Carros cada vez mais personalizados ampliam debate sobre dados e privacidade
Apresentações na CES mostram veículos que se adaptam a motoristas e passageiros em tempo real, enquanto especialistas alertam para os limites da coleta de dados pessoais

Em uma visão do futuro próximo compartilhada na CES, maior feira de tecnologia do mundo, que aconteceu na última semana, em Las Vegas, uma menina desliza para o banco de trás do carro de seus pais e a cabine instantaneamente ganha vida. O veículo a reconhece, sabe que é seu aniversário e toca sua música favorita sem que uma palavra seja dita.
“Pense no carro como algo que tem alma e é uma extensão da sua família”, diz Sri Subramanian, chefe global de IA generativa para o setor automotivo da Nvidia.
O exemplo de Subramanian, compartilhado com o público da CES no dia da abertura do evento em Las Vegas, ilustra a crescente sofisticação dos sistemas de IA integrados à cabine e o escopo cada vez maior de dados pessoais que os veículos inteligentes podem coletar, armazenar e usar para moldar a experiência de direção.
MONITORAMENTO ATÉ DAS EMOÇÕES
Em todo o pavilhão da CES, o carro deixou de ser visto como uma máquina e passou a ser visto como um companheiro, à medida que montadoras e empresas de tecnologia exibiam veículos que podem se adaptar a motoristas e passageiros em tempo real — desde o monitoramento da frequência cardíaca e das emoções até o alerta caso um bebê ou criança pequena seja acidentalmente esquecido no carro.
A Bosch apresentou sua nova extensão de IA para veículos, que visa transformar a cabine em um “companheiro proativo“. A Nvidia, símbolo do boom de IA, anunciou a Alpamayo, sua nova iniciativa de IA para veículos, projetada para ajudar carros autônomos a tomar decisões complexas de direção. O CEO Jensen Huang a chamou de “um momento ChatGPT para a IA física“.
“A mágica da IA não deve significar o fim de todas as proteções de privacidade e segurança”
Justin Brookman
Mas especialistas dizem que a busca por uma experiência de direção mais personalizada está intensificando as dúvidas sobre a quantidade de dados do motorista que está sendo coletada.
“A mágica da IA não deve significar o fim de todas as proteções de privacidade e segurança“, afirma Justin Brookman, diretor de políticas de mercado da Consumer Reports.
Ao contrário de smartphones ou plataformas online, os carros só recentemente se tornaram grandes repositórios de dados pessoais, aponta Brookman. Como resultado, a indústria ainda está tentando estabelecer as “regras de conduta” sobre o que montadoras e empresas de tecnologia podem fazer com os dados do motorista.
Leia mais: Veículos elétricos: Tesla desacelera e BYD termina 2025 na liderança: Carros cada vez mais personalizados ampliam debate sobre dados e privacidadeEssa incerteza é agravada pela natureza singularmente pessoal dos carros, disse Brookman. Muitas pessoas veem seus veículos como uma extensão de si mesmas — ou até mesmo de suas casas — o que, segundo ele, pode fazer com que a presença de câmeras, microfones e outras ferramentas de monitoramento pareça especialmente invasiva.
“Às vezes, as pessoas têm dificuldade em internalizar questões de privacidade”, disse ele. “Geralmente, as pessoas gostariam de ter mais privacidade, mas também não sabem necessariamente o que podem fazer para resolver isso.”
BENEFÍCIOS REAIS DE SEGURANÇA
Ao mesmo tempo, Brookman avalia que muitas dessas tecnologias oferecem benefícios reais de segurança para os motoristas e podem ser boas para o consumidor.
No pavilhão da CES, algumas dessas conveniências estavam em exibição no estande da fornecedora automotiva Gentex, onde os participantes se sentaram em uma réplica de uma van de seis lugares em frente a grandes telas que demonstravam a precisão com que os sensores e câmeras equipados com IA da empresa podiam monitorar o motorista e os passageiros.
“Eles estão com sono? Estão sonolentos? Não estão sentados corretamente? Estão comendo, falando ao telefone? Estão irritados? Qualquer coisa, podemos descobrir como detectar isso na cabine”, disse Brian Brackenbury, diretor de gerenciamento de linha de produtos da Gentex.
Leia mais: Por que os carros pequenos voltaram ao radar dos Estados Unidos: Carros cada vez mais personalizados ampliam debate sobre dados e privacidadeSegundo Brackenbury, em última análise, cabe às montadoras decidir como o veículo reage aos dados coletados, que, segundo ele, são armazenados no carro e apagados após o processamento dos quadros de vídeo, por exemplo.
“Um dos nossos mantras na Gentex é que não faremos isso só porque podemos, só porque a tecnologia permite”, disse Brackenbury, acrescentando que “a privacidade dos dados é realmente importante”. (Rio Yamat, repórter de viagens e aviação da AP)