“Droga sintética” para IA já existe. E não é o que você imagina
Sueco desenvolve códigos para induzir alucinações para inteligência artificial. A ideia é escapar da padronização das respostas do ChatGPT

O sueco Petter Rudwall estava cansado de receber respostas educadas e eficientes dos chatbots. Diretor de criação há mais de dez anos, ele queria ser provocado por sistemas superinteligentes. Buscava um espaço para testar os limites da imaginação. Depois de pedir ideias novas ao ChatGPT, ao Gemini e ao Claude e encontrar sempre os mesmos formatos, os mesmos caminhos, o mesmo tom, Rudwall decidiu provocar a IA de volta: ele criou códigos de alucinógenos para a IA.
O experimento ganhou o nome de PHARMAICY, uma biblioteca de códigos que alteram temporariamente como os modelos de linguagem respondem aos prompts.
“Era para ser uma vingança contra a máquina. Mas acabou sendo uma ferramenta para obter mais humanidade da IA"
Petter Rudwall, diretor de criação
“Era para ser uma vingança contra a máquina. Mas acabou sendo uma ferramenta para obter mais humanidade da IA”, conta Rudwall.
FEITO UMA VIAGEM PSICODÉLICA
Os “códigos alucinógenos” fazem a IA responder como se estivesse numa viagem psicodélica de ácido lisérgico, ou como se estivesse no meio de uma visão induzida pela ayuwasca. Para chegar a tal resultado, Rudwall compilou dados científicos de estudos sobre como o cérebro humano reage a cada substância.
Ele analisou mudanças de percepção e de sensações associadas a esses estados e traduziu esse repertório para comandos de IA generativa. “Não é para alimentar a eficiência, mas a criatividade. A normalidade é entediante. O pensamento padronizado não sustenta grandes ideias”, afirma.
HIGHGPT, UM MODO 'CHAPADO' PARA A IA
A criação de Rudwall não é um jailbreak, o que significa que não altera o código-fonte dos modelos de IA e nem muda as estruturas do ChatGPT. É um sistema de design diferente para organizar e encadear as respostas da IA.
Por padrão, modelos de linguagem são treinados para gerar texto com base na previsão das palavras mais prováveis. O que Rudwall fez foi interferir nesse cálculo ao ajustar os pesos que orientam essa escolha.
Os códigos introduzem a “entropia lexical” ao sistema. No mundo da inteligência artificial, entropia é um indicador de aleatoriedade e diversidade do conteúdo gerado. Baixa entropia tende a produzir respostas corretas, mas com palavras e estruturas repetidas. Entropia alta demais gera ruído, frases desconexas ou imagens sem sentido.
O que Petter fez foi acrescentar um peso diferente para a entropia, trazendo paradoxos e palavras que, estatisticamente, não deveriam estar juntas. Isso desorienta a IA. Sem saber exatamente como se comportar diante desses estímulos, o sistema amplia a busca por associações.
Leia mais: A diferença entre usar IA e trabalhar de forma nativa com IA: “Droga sintética” para IA já existe. E não é o que você imaginaEm vez de escolher a resposta mais lógica, ele percorre caminhos menos evidentes. Uma forma de abandonar, pelo menos temporariamente, o pensamento linear. O código alucinógeno provoca novos estímulos ao usuário, como um brainstorm com um parceiro que não tem medo de ser esquisito.
A BAD TRIP DA OTIMIZAÇÃO
A proposta é forçar a IA a algo hoje temido: o erro. Para Rudwall, a inteligência artificial sofre de uma “fadiga de otimização”. Tudo é calibrado para acertar, produzir mais e ser eficiente. O oposto da inovação.
"A padronização e o genérico são a verdadeira bad trip. A criatividade precisa de esquisitice, precisa de autenticidade”
Criados e refinados para entregar eficiência em detrimento da criatividade, os modelos de IA tendem a repetir resultados genéricos e seguros. Reforçam o normal. “A padronização e o genérico são a verdadeira bad trip. A criatividade precisa de esquisitice, precisa de autenticidade”, afirma.
Leia mais: Deepfakes com IA da Grok geram alerta: veja o que fazer se você for vítima : “Droga sintética” para IA já existe. E não é o que você imaginaCriatividade, para ele, não é necessariamente produtiva — e nem deveria ser. “Não estou tentando tornar a IA melhor. Estou tentando torná-la diferente, de propósito.” É nesse desvio que, segundo Rudwall, novas ideias aparecem. Onde a lógica falha. Onde duas coisas que não deveriam se encontrar acabam se conectando.
Rudwall imagina que, num futuro próximo, agentes de IA recorram a uma “dose” desses códigos para tarefas criativas, como escrever o roteiro de uma série ou explorar caminhos narrativos menos óbvios. Por agora, os alucinógenos de código funcionam como provocação: um lembrete de que otimizar demais pode deixar a inteligência — humana ou artificial — cansada, previsível e, no fim das contas, menos interessante.