7 prioridades que podem definir o sucesso na nova era da IA

Este é o plano para os líderes se manterem à frente em um mundo que está mudando mais rápido do que nunca

7 prioridades que podem definir o sucesso na nova era da IA
Deagreez, Elena Pimukova via Getty Images

Faisal Hoque 8 minutos de leitura

O brasileiro está adotando as ferramentas de Inteligência Artificial generativa com a mesma rapidez que adotou as redes sociais. Em um ano, o número de usuários de internet do país que utilizam IA saltou de 63% para 89%

A frequência de uso dobrou, assim como o número de empresas que utilizam a tecnologia. Ao mesmo tempo que esses dados atestam a capacidade do país em ser um adotante precoce, os números acendem um alerta sobre o nível de preparação para confiar, mais uma vez, de forma tão intensa em uma tecnologia emergente.

Os dados são da segunda edição do estudo “Inteligência Artificial na Vida Real”, conduzida pela empresa de pesquisa Talk Inc. A pesquisa não buscou “superusuários”, mas sim entender como as pessoas comuns utilizam a tecnologia. 

Esse cenário brasileiro vem de encontro com o anseio sobre 2026 ser um ponto de inflexão crucial para as empresas. Os dados globais acompanham essa tendência: a proporção de funcionários que utilizam IA em suas funções nos EUA dobrou entre 2023 e 2025.

Na União Europeia, 30% dos trabalhadores já integram a IA em seus empregos e, de acordo com a Gartner, até 2026, mais de 100 milhões de trabalhadores colaborarão com "colegas robôs".

A questão para o próximo ano, portanto, não é mais se a IA transformará a organização, mas sim se a equipe de liderança guiará essa transformação de forma ponderada ou deixará que ela aconteça de forma desordenada, ferramenta por ferramenta e equipe por equipe.

Grande parte do último ano foi dedicada ao trabalho com a equipe de pesquisa e parceiros da indústria para refletir sobre os desafios mais urgentes que as organizações enfrentam ao implementar IA em larga escala.

Com base nesse trabalho, foram identificadas 7 prioridades essenciais para líderes que se preparam para 2026. Não se trata de táticas isoladas, mas de práticas que, em conjunto, fornecem um roteiro para a construção de organizações resilientes, adaptáveis e centradas no ser humano na era da IA.

7 DICAS PARA LÍDERES SE PREPARAREM PARA USAR IA


1. Adote os princípios da liderança regenerativa

Os modelos tradicionais de liderança, focados na eficiência e na extração de recursos, geram equipes esgotadas e organizações frágeis.

À medida que a IA aumenta a tentação de buscar ganhos de curto prazo, a liderança precisa adotar abordagens regenerativas que restaurem e aprimorem ativamente os recursos humanos, ambientais e tecnológicos.

Liderança regenerativa significa ir além da sustentabilidade para criar sistemas que realmente melhorem com o tempo. Isso envolve:

  • Adotar o pensamento sistêmico para enxergar a organização como um ecossistema interconectado.
  • Priorizar o bem-estar de cada profissional juntamente com a produtividade.
  • Medir o impacto além do lucro, incluindo o uso ético da IA e o impacto na comunidade.

Empresas como Patagonia, Interface e Unilever demonstraram que essa abordagem não sacrifica o desempenho. Pelo contrário, ela o aprimora por meio de maior fidelização à marca, engajamento de cada pessoa, resiliência a longo prazo e crescimento mais acelerado.

A chave é reconhecer que a IA deve aumentar o potencial humano, não explorá-lo. Quem lidera com estratégias com propósito e centradas nas pessoas construirá organizações que não apenas sobrevivem à disrupção, mas evoluem por meio dela.

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2. Transforme a organização, não apenas o treinamento

A maioria das organizações encara a requalificação em IA como um problema de treinamento. Mas a IA provocará mudanças sistêmicas que afetarão praticamente todas as funções e fluxos de trabalho.

Preparar o profissional para a revolução que se aproxima exige mais do que apenas ensinar o uso de ferramentas de IA. Fundamentalmente, exige uma reformulação organizacional - reimaginar como será o trabalho na era da IA e transformar a organização para viabilizar esse trabalho.

O sucesso exige trabalho em três dimensões interligadas:

  • Reconstruir a infraestrutura do trabalho (fornecendo as ferramentas, o acesso aos dados e as reformulações dos fluxos de trabalho que permitem a adoção da IA).
  • Redesenhar simultaneamente as funções interligadas em toda a organização (porque quando uma função muda, todas as funções conectadas devem mudar).
  • Cultivar uma cultura de aprendizagem que valorize a experimentação em vez da perfeição e trate o fracasso como dado, e não como vergonha.

3. Domine a arte de liderar equipes com inteligência artificial

Ao longo da história, a competência essencial da liderança sempre foi guiar pessoas para alcançar objetivos definidos. Mas na era da IA, a liderança assume um novo significado: liderar equipes híbridas nas quais humanos e sistemas de IA trabalham lado a lado.

A liderança deve aprender a aproveitar os pontos fortes únicos de cada um, criando o contexto no qual esses pontos fortes se multipliquem por meio do trabalho em conjunto.

Para ter sucesso, a liderança deve:

  • Interagir pessoalmente com as próprias ferramentas de IA para que se possa entender e, eventualmente, modelar uma colaboração eficaz.
  • Cultivar a clareza de propósito para discernir o que realmente vale a pena fazer em um mundo onde a IA torna tudo possível.
  • Tornar-se um agente moral capaz de lidar com questões éticas urgentes relacionadas ao uso da IA.
  • Desenvolver a inteligência emocional aprimorada necessária para guiar as equipes por uma transição frequentemente perturbadora.

4. Construa um portfólio de IA equilibrado: projetos ambiciosos e conquistas rotineiras

Uma transformação bem-sucedida em IA exige um portfólio de inovação bem equilibrado - uma combinação deliberadamente diversificada de iniciativas que abrangem diferentes níveis de risco e horizontes temporais.

A gestão deve lidar com questões de visão geral sobre a transformação do setor, ao mesmo tempo que identifica oportunidades táticas para implementação a curto prazo. Os projetos imediatamente práticos criam a base - e o financiamento - para empreendimentos mais ambiciosos.

Avaliar quais iniciativas merecem recursos exige uma análise sistemática em múltiplas dimensões: viabilidade técnica, custos reais de investimento, equilíbrio entre risco e recompensa, alinhamento com o propósito central e prazos realistas.

Fundamental para tudo isso é a liderança engajada no nível executivo. O CEO não pode simplesmente delegar projetos de IA a líderes técnicos. Em vez disso, deve orquestrar todo o portfólio de inovação para manter a coerência estratégica.

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5. Proteja a singularidade da organização

Quando todos usam as mesmas ferramentas de IA treinadas com os mesmos dados públicos, os resultados convergem para uma mediocridade genérica. As peculiaridades, a linguagem específica e as formas únicas de pensar que definem uma organização são diluídas em médias estatísticas.

A vantagem competitiva em 2026 virá da diferença autêntica - valorizar aquilo que torna a organização única. Isso pode ser feito ao:

  • Analisar diferenciais: identificar o que torna a organização diferente e única.
  • Criar conjuntos de dados proprietários: sempre que possível, utilizar dados internos em vez de conjuntos de dados genéricos aos quais todos têm acesso.
  • Estabelecer zonas livres de IA: Manter locais onde apenas pessoas possam operar.
  • Instigar de forma adversária: usar a IA para avaliar criticamente conclusões, em vez de apenas confirmá-las.

O objetivo não é rejeitar a IA, mas usá-la estrategicamente, preservando os elementos distintivos que tornam a organização valiosa.

6. Reinvente a gestão intermediária para a era da IA

A IA está eliminando funções tradicionais de gestão intermediária a uma velocidade sem precedentes. A Gartner prevê que, até 2026, 20% das organizações usarão IA para achatar suas estruturas. E, até 2029, o "caos de empregos" impulsionado pela IA forçará as organizações a reconfigurar ou fundir milhões de postos de trabalho por ano.

É possível obter ganhos significativos de eficiência, mas as organizações devem ter cuidado para não descartar elementos vitais. A tarefa é otimizar a gestão intermediária de forma inteligente - ela ainda é importante, mas seu papel precisa ser fundamentalmente repensado para:

  • Orquestrar a colaboração entre IA e humanos.
  • Atuar como agente de mudança, guiando a organização por meio da disrupção contínua.
  • Realizar o coaching para uma nova era, oferecendo mentoria para cada profissional por meio da requalificação constante.

7. Saiba quando mudar e quando se manter firme

Num mundo profundamente incerto, a competência de liderança mais crucial poderá ser o discernimento: a sabedoria de saber o que preservar e o que transformar.

Líderes eficazes distinguem entre a identidade central da organização (o "quê", que não deve ser comprometido) e seus métodos (o "como", que pode ser reinventado infinitamente).

Em tempos de mudança, é essencial manter a firmeza em relação à primeira, ao mesmo tempo que se demonstra total flexibilidade em relação à segunda.

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O CAMINHO INTEGRADO DAS LIDERANÇAS COM A IA

Nem toda organização precisará dar a mesma ênfase às 7 prioridades citadas acima. O objetivo não é abordar tudo de uma vez, mas reconhecer que essas são as dimensões ao longo das quais a transformação da IA se desenrolará e fazer escolhas deliberadas sobre onde investir atenção.

O que a liderança não pode permitir é a deriva. Organizações que encaram a adoção da IA como algo que lhes acontece por acaso, acabarão sendo moldadas pela tecnologia, em vez de moldá-la. A diferença entre liderar e seguir em 2026 dependerá de se essas escolhas serão feitas conscientemente ou por omissão.

Quem prepara a organização para 2026, priorizando essas questões, não apenas sobrevive à revolução da Inteligência Artificial como a molda - construindo uma estrutura mais resiliente, mais humana e mais capaz de gerar valor duradouro.


SOBRE O AUTOR

Faisal Hoque é fundador da Shadoka, que desenvolve aceleradores e soluções tecnológicas para o crescimento sustentável. saiba mais