O que é a tendência “se tornar chinês” que tomou conta do TikTok
Vídeos de pessoas tomado água quente ou comendo mação cozidas, ao estilo chinês, viram febre nas redes sociais nos EUA

“Vejo um monte de americanos bebendo água quente com limão e mel, comendo congee, tomando caldo, bebendo mais sopa, comendo vegetais chineses”, compartilhou recentemente a criadora chinesa Emma Peng em um vídeo no TikTok que já soma mais de três milhões de visualizações. “Só quero dizer que a minha cultura pode ser a sua cultura. Vocês estão se hidratando muito bem. Estou orgulhosa de vocês.”
A tendência do “becoming Chinese” (algo como “se tornar chinês”) está por toda parte no aplicativo. Embora o nome possa causar estranhamento, trata-se sobretudo da adoção de hábitos de vida enraizados na medicina tradicional chinesa.
No último mês, criadores chineses viralizaram entre os norte-americanos ao defender os benefícios de práticas culturais comuns na China, como beber água quente, usar chinelos dentro de casa e trocar saladas frias e iogurte por congee quente e maçãs cozidas nos meses mais frios.
Outra criadora na linha de frente da tendência é a tiktoker sino-americana Sherry Xiiruii. Em um vídeo com 1,4 milhão de visualizações, ela anuncia: “amanhã, você vai virar chinês. Eu sei que dá medo, mas não adianta lutar contra isso agora – você foi o escolhido.”
Normalmente, quando uma tendência envolve adotar elementos de outra cultura, surgem acusações de apropriação cultural. Alguns usuários, de forma compreensível, expressaram sentimentos ambíguos ao ver práticas culturais das quais antes eram alvo de deboche sendo reembaladas e vendidas como tendência.
Ainda assim, neste caso, a reação dos criadores chineses tem sido majoritariamente positiva. Faz sentido que uma tendência que incentiva o autoaperfeiçoamento ganhe tração logo no primeiro mês do ano, especialmente considerando que muitas das dicas e práticas de bem-estar que viralizam na internet existem há milênios na medicina oriental antiga. Como disse um criador no TikTok, “por que demoraram tanto para perceber isso?”
O apetite pela cultura chinesa não se limita ao algoritmo de bem-estar do TikTok. “Você me conheceu em uma fase muito chinesa da minha vida”, dizia um post viral no X em abril de 2025, em referência a uma frase icônica do filme "Clube da Luta".

Ao mesmo tempo, posts sobre “chinesemaxxing” – que envolve, basicamente, fumar cigarros agachado rente ao chão e usar casacos em estilo oriental – começaram a pipocar online ao longo de 2025.
Como escreveu o produtor Minh Tran em um post recente no Substack, intitulado "My Year of Rest and Chinesemaxxing": “parte do motivo pelo qual esses vídeos não soam como zombaria explícita é que há neles um núcleo de verdade e desejo nesse cosplay. Embora as coisas sempre tenham sido feitas na China, estamos cada vez mais nos fazendo à imagem dos chineses.”

Ele cita, por exemplo, a mania do Labubu em 2025. Os bonecos colecionáveis de pelúcia, produzidos pela fabricante chinesa Pop Mart, foram, em muitos aspectos, a grande tendência do ano, triplicando os lucros da empresa e desencadeando uma febre de compras que se espalhou pelo mundo.
Em tecnologia e em outros setores, a China é o concorrente mais próximo dos Estados Unidos e, em muitos sentidos, seu maior desafio. Em um momento em que os EUA estão mais divididos do que nunca e a política do país se tornou motivo de constrangimento nacional para muitos, as pessoas passam a olhar além das fronteiras em busca de formas alternativas de viver.
Diante do atual contexto geopolítico, a tendência do “se tornar chinês” talvez seja sobre algo mais profundo do que tomar chá quente e usar chinelos em casa.