisa conquistar o público em geral. Os pioneiros impulsionaram o crescimento inicial dos veículos elétricos, mas, desde então, a indústria teve que descobrir como atrair todos os outros que não estão tão interessados em ser líderes de mercado.
Mas Gore não está preocupado com o apelo a longo prazo dos veículos elétricos. "Isso é algo que tem sido absolutamente consistente: independentemente do que se tenha ouvido, a experiência de dirigir um veículo elétrico é extremamente positiva, assim como a de possuir um", afirma.
Embora as vendas de veículos elétricos tenham caído 1% na América do Norte em 2025 em comparação com 2024, elas ainda estão 24% maiores globalmente.
Leia mais: Além dos palcos, Taylor Swift impacta o futebol americano: Por que a Ford decidiu dobrar a aposta nos carros híbridosApesar dos desafios que a indústria de veículos elétricos enfrenta nos EUA e no exterior, especialistas como Gore estão otimistas de que ainda há muito mercado a ser explorado — e que o avanço contínuo, principalmente na tecnologia de baterias, significa que os veículos elétricos fazem sentido para o futuro.
A indústria de veículos elétricos dos EUA já passou por altos e baixos antes. E embora possa ser a decisão certa, economicamente, para as montadoras reduzirem seus planos para veículos elétricos neste momento, elas correm o risco de ficar para trás se e quando o mercado se recuperar.
“Para quem não desistir dos planos de comprar um veículo elétrico, acho que a recompensa será um mercado muito maior do que muitas empresas esperam”, diz Gore.