A Apple quer mudar a forma como criamos com IA – e não é com chatbots
A empresa está transformando software em serviço, mas o novo pacote ajuda a esclarecer sua estratégia em relação a ferramentas profissionais, IA, iPad e mais

À primeira vista, o anúncio feito pela Apple de um serviço de assinatura chamado Apple Creator Studio não parece exigir muita explicação ou análise.
A oferta para Mac, iPad e iPhone, que reúne o editor de vídeo Final Cut Pro, o editor de áudio Logic Pro, o editor de imagens Pixelmator Pro e outros apps para criação e manipulação de mídia por US$ 13 por mês ou US$ 129 por ano, é exatamente o tipo de produto que se esperaria que a empresa lançasse em algum momento.
Afinal, a estratégia de ampliar a fatia de sua receita vinda de serviços já resultou em ofertas como Apple TV, Apple Music, Apple Arcade e Apple News+.
Mas o Creator Studio, que chega à App Store em 28 de janeiro, também conecta vários outros fios narrativos em andamento nos negócios da Apple. Sua própria existência ajuda a responder perguntas sobre como a empresa enxerga a IA como ferramenta criativa. E, à medida que o produto evoluir nos próximos anos, a Apple terá a chance de responder a outras questões.
O público-alvo do Creator Studio são criadores que, cada vez mais, fazem um pouco de tudo. “Um músico não é só compositor”, diz Bob Borchers, vice-presidente global de marketing de produtos da Apple. “Ele produz as faixas, cria a arte do álbum, edita videoclipes, faz o merchandising. Faz tudo isso e, por natureza, trabalha atravessando essas fronteiras tradicionais.”
Todos os apps para Mac incluídos no Creator Studio continuarão disponíveis de forma avulsa na App Store.
Com isso em mente, a Apple está distribuindo funcionalidades úteis entre os aplicativos do Creator Studio de formas que compartilham recursos e reduzem a curva de aprendizado. Alguns rodam diretamente no dispositivo e usam tecnologia própria da Apple, incluindo opções de busca visual e de áudio capazes de encontrar mídias como uma faixa com “bateria animada e funky”. Outros recorrem a modelos em nuvem da OpenAI.
A Apple – que ainda é um azarão no campo da IA, mas aprendeu a ser cuidadosa ao sugerir que esteja tentando automatizar tarefas profundamente humanas – faz questão de enfatizar que não está tentando entregar a criação de conteúdo aos algoritmos. Nem está treinando modelos com as mídias que as pessoas produzem no Creator Studio.
“O ponto chave é que fazemos isso com a filosofia de que a IA deve amplificar as ideias das pessoas, e não substituir qualquer parte da arte ou da criatividade humanas”, afirma Brent Chiu-Watson, diretor sênior da área. “Estamos apenas tentando tornar o usuário mais eficiente enquanto explora seu processo.”
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Por anos, o poderoso hardware do iPad Pro pareceu estar muito à frente da maioria dos apps que ele executa. O Creator Studio não vai mudar isso da noite para o dia, mas dá à Apple um novo incentivo para reforçar seus próprios softwares para iPad.
Isso, por si só, já é uma boa notícia e, com sorte, um exemplo para outros desenvolvedores. “Nosso princípio orientador aqui foi colocar as ferramentas mais poderosas nas mãos da nossa comunidade criativa, onde quer que ela esteja”, diz Borchers.
O PREÇO DO PROGRESSO
É preciso reconhecer que a mudança no modelo de negócios refletida no Apple Creator Studio – ao reunir apps em pagamentos mensais ou anuais, em vez de um pagamento único – não será comemorada por todos.
Basta perguntar à Adobe, cuja Creative Cloud conseguiu afastar uma parcela significativa de profissionais criativos que não querem saber de planos de assinatura. Vale destacar que alguns desses usuários migraram para apps da Affinity, cujo novo dono, o Canva, recentemente reuniu edição de fotos, ilustração vetorial e diagramação em um único produto gratuito.

Para sermos justos, a Apple tem feito um esforço considerável para aliviar essas preocupações, ao menos por enquanto. Todos os apps para Mac incluídos no Creator Studio continuarão disponíveis como compras avulsas na App Store. A empresa também está mantendo usuários que já tinham assinaturas independentes das versões para iPad do Final Cut Pro e do Logic Pro e preferem mantê-las.
Fãs da Apple com boa memória talvez se lembrem da época em que a empresa vendia Keynote, Numbers e Pages juntos como uma alternativa ao Microsoft Office, chamada iWork. Mais recentemente, esses apps passaram a vir gratuitamente em todos os novos dispositivos.
AApple enfatiza que não está treinando modelos com as mídias que as pessoas produzem no Creator Studio.
Apenas clientes pagantes terão acesso aos novos recursos de IA que transformam esses aplicativos em algo como "membros honorários" do portfólio do Creator Studio. Ainda assim, Chiu-Watson diz que as versões gratuitas não estão se tornando becos sem saída ou simples demonstrações. Elas continuarão recebendo suas próprias atualizações.
No fim das contas, o Creator Studio, como qualquer experiência de software, vai falar por si mesmo – em grande parte pela forma como evoluir ao longo do tempo.
Depois de reunir seus elementos dispersos e lançar uma primeira rodada de atualizações, a Apple tem a chance de manter o embalo com melhorias contínuas que façam o preço parecer um investimento bem feito.