Nada de IA: Hermès aposta em ilustrações imperfeitas e humanas

Em meio à avalanche de imagens geradas por IA, a maison francesa decidiu seguir o caminho oposto e apostar no traço humano

Em um mundo dominado pela IA, a Hermès escolheu um humano
(Divulgação/Ilustrações de Linda Merad para Hermès)

Elizabeth Segran 5 minutos de leitura

Se você visitar o site da Hermès em busca de um lenço ou uma bolsa, será recebido por uma coleção de criaturas marinhas lúdicas nadando pela tela. Para navegar até a seção de relógios, você clicará na imagem de um relógio ladeado por uma enguia.

Para encontrar sapatos, você clicará em um mocassim com um pelicano sentado dentro dele, como se estivesse navegando em um barco.

Esses cavalos-marinhos, peixes, enguias e estrelas-do-mar são fascinantes. Enquanto as imagens digitais são extremamente suaves, simétricas e impecáveis, essas imagens carregam todas as imperfeições de uma ilustração feita à mão.

nova campanha da Hermès
(Divulgação/Hermès/Linda Merad)

É possível ver a textura do grão do papel no fundo, uma leve irregularidade nas linhas, variações na coloração. Em um mundo em que tudo é gerado por IA, essas imagens parecem especiais, talvez até luxuosas.

A Hermès, que lançou um novo site na semana passada, fez uma parceria com a artista francesa Linda Merad para criar essas imagens. Merad, cujas ilustrações a tinta já apareceram no The New York Times, Texas Monthly e The Atlantic, é especializada em desenhos feitos à mão.

Foi seu processo analógico e tradicional que atraiu a marca. "Eles queriam criar a impressão de que a arte foi feita por um ser humano", explica Linda. "Queriam que o espectador sentisse a materialidade do desenho."

nova campanha da Hermès, sem IA
(Divulgação/Hermès/Linda Merad)

Para a Hermès, é coerente com a marca recorrer a artistas independentes para criar suas imagens. A maison de moda, com 188 anos de história, tornou-se um gigante do luxo (gerando US$ 13,8 bilhões em receita no ano passado) ao enfatizar a natureza artesanal de seus produtos, produzidos em fábricas europeias por artesãos altamente qualificados.

Por meio de sua página no Instagram, a Hermès convida artistas interessados ​​em oferecer sua própria interpretação da marca, desde a criação de imagens de cavalos como referência às raízes equestres da marca até desenhos de peças da coleção.

nova campanha da hermès
(Divulgação/Hermès/Linda Merad)

Há seis meses, Linda atendeu ao chamado, ilustrando chapéus da Hermès em seu próprio estilo fantástico, desenhando acessórios usados por pescador e bonés com pernas, dançando em um campo de cogumelos.

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A equipe da Hermès ficou tão impressionada com seu trabalho que a convidou para criar imagens de animais marinhos que seriam usadas na campanha da marca no Instagram. Então, algumas semanas atrás, a equipe da Hermès anunciou que incorporaria as imagens ao site de e-commerce, o que foi uma surpresa.

Esta é a primeira vez que a Hermès usa ilustrações em seu site. "Não foi planejado", diz Linda. "A equipe de e-commerce gostou muito do meu universo, então eles queriam ilustrações."

nova campanha da Hermès, sem IA
(Divulgação/Hermès/Linda Merad)

Considerando o tamanho da empresa, Linda diz que teve uma liberdade criativa notável. A artista trabalhou com apenas quatro outras pessoas: dois diretores de arte da Hermès, um animador e um músico. Ela afirma que foi remunerada pelo seu trabalho, e a equipe da Hermès aceitou sua primeira oferta.

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A Hermès queria começar com o motivo de um cavalo-marinho, mas ela teve liberdade para construir todo um mundo subaquático. "É o ano do cavalo no calendário chinês, e a Hermès sentiu que imagens de cavalos estariam por toda parte, então eles queriam fazer algo distinto", diz ela.

Nova campanha da hermès
(Divulgação/Hermès/Linda Merad)

Sua principal restrição era incluir vários produtos nas imagens, como sapatos, joias e lenços, já que eles seriam usados ​​para ajudar os clientes a navegar pelas categorias de produtos.

"Gosto de misturar várias ideias e criar formas híbridas. Isso me permite fazer imagens que são divertidas e poéticas"

Linda Merad

Linda diz que não achou isso muito difícil porque costuma justapor animais com elementos humanos. "Fiquei surpresa por ter tanta liberdade criativa de uma marca de luxo", diz. "Gosto de misturar várias ideias e criar formas híbridas. Isso me permite fazer imagens que são divertidas e poéticas."

Em um mundo onde a inteligência artificial pode produzir imagens de alta qualidade gratuitamente, muitos artistas temem que haja menos demanda por seu trabalho.

nova campanha da Hermès
(Divulgação/Hermès/Linda Merad)

De fato, os geradores de imagens de IA são treinados com arte existente, o que significa que eles estão usando o trabalho dos artistas sem compensá-los e depois o retrabalhando em novas imagens.

Mas essa parceria com a Hermès sugere que a arte original feita por seres humanos também se tornará cada vez mais valiosa. Destacar-se em um mundo digital repleto de conteúdo desleixado exigirá tempo e dinheiro para trabalhar com artistas.

Abaixo, assista o vídeo com as ilustrações:

campanha da Hermès com ilustrações feitas por artista, sem IA

Linda diz que já existe um desejo crescente, em alguns setores, por trabalhos feitos à mão. Desde criança, ela sempre adorou desenhar, principalmente roupas. A artista considerou se tornar estilista, mas não gostou da ideia de ter que criar grandes coleções a cada temporada; preferia dedicar-se a cada imagem individual.

Ela acreditava que sua melhor chance de encontrar trabalho como artista seria se tornar designer gráfica, então frequentou a École Nationale Supérieure des Arts Appliqués et des Métiers d’Art (Escola Nacional Superior de Artes Aplicadas e Ofícios) em Paris para aprender design gráfico.

Nova campanha da Hermès
(Divulgação/Hermès/Linda Merad)

Mas, nos últimos anos, Linda descobriu que os clientes estão mais interessados ​​em suas ilustrações feitas à mão.

“Quando as coisas são feitas à mão, você percebe que há uma alma por trás delas”

Linda Merad

A artista acredita que todas as imperfeições inerentes ao trabalho artesanal criam imagens mais interessantes aos olhos em um mundo onde tanta arte digital parece igual.

“Quando as coisas são feitas à mão, você percebe que há uma alma por trás delas”, diz ela. “Há mais charme e humanidade nas imperfeições do que em algo que parece mais robótico.”


SOBRE A AUTORA

Elizabeth Segran, Ph.D., é colunista na Fast Company. Ela mora em Cambridge, Massachusetts. saiba mais