Casas de bambu de US$ 1 mil enfrentam terremoto: veja o resultado
Estruturas de bambu já tem vantagens em terremotos por serem leves e flexíveis, mas a Housing Now encontrou maneiras de ampliar esse desempenho

Quando um terremoto de magnitude 7,7 atingiu Mianmar no ano passado, estradas foram danificadas e milhares de prédios desabaram. Mas um conjunto de pequenas casas de baixíssimo custo, feitas de bambu, resistiu sem sofrer nenhum dano.
Terminadas apenas alguns dias antes do terremoto, as casas funcionam como abrigos de emergêcia para parte dos milhões de pessoas deslocadas pela guerra civil que assola o país.
O estúdio de arquitetura Blue Temple, com sede em Mianmar, trabalhou com sua empresa derivada de construção, a Housing Now, para criar moradias pré-fabricadas simples, com o menor custo possível, mas ainda capazes de resistir a desastres naturais.
“Construímos cada uma pelo preço de um smartphone – cerca de US$ 1 mil por casa”, diz o arquiteto Raphaël Ascoli, fundador da Blue Temple.
O bambu tem uma longa história como material de construção no país, mas a equipe viu ali uma oportunidade de inovação. Ascoli, que trabalha em Mianmar há mais de uma década, desenvolveu o conceito em parceria com um carpinteiro local especializado em bambu.
RESISTÊNCIA A TERREMOTOS
O bambu já é mais barato do que madeira, concreto ou aço. Ainda assim, o estúdio conseguiu reduzir os custos usando uma espécie fina e de baixo custo de bambu – diferente das variedades maiores normalmente usadas na construção – e agrupando os caules para criar estruturas rígidas e resistentes.
A empresa constrói as vigas e depois as monta em estruturas que “podemos simplesmente montar como um kit da Ikea”, em menos de uma semana, diz Ascoli.
“Por causa da natureza orgânica do bambu que é entrelaçado nos quadros estruturais, a casa ganha um pouco de flexibilidade. Em vez de ser muito rígida e quebradiça como o concreto, ela consegue se mover um pouco”, explica o arquiteto.
Qualquer estrutura de bambu já tem vantagens em terremotos por ser leve e flexível, mas a empresa encontrou maneiras de ampliar esse desempenho.
“Fizemos muitos protótipos e testamos até o limite de ruptura. Assim, dá para avaliar a pressão máxima que a casa aguenta antes de falhar”, conta Ascoli. A equipe fez ajustes em cada junção para tornar as construções mais resistentes e protegidas contra o clima.
O grande terremoto foi "uma prova de conceito em condições reais”, diz Ascoli. As casas, localizadas em um campo para pessoas deslocadas, estavam a menos de 16 quilômetros do epicentro do tremor. Nenhuma precisou de reparos.
SISTEMA "FAÇA VOCÊ MESMO"
A empresa vem construindo casas para pessoas desalojadas desde o golpe militar em Mianmar, em 2021. Embora o projeto permita adaptações, em geral trata-se de um cômodo simples, que os moradores podem dividir em áreas de convivência e de dormir. Os campos de desalojados contam com banheiros e cozinhas compartilhados.
Até agora, o trabalho foi feito em uma escala relativamente pequena. A equipe é enxuta e o financiamento de ONGs, que já era limitado, começou a minguar.

Quando o governo Trump encerrou as atividades da USAID, “isso teve consequências enormes para a resposta humanitária em Mianmar”, afirma Ascoli. “Muitas ONGs estão fechando e não conseguem mais continuar operando.” Outros países também cortaram recursos. Além disso, a guerra provocou escassez de mão de obra na construção civil.
Para seguir em frente, a equipe passou a experimentar novas abordagens. O projeto mais recente, desenvolvido ao longo dos últimos 18 meses, é um manual de construção “faça você mesmo” que ajuda as pessoas a incorporar algumas das técnicas da equipe de design para otimizar o uso do bambu enquanto constroem suas próprias casas.

“A ajuda humanitária está falhando neste momento porque depende de fontes de financiamento pouco confiáveis e de um sistema arcaico”, afirma Ascoli.
“Basicamente, estamos tentando testar se existe uma alternativa à resposta humanitária tradicional e descobrir como podem ser os programas humanitários pós-ONG, capazes de substituir os sistemas antigos.”



