Dois jeitos de olhar o futuro

Pensar como futurista não é adivinhar o que vem aí. É assumir que o futuro é uma consequência direta das escolhas que fazemos agora

Dois jeitos de olhar o futuro
Eoneren via Getty Images

Daniela Klaiman 4 minutos de leitura

Sou futurista e talvez a parte mais curiosa disso tudo seja admitir que, por muito tempo, falam sobre o futuro sem falar com futuristas. Então, quando vi que finalmente resolveram nos ouvir, confesso que fiquei animada. E logo depois, apreensiva.

A Ipsos, em parceria com a Global Futures Society e a Dubai Future Foundation, ouviu 126 futuristas profissionais pelo mundo e comparou essas respostas com as de mais de 52 mil pessoas que não trabalham ou estudam o futuro. Esse estudo se chama "Portrait of a Futurist 2025". 

Vou ser honesta: fiquei com bastante medo antes de ler os resultados. Medo de encontrar um grupo de futuristas excessivamente otimista, desconectado da realidade ou apaixonado demais por tecnologia. Medo de ver confirmados todos os estereótipos que ainda rondam essa profissão. Medo do oposto também: futuristas ultra pessimistas e sem esperança.

Mas não foi nada disso que encontrei.

Logo de cara, um dado desmonta um dos maiores clichês sobre quem trabalha com futuro. Apenas 21% dos futuristas acreditam na lógica do “vive o hoje que o amanhã se resolve sozinho”. Para o resto das pessoas (não futuristas) essa crença chega a 62%.

Isso acontece porque futuristas tendem a rejeitar esse tipo de niilismo porque são movidos por uma crença profunda em progresso, propósito e criação de valor. Eles não vivem só para o momento presente, mas sim para o que ainda pode ser possível.

Outra surpresa vem da relação com mudança. Vemos que futuristas, em geral, parecem lidar melhor com transformações do que a média global já que só 56% sentem que o mundo está mudando rápido demais, enquanto esse sentimento chega a 83% na população geral e 72% dos futuristas acreditam que a imigração tem impacto positivo na sociedade, contra 48% dos não futuristas. 

Ser mais progressista também parece ser uma característica, já que apenas 28% dos futuristas concordam com a ideia de que existem apenas dois gêneros, enquanto entre o resto da população esse número é de 56%. 

E, como inovação é caminho para o futuro, 66% deles se consideram early adopters de novos produtos, contra 46% da população não focada em futuro.

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Créditos: NeoLeo/ Frances Coch/ Getty Images

Já quando o tema é bem-estar, 91% dos futuristas dizem que são felizes, comparados a 76% do restante da população. Mas esse otimismo é pessoal, não sistêmico, já que ao olhar para o mundo e seus possíveis futuros, futuristas são mais pessimistas. 

Existe um paradoxo claro aqui: indivíduos pessoalmente esperançosos, mas globalmente preocupados. Essa combinação é poderosa, porque gera fuga, não ação.

A desconfiança em relação às instituições também é evidente. Apenas 23% dos futuristas acreditam que líderes empresariais dizem a verdade, contra 44% dos não futuristas, e 80% preferem comprar de marcas que refletem seus valores, frente a 70% do público geral. 

Futuristas não estão tentando prever o futuro, mas sim nos preparar para múltiplos futuros possíveis.

Talvez por isso futuristas confiem mais em si mesmos do que no sistema. Nada menos que 83% se consideram bons planejadores de longo prazo, mais do que governos, corporações ou instituições internacionais. Globalmente, esse número é de apenas 58%.

Na minha opinião esse pensamento não é arrogância. É leitura de contexto constante e uma certeza: se o sistema não está preparado, alguém precisa estar.

A crise climática aparece como um dos temas mais sensíveis, com 96% dos futuristas acreditando que estamos caminhando para um desastre ambiental se não mudarmos hábitos rapidamente, contra 80% dos não futuristas. Ainda assim, só 16% acham que já é tarde demais para agir – no mundo em geral, esse sentimento de impotência sobe a 34%.

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Crédito: Fast Company Brasil

Quando falamos de tecnologia, a postura também foge dos extremos. Só 27% dos futuristas acreditam que o progresso tecnológico está destruindo nossas vidas, enquanto esse medo atinge 57% globalmente.

Ao mesmo tempo, 56% acham que a tecnologia será suficiente para resolver os problemas do futuro, contra 71% da população geral. Ou seja, futuristas não veem tecnologia como vilã nem como salvadora. Veem apenas como ferramenta.

O pano de fundo de tudo isso são três forças que, segundo os futuristas, vão moldar o futuro: o avanço tecnológico acelerado (especialmente a inteligência artificial), as mudanças climáticas e a sustentabilidade e instabilidade geopolítica, com seus rearranjos constantes. 

Leia mais: Todo mundo quer mudança, ninguém quer mudar

Mas nada disso é exatamente novidade. 

A diferença está na postura em relação a esses temas. Futuristas não estão tentando prever o futuro, mas sim preparar pessoas, organizações e sociedades para múltiplos futuros possíveis. Com menos hype, menos pânico e mais responsabilidade.

Depois de ler o estudo inteiro, meu medo inicial mudou de lugar. Não fiquei preocupada com o que os futuristas pensam, mas com o quanto ainda escutamos pouco esse tipo de pensamento.

Porque, no fim, pensar como futurista não é adivinhar o que vem aí. É assumir que o futuro não acontece sozinho e que é uma consequência direta das escolhas que fazemos agora.


SOBRE A AUTORA

Daniela Klaiman é um dos principais nomes do futurismo no Brasil e na América Latina. Ela é CEO da Future Future, consultoria especial... saiba mais