Para a geração Z, estar sempre ocupado não é status, é problema
Entenda o motivo de os jovens profissionais rejeitarem a 'glorificação do estresse' em troca de modelos de trabalho mais flexíveis e humanos

Com frequência, surgem opiniões sobre modos da Geração Z agir. Seja falando dela não ser tão diferente assim, ou que as pessoas da geração vão se adaptar como as outras.
A diretora de marketing da Squarespace, Kinjil Mathur, atraiu críticas ao dizer aos candidatos a emprego da Geração Z que eles, assim como ela, deveriam estar "dispostos a fazer qualquer coisa" para conseguir o primeiro emprego.
“Eu estava disposta a trabalhar de graça, estava disposta a trabalhar em qualquer horário que eles precisassem.”
Kinjil Mathur
A reação negativa online à declaração de Kinjil foi imediata e brutal, forçando-a a se retratar. “Compartilhei minhas próprias experiências de estágio na faculdade e minhas palavras foram deturpadas como conselhos de carreira para toda uma geração”, disse a executiva de marketing posteriormente em um comunicado.
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O episódio demonstra um crescente choque de valores entre as várias gerações no ambiente de trabalho atual. Enquanto alguns ainda se orgulham de sacrificar o bem-estar para demonstrar comprometimento, outros - principalmente os trabalhadores mais jovens - enxergam as coisas de forma diferente.
“Acho que eles têm uma atitude mais voltada para o trabalho como forma de viver, em oposição à mentalidade de viver para trabalhar com a qual muitos de nós crescemos”, disse Ravin Jesuthasan, líder global de serviços de transformação da gigante de consultoria Mercer, em um discurso no Fórum Econômico Mundial de Davos, em 2024.
Ainda segundo Jesuthasan, “isso é particularmente verdadeiro no Ocidente. Eles vivenciaram o legado de todas essas promessas não cumpridas. Antigamente, e em muitas partes do Ocidente, prometiam que, se o profissional trabalhasse por 30 anos, teria uma aposentadoria com benefícios definidos, assistência médica na aposentadoria, etc. Nada disso existe hoje.”
PERCEPÇÃO DE ESTRESSE
Um dos muitos pontos de diferenciação entre os jovens de hoje e os trabalhadores mais velhos é a percepção do estresse. Historicamente, as culturas de trabalho ocidentais equiparavam o estresse à importância. Estar estressado geralmente significava que o trabalho era mais exigente e, portanto, mais importante, incentivando alguns a reclamar do estresse como uma forma sutil de comunicar seu valor.
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Em vez de ver a ostentação do estresse - ou falar sobre estar sobrecarregado com um senso de orgulho - como um distintivo de honra, no entanto, o jovem tende a interpretá-la, na melhor das hipóteses, como um indicativo de má gestão do tempo e, na pior, de uma relação problemática com o trabalho.
Pesquisa sugere que aqueles que se vangloriam do estresse são percebidos como menos capazes, e não mais.
TEMPO GANHA NOVO VALOR
De acordo com um estudo de 2024 realizado por pesquisadores da Universidade da Geórgia, aqueles que mais se gabam de estar estressados agora são percebidos de forma mais negativa por seus pares. Na verdade, a pesquisa sugere que aqueles que se vangloriam do estresse são percebidos como menos capazes, e não mais.
Após gerações associando tempo com eficácia e estar ocupado com importância, a Geração Z passou a enxergar o valor do seu tempo sob uma perspectiva diferente.
Não se trata apenas de a Geração Z ter crescido numa era em que muitas das promessas tradicionais de trabalho e lealdade já haviam sido quebradas, em que os compromissos individuais de tempo estavam amplamente dissociados de resultados reais.
Aqueles que nasceram entre o final da década de 1990 e o início da década de 2010 também já vivenciaram uma crise econômica sem precedentes, suportaram uma pandemia e são regularmente bombardeados por eventos climáticos extremos que antes eram considerados raros.
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Essa geração, que está apenas entrando no mercado de trabalho, passou a infância ouvindo os pais em pânico com os desafios financeiros durante a crise econômica de 2008, teve os cérebros moldados por uma máquina de mídias sociais desregulamentada que se mostrou prejudicial à saúde mental, perdeu alguns de seus anos de formação devido às restrições e lockdowns da pandemia e continua a enfrentar uma série de novos desafios quase diariamente.
Mais do que qualquer geração anterior, este grupo de jovens desenvolveu uma valorização da gestão adequada do tempo, da saúde mental e do bem-estar.
Sua ênfase, amplamente documentada, no significado e na alegria substituiu a busca competitiva por riqueza material, típica das gerações passadas, que visava acompanhar os outros. Costumava-se dizer que dinheiro não compra felicidade, mas a geração mais ansiosa e deprimida da história moderna internalizou esse sentimento.
EXCESSO FINANCEIRO PERDE ESPAÇO
Inúmeros estudos mostram que, quando se trata de prioridades na vida - e no trabalho -, a Geração Z busca um maior equilíbrio entre estabilidade econômica e emocional, valorizando tempo de qualidade em detrimento do excesso financeiro.
De acordo com uma pesquisa da Intuit de 2023, três quartos da Geração Z afirmam preferir uma melhor qualidade de vida a mais dinheiro no banco, e 66% dizem estar interessados em ganhar dinheiro apenas para sustentar interesses pessoais.
Parte da motivação, segundo o estudo, reside no fato de que a comparação social evoluiu de casas, carros e outros marcadores materiais de riqueza para publicações em redes sociais.
33% da Geração Z afirmaram se comparar com pessoas que veem nas redes sociais, aponta estudo
De fato, 33% dos membros da Geração Z afirmaram se comparar com pessoas que veem nas redes sociais, contra 14% da população em geral, e 70% dizem sentir que estão ficando para trás em relação àqueles que veem online, em comparação com 50% de outras gerações.
HORÁRIOS FLEXÍVEIS E SEMANAS DE TRABALHO REDUZIDAS
Na pesquisa da Deloitte de 2024 com millennials e membros da Geração Z, os entrevistados classificaram o equilíbrio entre vida pessoal e profissional como a principal prioridade na escolha de um empregador, seguido por horários flexíveis e semanas de trabalho reduzidas - todos os fatores que superaram o salário.
Em resumo, esta é a geração perfeita para defender uma semana de trabalho mais curta. A jornada reduzida não só oferece mais tempo livre, algo que esta geração valoriza mais do que a remuneração, como também está comprovado que reduz o estresse, a ansiedade, a exaustão e a depressão.
Além disso, a semana de trabalho de quatro dias representa uma oportunidade para abordar alguns dos seus maiores desafios coletivos, como fortalecer os laços familiares e comunitários na era digital, promover a igualdade de gênero e combater as mudanças climáticas.
Por fim, a semana de trabalho de quatro dias oferece a esta geração mais tempo para se engajar em causas que lhe são significativas, uma das principais motivações, segundo pesquisas.
A Geração Z é a geração mais entusiasmada com o conceito de semana de trabalho de quatro dias e a mais convencida não só da sua viabilidade, mas também da sua inevitabilidade.
Em uma pesquisa de 2024 com estudantes e profissionais da Geração Z nos Estados Unidos, com idades entre 18 e 27 anos, 80% afirmaram que a semana de quatro dias deveria ser o padrão, um aumento em relação aos 76% do ano anterior.
O mesmo estudo também constatou que a maioria dos jovens já utilizava novas tecnologias de IA para realizar mais tarefas em menos tempo, com 72% afirmando sentir-se à vontade para usar IA generativa regularmente.
De fato, 72% dos usuários de IA da Geração Z disseram economizar entre 1 e 10 horas de trabalho escolar por semana graças à tecnologia, e 14% reduziram a jornada de trabalho em mais de 10 horas.
MESMO COM MENOS BENEFÍCIOS
Os jovens estão tão interessados em uma semana de trabalho mais curta que estão até dispostos a abrir mão de outros benefícios tradicionais no ambiente de trabalho.
Em uma pesquisa de 2023 da Bankrate, 92% dos entrevistados da Geração Z e dos millennials disseram que sacrificariam outros benefícios comuns em troca de uma semana de trabalho de quatro dias, em comparação com 89% da Geração X e 80% dos baby boomers.
Os benefícios e normas mais comuns no ambiente de trabalho que os entrevistados de todas as gerações sacrificariam por um dia de trabalho a menos são a jornada de oito horas, com 54% afirmando que trabalhariam mais horas nos quatro dias restantes.
A segunda troca mais popular foi a mudança de setor, emprego ou empresa, com 37% dizendo que deixariam os empregos atuais por uma jornada mais curta.
Segundo uma pesquisa realizada pela Hays em 2023 com 12.000 trabalhadores no Reino Unido, 62% prefeririam trabalhar quatro dias por semana no escritório em vez do tradicional modelo híbrido de cinco dias.
Em seu relatório anual de 2025, a empresa global de RH Randstad, que desde 2004 pesquisa milhares de trabalhadores ao redor do mundo sobre as preferências de trabalho, constatou que, pela primeira vez, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional passou a ser mais importante que a remuneração.
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Na pesquisa global da empresa, realizada com 26.000 trabalhadores, 83% colocaram o equilíbrio entre vida pessoal e profissional no topo da lista de prioridades, e essa preferência foi ainda mais forte entre os trabalhadores da Geração Z.
Mesmo que outras gerações demorem a aderir à causa, há bons motivos para acreditar que a semana de trabalho de quatro dias é inevitável, pois será altamente valorizada por uma geração de futuros líderes.