5 perguntas para Maribel P. Wadsworth, CEO da Knight Foundation

“Notícias e informações locais confiáveis são uma força central para o bem nas comunidades"

Maribel Pérez Wadsworth, CEO da Knight Foundation
Crédito: Divulgação

Robert Safian 5 minutos de leitura

Após mais de meio século em operação, a organização sem fins lucrativos responsável por financiar gigantes da mídia pública dos Estados Unidos, como a NPR e a PBS, será oficialmente dissolvida, após sofrer cortes orçamentários impostos pelo governo Trump.

O conselho da Corporation for Public Broadcasting (CPB) votou pela dissolução da entidade em 5 de janeiro, depois que o Congresso decidiu, em julho, retirar US$ 1,1 bilhão que haviam sido previamente destinados à organização.

Desde o início de seu mandato, o presidente Donald Trump tem feito campanha aberta contra a CPB, a NPR (National Public Radio, que tem milhares de emissoras de rádio afiliadas por todo o país) e o Public Broadcasting Service (PBS, rede de emissoras de TV que exibe programas educativos como "Sesame Street", concertos, documentários, notícias e alertas meteorológicos), acusando-as de não fazer uma cobertura “justa, precisa ou imparcial” dos acontecimentos.

Quando o governo dos EUA cortou o financiamento das emissoras locais de notícias, a Knight Foundation agiu rapidamente para ajudar a estabilizar um setor que se deteriorava a passos largos.

Em entrevista ao podcast Rapid Response, apresentado por Robert Safian (ex-editor-chefe da Fast Company), a presidente e CEO da fundação, Maribel Pérez Wadsworth, fala sobre a fase de transição pela qual passam tanto o governo quanto o setor de filantropia.

Fast CompanyA Knight Foundation se dedica há décadas a promover e preservar o jornalismo local e as comunidades locais. Em2025, essa missão passou a sofrer ataques sem precedentes, com grandes cortes de financiamento para a mídia pública e processos movidos pelo presidente Trump contra a CBS News, o “The Wall Street Journal” e o “The New York Times”. Era isso que você imaginava quando assumiu o cargo, há 18 meses? O quanto você e a organização estavam preparados para uma mudança desse porte?

Maribel P. Wadsworth – Posso dizer que não foi para isso que me inscrevi. Acho que ninguém poderia ter antecipado exatamente os temas que estariam no centro da nossa atuação em 2025.

Dito isso, passei toda a minha carreira defendendo o jornalismo e a Primeira Emenda [da Constituição dos EUA, que estabelece a liberdade de expressão]. Sob esse ponto de vista, este é apenas mais um capítulo dessa trajetória.

logotipo da Knight Foundation

Está mais difícil agora? Com certeza. As batalhas estão acontecendo em muitas frentes que não podíamos prever? Sem dúvida. Mas é justamente para isso que a Knight Foundation foi criada, há 75 anos.

Embora todos nós preferíssemos conseguir dosar melhor o ritmo, o momento exige urgência, foco e clareza de propósito.

Fast CompanyQuando o Congresso retirou US$ 500 milhões em financiamento da mídia pública, parte da crítica foi que os veículos financiados com recursos públicos teriam se tornado partidários e nem sempre imparciais. Há alguma justiça nesse argumento?

Maribel P. Wadsworth – Temos visto a confiança se deteriorar em muitas instituições. À medida que o país e o mundo se tornam cada vez mais polarizados e dependentes de suas próprias bolhas de informação, a confiança vira um problema, e, junto com ela, surgem preocupações sobre viés.

A verdade, no entanto, é que, quando você analisa, estudo após estudo, a mídia pública – especialmente as emissoras públicas locais – continua entre as instituições mais confiáveis para os norte-americanos. As pessoas acreditam em suas redações locais. Confiam nos vizinhos que reportam sobre suas próprias comunidades.

personagens do programa infantil "Sesame Street"
"Sesame Street" (Crédito: PBS/ Divulgação)

Enquanto a retórica em torno dos cortes e das percepções de viés acabou colocando o foco sobre a NPR, na prática os cortes mal a afetaram – mas foram devastadores para as emissoras locais, principalmente nas regiões predominantemente rurais.

Durante o debate desse projeto de lei no Senado, o Alasca sofreu um terremoto significativo. Se não fosse por uma pequena emissora pública de rádio, grande parte do estado sequer teria sabido que estava sob alerta de tsunami.

Fast CompanyQuando esses cortes se concretizaram, a Knight Foundation, junto com outros financiadores como a Ford Foundation e a MacArthur Foundation, entrou em cena para cobrir parte da lacuna. Sei que vocês aportaram US$ 10 milhões. Como isso aconteceu?

Maribel P. Wadsworth – Foi uma resposta urgente, à altura do momento. E é importante deixar claro que a filantropia nem sempre se move na velocidade das notícias. Mas era fundamental agir, porque se tratava de uma perda iminente de recursos – verbas que já haviam sido aprovadas e com as quais essas emissoras contavam.

Precisávamos agir rápido, e foi ótimo ver parceiros estratégicos se juntarem a nós. Investimos US$ 10 milhões para ajudar a liderar o Public Media Bridge Fund, administrado pela Public Media Company. Três meses depois, chegamos a quase US$ 60 milhões arrecadados.

As pessoas entendem que essas emissoras desempenham um papel vital em suas comunidades.

Dito isso, não é uma solução de longo prazo. Isso ajuda a estabilizar as emissoras mais em risco. Não significa que não haverá perda de programação. Não significa que todas as emissoras vão sobreviver.

Mas, esperamos, isso compra o tempo necessário para pensar na transformação do sistema como um todo: que mudanças precisam ser feitas, desde a governança da mídia pública até consolidações que, sem dúvida, serão necessárias.

Fast CompanySe a mídia pública deixar de ser apoiada pelo governo, “mídia pública” ainda é o termo correto ou passa a ser simplesmente mídia?

Maribel P. Wadsworth – Você tem razão: passa a ser apenas mídia. E acho que isso fará parte das reflexões daqui para frente.

Preciso acreditar – talvez seja apenas o meu otimismo natural – que veremos uma revisão racional do modelo de financiamento federal, especialmente para emissoras em áreas mais vulneráveis, em comunidades menores, onde não há uma base populacional grande o suficiente para sustentar essas emissoras sozinhas, nem um setor empresarial robusto capaz de bancar seus custos.

Ainda assim, as pessoas entendem que essas emissoras desempenham um papel vital em suas comunidades: como um espaço de conexão, trazendo para o centro do debate os temas, as pessoas e as questões realmente importantes para a vida local.

Fast CompanyPara a Knight Foundation, o compromisso com a liberdade de imprensa e o jornalismo local faz parte de uma promessa maior de apoiar as comunidades locais como um todo, certo? Está tudo interligado.

Maribel P. Wadsworth – Exatamente. E, para nós, isso é fundamental. Acreditamos que notícias e informações locais confiáveis são uma força central para o bem nas comunidades. As pessoas passam a se enxergar, a se conectar, a compartilhar uma base comum de fatos em torno da qual podem se mobilizar. Para uma comunidade prosperar, isso não é um diferencial – é o básico.


SOBRE O AUTOR

Robert Safian é diretor e editor do The Flux Group. De 2007 a 2017, dirigiu as operações da Fast Company em mídia impressa, digital e ... saiba mais