A ciência explica como lidar com pessoas difíceis

Lidar com personalidades difíceis tem menos a ver com consertar os outros e mais com gerenciar a si mesmo com inteligência e disciplina

como lidar com pessoas difíceis
Crédito: Yan Krukau/ Pexels

Tomas Chamorro-Premuzic 4 minutos de leitura

Uma das frases mais famosas do escritor Oscar Wilde é: “algumas pessoas espalham felicidade onde quer que vão; outras, quando se vão.” É, possivelmente, uma dos melhores resumos do que chamamos hoje de inteligência emocional.

Não faltam evidências sobre a importância da inteligência emocional para prever a eficácia interpessoal – definida como a capacidade de gerenciar a si mesmo e aos outros no dia a dia.

Na verdade, muito antes de o termo inteligência emocional existir, pesquisas já apontavam diferenças consistentes na propensão a adotar comportamentos interpessoais mais ou menos eficazes.

Muito antes de gestores de RH celebrarem a inteligência emocional, sua avó chamava isso simplesmente de boas maneiras.

PERSONALIDADES PROBLEMÁTICAS

Agora, à pesquisa propriamente dita. A seguir, cinco generalizações baseadas em ciência sobre pessoas com personalidades difíceis — ou seja, indivíduos significativamente mais cansativos, menos recompensadores e mais exigentes do que a média.

1. Déficit de empatia (e por que empatia, sozinha, não basta)

Pessoas difíceis costumam ter dificuldade em reconhecer ou se importar com os sentimentos, perspectivas e necessidades dos outros. Mesmo que você tenha empatia, essa é uma base frágil para comportamentos mais compreensivos ou cooperativos, já que a empatia tende a ser seletiva, enviesada e facilmente descartada quando se trata de alguém de quem não gostamos ou que percebemos como diferente.

2. Altas neuroses, baixa autoestima

Reatividade emocional elevada, ansiedade e sensibilidade à ameaça tornam as interações do dia a dia mais superficiais. Quando alguém tem baixa autoestima ou uma autoconfiança instável, é mais provável que reaja de forma exagerada, leve as coisas para o lado pessoal e acabe sugando a energia emocional de quem está por perto.

alucinações de inteligência artificial
Crédito: bashta/ iStock

3. Indelicadeza disfarçada de inteligência emocional ou de "franqueza"

Algumas personalidades difíceis têm pontuação baixa no quesito amabilidade, o que significa menor inclinação à cooperação, à confiança e à consideração pelos outros. Isso costuma ser confundido com inteligência emocional, autoconfiança ou uma franqueza "radical", quando na verdade é só má gestão de imagem disfarçada de autenticidade.

4. Falta de autoconsciência, especialmente entre narcisistas

Muitas pessoas difíceis são incapazes de perceber como são vistas pelos outros. Indivíduos narcisistas, em particular, tendem a superestimar sua competência, subestimar seu impacto sobre os demais e interpretar feedback como hostilidade, não como informação.

Quando os outros acham que você é desagradável – e percebem que você não faz ideia disso –, a avaliação que fazem de você tende a ser ainda pior.

Leia mais: O que é comportamento passivo-agressivo e como lidar com isso

5. Pouca pressão externa ou falta de incentivo para ser agradável

Por fim, comportamentos difíceis persistem quando são tolerados, recompensados ou não punidos. Poder, status ou uma suposta indispensabilidade frequentemente blindam indivíduos das consequências sociais, reduzindo sua motivação para regular o próprio comportamento ou investir em relações mais agradáveis.

O QUE FAZER

Então, como lidar melhor com essas pessoas – algo inevitável se você trabalha com colegas, clientes ou parceiros? Aqui vão algumas recomendações básicas:

1. Aprenda a reconhecer os padrões

Os noruegueses têm um ditado: não existe tempo ruim, você é que escolheu a roupa errada. Se você tem um colega instável, um chefe irritadiço ou um cliente egoísta, o erro não é esperar chuva, é aparecer de sandálias e se surpreender ao ficar encharcado.

Quando você reconhece os padrões estáveis de alguém, pode adaptar seu comportamento, ajustar expectativas e otimizar suas respostas.

2. Não tente "consertar" ninguém

A maioria dos traços de personalidade é relativamente estável ao longo do tempo, especialmente na vida adulta. Tentativas de “consertar” os outros geralmente geram frustração, não melhoria. Isso não justifica o mau comportamento alheio, mas evita que você desperdice suas energias.

homem com cabeça de estátua segura um megafone
Crédito: unomat/ iStock

3. Não se deixe intimidar

Pesquisas sobre aprendizagem social e reforço mostram que o comportamento é moldado não apenas pela personalidade, mas também pelas reações que provocamos nos outros.

Ao responder com calma, clareza e estabelecendo limites, você reduz o “ganho” do comportamento difícil. Isso pode não mudar quem a pessoa é, mas muitas vezes consegue mudar como ela se comporta em relação a você.

4. Pratique a "compaixão racional"

Compaxão racional é um compromisso com justiça, tolerância e autocontrole que não depende de afinidade, identificação ou empatia em relação ao outro. Significa tratar as pessoas com decência mesmo quando elas nos irritam, estabelecer limites sem hostilidade e escolher princípios em vez de reações impulsivas.

Essa abordagem é especialmente útil com pessoas difíceis, pois permite manter civilidade e eficácia sem precisar sentir uma empatia que talvez não seja genuína.

Leia mais: Inteligência emocional na prática: 7 frases para lidar melhor com pessoas e situações difíceis

5. Use a autenticidade de forma estratégica

Autenticidade estratégica é escolher quando e como se expressar para que o diálogo continue possível. Trata-se de encontrar um equilíbrio funcional entre dizer o que você pensa e sente e reconhecer que seu direito à expressão não se sobrepõe à sua responsabilidade com os outros.

No fim das contas, lidar com personalidades difíceis tem menos a ver com consertar os outros e mais com gerenciar a si mesmo com inteligência e disciplina.

Pessoas difíceis raramente melhoram porque são corrigidas, e sim porque o ambiente ao redor delas se recusa a espelhar seus piores instintos.


SOBRE O AUTOR

Tomas Chamorro-Premuzic é diretor de inovação do ManpowerGroup, professor de psicologia empresarial na University College London e na ... saiba mais