Precisamos mudar a régua da inovação

A gente cresceu ouvindo que inovar é criar algo novo que muda o mundo. Mudar o mundo, muda; mas para onde gostaríamos que fosse?

coluna izidoro inovação
ABRAHAM GONZALEZ FERNANDEZ,metamorworks,primipil eNeoLeo via Getty Images

M.M. Izidoro 3 minutos de leitura

Recentemente, a mídia foi à loucura com uma jovem brasileira que virou bilionária nos Estados Unidos. Eu, brasilianista que sou, primeiro fiquei muito feliz com a chamada da notícia. Mas como viver na segunda metade da terceira década do século 21 não é bolinho, a felicidade logo se tornou um sentimento avesso, quando descobri que ela ficou rica criando um site de apostas.

O Kalshi permite que você aposte em praticamente qualquer coisa. Quando digo qualquer coisa, é qualquer coisa mesmo. Se vai chover amanhã, quem vai ganhar uma eleição, quanto vai ser a inflação do mês. Dizem até que a Casa Branca anda manipulando o tempo dos discursos para os apostadores ganharem uma graninha extra nesses sites.

E mesmo com todas as questões que sabemos que sites assim tem, o mercado aplaudiu de pé. Manchetes celebrando. Investidores babando. O sonho brasileiro exportado para o Vale do Silício. Aquela sensação de, como diria, o Obama, "sim, nós podemos"

A gente cresceu ouvindo que inovar é criar algo novo que muda o mundo. Cada vez mais, eu ando me perguntando: mudar o mundo, muda. Mas para onde gostaríamos que fosse?

Se a gente olhar os números de endividamento, vício em jogos e destruição de famílias que as bets causam, a conta não fecha. Eu sinto que é como aplaudir alguém por inventar um cigarro que vende muito, mas é mais eficiente em te dar enfisema pulmonar.

Sinto que grande parte do problema é que a régua que usamos para medir inovação está quebrada, pois ela só tende a medir uma coisa: dinheiro.

Faturou bilhões? Inovador. Captou investimento? Disruptivo. Valuation nas alturas? Gênio. Mas e o resto?

A gente vive uma policrise. Crise climática, crise de saúde mental, crise democrática, crise de sonho, estamos entrando em uma crise financeira enorme.

Créditos: photoman/ simarik/ master1305/ iStock

No meio de tudo isso, celebramos como heróis pessoas que criam máquinas para extrair dinheiro de gente vulnerável. Onde só elas e os acionistas ganham. E todo o resto da sociedade paga a conta emocional, social e até espiritual dessa tal inovação.

Eu proponho que a gente comece uma discussão que mude e amplie essa régua.

Que tal medir inovação pelo impacto social real?

Que tal medir inovação pelo impacto social real? Quantas pessoas saíram da pobreza, tiveram acesso à educação, conseguiram cuidar da sua saúde mental? Que tal medir pelo impacto ambiental? A inovação regenera ou destrói? Planta ou extrai?

Que tal medir pelo impacto emocional nas comunidades que ela toca? As pessoas estão mais conectadas, mais felizes, mais presentes? Ou mais ansiosas, mais viciadas, mais sozinhas?

Leia mais: Os desinfluencers e o novo debate sobre hiperconsumo: Precisamos mudar a régua da inovação

E ousando ir além, que tal medir pelo impacto espiritual? Essa inovação nos aproxima da natureza e de coisas essenciais à vida ou nos afasta ainda mais de nós mesmos e do resto da Criação?

Eu sei que pode parecer papo de hippie falar isso num site de negócios. Mas o mundo dos negócios como a gente conhece está mudando. Quer ele queira ou não. E uma coisa que me anima é que a gente pode escolher o que vai nascer no lugar dele.

Precisamos de empreendedores que inovem em felicidade, em conexão, em regeneração.

Precisamos de empreendedores que inovem em felicidade, em conexão, em regeneração. Que entendam que o lucro é consequência e não fim. Que a verdadeira disrupção é criar um mundo onde todos ganham, inclusive o planeta.

Leia mais: O mundo em transformação com os millennials e soluções inovadoras: Precisamos mudar a régua da inovação

Assista abaixo um trecho da apresentação de M.M. Izidoro no Innovation Festival 2025:

A régua antiga nos trouxe até aqui. Se quisermos ir para outro lugar, precisamos medir outras coisas.

E na grande crise de sonhos e cosmovisões que vivemos, acabar com os reports trimestrais de lucros e a ideia que só é inovador o que vira unicórnio é talvez um dos maiores sonhos que tenho hoje.


SOBRE O AUTOR

M.M. Izidoro é apresentador, roteirista, diretor e estrategista criativo. Um contador de histórias obcecado por representar os muitos ... saiba mais