Programa transforma cientistas em fundadores de startups

Criado por um fundo do Vale do Silício, o programa ensina cientistas a transformar pesquisas em empresas reais

Programa transforma cientistas em fundadores de startups
Fifty Years (divulgação) e freepik.com

Adele Peters 5 minutos de leitura

Enquanto trabalhava como engenheiro na Tesla, Niccolo Cymbalist nunca planejou abrir um negócio. Mas ele vinha considerando uma ideia para uma nova tecnologia: um navio cargueiro autônomo movido a energia eólica. Então, durante sua licença paternidade em 2024, ele descobriu um programa gratuito que ajuda cientistas e engenheiros a lançarem seus próprios negócios pela primeira vez.

Semanas após concluir o programa, chamado 5050, Cymbalist lançou uma startup chamada Clippership. O primeiro navio da empresa está sendo construído na Holanda este ano. Sem a aceleradora, ele afirma que a empresa provavelmente não existiria.

embarcação feita pela Clippership
(Divulgação/Clippership)

O programa já ajudou cientistas e engenheiros a lançarem 100 empresas, desde a Huminly, que usa enzimas para tornar as roupas infinitamente recicláveis, até a Plasmidsaurus, que oferece sequenciamento de DNA ultrarrápido.

A equipe percebeu que boas ideias estavam presas em laboratórios acadêmicos.

O curso é oferecido pela Fifty Years, uma empresa de capital de risco com sede em São Francisco, focada em tecnologia de ponta que busca solucionar os maiores problemas do mundo, de doenças às mudanças climáticas. Logo após a fundação da empresa, há uma década, a equipe percebeu que boas ideias estavam presas em laboratórios acadêmicos.

“A transição de cientista acadêmico para fundador é, na verdade, muito mais difícil do que a transição de um estudante que abandonou o segundo ano da faculdade para fundador, por uma série de razões”, afirma Seth Bannon, sócio fundador da Fifty Years. “Por causa disso, as pessoas mais indicadas para iniciar essas startups — os cientistas que inventaram a tecnologia — não estavam fazendo essa transição. Então, pensamos: ‘Ok, podemos ajudar a resolver isso?’”

DA IDEIA À STARTUP

Os potenciais fundadores participam de um programa de 13 semanas — com alguns fins de semana presenciais e sessões semanais via Zoom — que os ajuda a descobrir se sua ideia vale a pena ser desenvolvida e se está pronta para ser comercializada.

O fundador da Plasmidsaurus, por exemplo, que era pós-doutorando no Caltech, inicialmente entrou no programa com a intenção de transformar sua pesquisa de laboratório sobre circuitos genéticos sintéticos em um produto médico. Mas a equipe do 5050 o ajudou a perceber que ainda faltavam cerca de 10 anos para a comercialização, e que uma de suas outras ideias — uma tecnologia que ele havia desenvolvido para acelerar sua própria pesquisa — estava pronta agora.

A Plasmidsaurus está crescendo rapidamente. "Eles acabaram de ultrapassar a marca de US$ 60 milhões em faturamento anual", diz Bannon. "Eles têm sido lucrativos todos os meses desde o início. E agora são um dos nomes mais queridos na biologia."

MOTIVAÇÃO E UM TIME

Os participantes também aprendem como montar uma equipe para uma startup, entender o que torna os fundadores bem-sucedidos e decidir se o empreendedorismo é adequado para eles.

"Um dos workshops que oferecemos é o 'história do eu', onde mergulhamos fundo em sua motivação principal — toda a sua história de vida e o que eles estão fazendo hoje para garantir que estejam realmente buscando algo que os entusiasme de verdade", diz Ale Borda, que dirige o programa 5050. "Então eles podem usar essa mesma história para compartilhar sobre seu trabalho e por que estão dispostos a superar obstáculos para que isso aconteça."

"Você precisa aprender a se comunicar em abstrações que direcionem corretamente o foco."

Seth Bannon, da Fifty Year

Eles aprendem a se comunicar de forma diferente. “Na academia, por exemplo, você aprende a se comunicar com dados, dados e mais dados — e depois lista as 10 maneiras pelas quais meus dados podem estar errados”, diz Bannon. Embora isso seja bom para pesquisa, “se você se comunicar dessa forma como fundador de uma startup, terá dificuldade para contratar pessoas, para captar recursos e para conseguir cobertura da imprensa”, afirma. “Portanto, você precisa aprender a se comunicar em abstrações que direcionem corretamente o foco.”

DIFERENÇAS DENTRO E FORA DA UNIVERSIDADE

As universidades geralmente também têm programas para ajudar a levar a tecnologia ao mercado, mas as instituições de ensino estão desconectadas do mundo das startups, e Bannon diz que os programas não são muito eficazes. (Os mentores podem ser executivos de empresas da Fortune 500, por exemplo, em vez de outros fundadores de startups com experiência direta.)

Há também conflitos de interesse. As universidades detêm a propriedade intelectual das novas invenções que os cientistas desenvolvem no campus; os produtores de conhecimento precisam passar por um processo complexo de negociação para obter os direitos sobre a tecnologia. O programa da 5050 inclui orientação sobre como navegar nesse processo.

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Até agora, a abordagem está funcionando. "A estatística da qual mais nos orgulhamos é que 96% das equipes que buscaram financiamento conseguiram", diz Bannon. "Essa é uma estatística incrivelmente alta para um programa que aceita pessoas que não têm empresas quando ingressam."

No atual clima político, com os cortes no financiamento federal afetando os laboratórios universitários, o programa já observa um aumento no interesse de cientistas em uma encruzilhada na carreira.

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"Muitos deles estão percebendo que talvez não consigam mais continuar o trabalho de suas vidas na academia", segundo Bannon. "Alguns deles têm a sorte de estar em uma posição em que talvez possam criar uma startup." No curto prazo, ele afirma, os cortes no financiamento podem levar a mais startups, embora isso desacelere o crescimento futuro.

Das 100 empresas que foram lançadas pelo programa até agora, cerca de metade não teria começado sem ele. Outras foram lançadas mais rapidamente do que teriam sido sem o apoio. "Eu provavelmente teria começado uma, mas certamente não existiria na época em que eu a fundei”, diz Daniel Rahn, ex-engenheiro da SpaceX e fundador da Metal as Fuel, empresa que produz combustíveis metálicos para descarbonizar a indústria pesada.

“São empresas que representam um contrafactual”, afirma Bannon. “Essas companhias estão combatendo a crise climática, combatendo doenças, realizando trabalhos importantes. E é muito gratificante ajudar empresas a surgirem, empresas que, de outra forma, não existiriam.”


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo, ... saiba mais