É muito fácil adivinhar o futuro depois que ele acontece
A verdade incômoda é que a gente não consegue prever o futuro. O que a gente faz é contar histórias sobre o passado

Tem uma coisa que a gente faz muito bem: olhar para trás e achar que tudo era óbvio. Que os sinais estavam ali, claros, e a gente só não viu. Que o caminho era uma linha reta apontando para um único desfecho inevitável.
Em 2007, o iPhone não era óbvio. Especialistas disseram que fracassaria. A ausência de teclado físico era heresia. Hoje, qualquer um com um smartphone na mão dirá que o sucesso era inevitável. Não era. Era um risco. Uma aposta. Um "talvez funcione".
A Netflix quase morre. A Blockbuster riu da proposta de parceria. Se o futuro era tão previsível, por que ninguém viu? Porque não era previsível. Era caótico. Era confuso. Era tudo menos óbvio.
Essa clareza que a gente sente quando olha para trás é uma ilusão. A memória é uma editora compulsiva que reescreve o passado para que ele pareça menos com um acidente e mais com um plano. Menos com sorte e mais com visão estratégica. Menos com erro e mais com aprendizado.
A VERDADE INCÔMODA
A verdade incômoda é que a gente não consegue prever o futuro. O que a gente faz é contar histórias sobre o passado. E depois, quando o futuro chega, a gente reconstrói a narrativa para que ele se encaixe na história que a gente já tinha contado.
Os especialistas fazem isso o tempo todo. Fazem previsões em janeiro. Em dezembro do ano seguinte, fazem novas previsões e fingem que as antigas nunca existiram. Ou, pior, reescrevem a história para que pareça que acertaram.
O problema é que a gente acredita neles. Acredita que é possível mapear o futuro, que existe um caminho claro se a gente apenas olhar com atenção suficiente. E, quando o futuro não segue o mapa, a gente culpa a gente mesmo por não ter visto os sinais.
Mas não havia sinais claros. Havia ruído. Havia incerteza. Havia múltiplas possibilidades competindo umas com as outras. E uma delas ganhou. Não porque era a mais óbvia, mas porque alguém apostou nela. Porque alguém imaginou que ela era possível.
A DIFERENÇA ENTRE PREVER E IMAGINAR
Irene Vallejo, essa escritora espanhola que fala sobre a leitura como máquina do tempo, diz algo como: a literatura sempre antecipa a ciência. Antes do ser humano chegar na Lua, a literatura já tinha chegado. Antes de descobrir as Américas, a literatura já tinha a descoberto.
Mas aqui está a coisa importante: a literatura não prevê o futuro. A literatura imagina o futuro. E tem uma diferença enorme entre os dois.
Prever é dizer "isso vai acontecer porque os dados mostram que vai acontecer." Imaginar é dizer "e se isso acontecesse? Como seria? O que mudaria?".

A previsão é sobre certeza. A imaginação é sobre possibilidade. A previsão mata o futuro porque o torna determinístico. A imaginação o abre porque o torna múltiplo.
A gente perdeu a capacidade de imaginar. A gente ficou obcecado em prever. Em ter certeza. Em reduzir o futuro a um número, a uma métrica, a uma linha em um gráfico.
Mas o futuro não é um número. O futuro é um sonho coletivo. E sonhos não se preveem, se constroem.
quando o futuro não segue o mapa, nos culpamos por não ter visto os sinais.
Leonardo da Vinci sabia disso. Ele falou algo como "não deve ser difícil parar para olhar as manchas de uma parede, ou as cinzas de uma fogueira, ou as nuvens, a lama, e encontrar ideias verdadeiramente maravilhosas".
A livre associação, o olhar desatento, a capacidade de deixar a mente vagar pode ser mais nossa amiga do que um debate acalorado sobre o futuro da tecnologia, da política ou da humanidade.
Às vezes tudo que precisamos é estar com nós mesmos. Ver e ser inundado por opiniões, temas e desafios acadêmicos pode ser desafiador e mágico, mas nem sempre é isso que nos faz sonhar.
O RETROVISOR COMO PRISÃO
O pior de tudo é que essa ilusão de previsibilidade nos prende. Nos faz acreditar que o sucesso vem de ter visto o futuro corretamente. E, portanto, que o fracasso vem de não ter visto.
Criamos culturas que punem o desvio. Que exigem certeza onde ela não existe. Que preferem um plano errado mas bem estruturado a um experimento que pode dar errado. Porque, pelo menos, o plano errado pode ser reescrito como "aprendizado estratégico". O experimento que falha é apenas fracasso.

Mas a verdade é que todo grande avanço começou como um experimento que não estava no plano. Como alguém que ignorou o mapa e foi em outra direção. Como alguém que imaginou algo que os dados não suportavam.
A gente passa a vida olhando pelo retrovisor, achando que consegue ver o caminho à frente. Mas o retrovisor só mostra o que já passou. E o que já passou é sempre mais claro, mais lógico, mais previsível do que realmente era.
E AGORA?
Então, quando as pessoas vêm me perguntar como será o futuro, o que vai dar certo, qual tecnologia vai dominar, qual modelo de negócio vai morrer, tenho vontade de dizer: não sei. Ninguém sabe. Qualquer um que disser que sabe está mentindo ou vendendo algo.
O que a gente pode fazer é imaginar. Sonhar com o que poderia ser. Construir cenários. Explorar possibilidades. Testar rotas. E ter a humildade de reconhecer que a maior parte do tempo estamos perdidos, tateando no escuro.
o futuro não é um número. O futuro é um sonho coletivo. E sonhos não se preveem, se constroem.
Porque é aí, no escuro, onde as coisas novas nascem. Não nas certezas. Não nos mapas. Mas na capacidade de caminhar sem saber exatamente para onde se vai.
A literatura já sabe como será o futuro. Ou, pelo menos, imagina como ele poderia ser. O problema é que a gente parou de ler. Parou de sonhar. Ficou esperando que alguém nos diga qual é o caminho certo.
Mas o caminho certo não existe. Existe apenas o caminho que a gente escolhe caminhar. E, quando ele chegar ao fim, a gente vai olhar para trás e achar que era óbvio. Que os sinais estavam ali. Que não havia outra opção.
Mas havia. Havia muitas. A gente só escolheu uma. E chamou de destino.
