Transformação digital AI-first inclusiva e acessível

Conselhos e C-levels precisam incluir PCDs no centro da sua estratégia de IA

mãos tocam em cérebro artificial
Créditos: "The Accessibility"/ ONU/ Mininyx Doodle/ 3d_kot/ Getty Images/ Anna Shvets/ Unsplash

Fernando Saback e Thierry Cintra Marcondes 9 minutos de leitura

Uma empresa pode se declarar “AI-first” e, ao mesmo tempo, aceitar que parte dos seus colaboradores e clientes simplesmente não consegue usar seus canais digitais, sistemas internos ou produtos baseados em inteligência artificial?

Esta é a contradição silenciosa da transformação digital em muitas organizações: a IA entra para aumentar eficiência, reduzir custos e “modernizar” a empresa. Mas, se a acessibilidade não estiver no centro, ela pode amplificar barreiras que já existiam, inclusive trazer até mais ineficiência e até problemas de segurança no processo.

No Brasil, os dados mostram o tamanho da responsabilidade. O Censo 2022 aponta 14,4 milhões de pessoas com deficiência (PCDs) – cerca de 7,3% da população com dois anos ou mais. Ainda assim, apenas 29% das pessoas com deficiência participam do mercado de trabalho, contra mais de 66% da população geral.

Em uma era em que as pessoas estão envelhecendo, uso excessivo de telas e fones, entre outros que estão acelerando certas deficiências como auditiva e até visual, temos que nos atentar cada vez mais.

Se a IA é, de fato, o novo sistema operacional das empresas, excluir esse público não é só uma injustiça – é abrir mão de todo o potencial e resultado que pessoas com deficiência podem somar. É ser excludente, destruir valor e correr riscos legais e reputacionais desnecessários. 

BRASIL E AMÉRICA LATINA: LEIS AVANÇADAS, EXECUÇÃO TÍMIDA

Do ponto de vista regulatório, Brasil e América Latina não estão atrasados. Pelo contrário, o Brasil tem um dos conjuntos de normas mais robustos do mundo em inclusão:

  • Lei Brasileira de Inclusão/ LBI (Lei 13.146/2015): define acessibilidade como condição de alcance a espaços, serviços, informação e comunicação, inclusive sistemas e tecnologias da informação.
  • Lei de Cotas (Lei 8.213/1991): obriga empresas com 100 ou mais empregados a reservar de 2% a 5% das vagas para pessoas com deficiência ou reabilitadas.
  • Modelos específicos para acessibilidade digital, como o eMAG, baseado em WCAG, que orienta o desenvolvimento de sites acessíveis no governo eletrônico e inspira boas práticas também no setor privado. Inclusive o Brasil tem uma ISO olhando as necessidades dentro do país, algo que nenhum outro país tem.

Ao mesmo tempo, relatórios sobre lacunas de inclusão digital na América Latina mostram que o acesso à infraestrutura, habilidades digitais e serviços acessíveis ainda é profundamente desigual, especialmente para grupos vulneráveis. Ou seja, a legislação manda incluir, a tecnologia permite incluir, mas a prática ainda exclui.

O QUE É UMA EMPRESA AI-FIRST INCLUSIVA E ACESSÍVEL 

Do ponto de vista de conselhos e C-level, não basta dizer “usamos IA”. Uma organização AI-first e inclusiva precisa cumprir, no mínimo, três critérios:

1. Estratégia: acessibilidade e pessoas com deficiência aparecem na tese de transformação digital, nas políticas de IA e nos indicadores de sucesso, não apenas em relatórios ESG

2. Design e desenvolvimento: todos os produtos e canais digitais seguem princípios como os da WCAG 2.2 (perceptível, operável, compreensível e robusto – POUR) e os modelos de IA são avaliados também pelo seu impacto em PCD.

3. Uso de IA a favor da inclusão: a tecnologia não só “não atrapalha”, como reduz barreiras – por exemplo, com legendas automáticas, leitura de telas, descrição de imagens, interfaces conversacionais, alertas personalizados e assistência em tempo real.

computadores com tecnologia acessível e inclusiva

Uma analogia simples: não faz sentido construir o prédio corporativo mais inteligente da cidade, cheio de sensores e automação, se a pessoa cadeirante ainda não consegue chegar à sala do conselho ou à sala de reunião.

No mundo digital, isso significa que não adianta lançar um super chatbot de IA se ele é impossível de usar com leitor de tela, não funciona bem com comandos de voz ou não oferece alternativas de entrada/ saída para diferentes perfis de PCD.

TRÊS ESTÁGIOS DE MATURIDADE EM TRANSFORMAÇÃO DIGITAL AI-FIRST ACESSÍVEL

Para as empresas visualizarem a jornada, podemos pensar em três níveis de maturidade:

Nível 1: Compliance inteligente

  • A empresa cumpre a Lei de Cotas e ajusta sites e sistemas para um nível mínimo de acessibilidade digital (WCAG/ eMAG).
  • Introduz IA em pontos específicos: legendas automáticas em reuniões, ferramentas básicas de checagem de contraste, leitores de tela compatíveis com sistemas internos.
  • A acessibilidade ainda é vista como “obrigação legal” ou “projeto de TI”, não como alavanca de negócio.

Nível 2: AI enabled inclusivo

  • Acessibilidade entra como requisito padrão em todas as iniciativas digitais e de IA.
  • PCDs participam de testes, labs e pilotos – a empresa começa a aprender com a diversidade.
  • IA passa a ser usada para personalizar experiências, por exemplo

- ajustes automáticos de fonte e contraste;

- sumarização e leitura em voz de relatórios e documentos longos;

- notificações multimodais (texto, voz, ícones, vibração).

Leia mais: Por que tecnologias inclusivas não garantem acessibilidade a deficientes visuais

Nível 3: AI-first com inclusão no core

  • A empresa enxerga a IA como plataforma de inclusão e inovação, não só de eficiência.
  • Surgem soluções inspiradas em cases globais, como:

- Be Be My Eyes + GPT-4: um “voluntário virtual” capaz de descrever imagens, ambientes e interfaces com riqueza de detalhes, dando mais autonomia a pessoas cegas ou com baixa visão.

- Seeing AI (Microsoft): app que usa visão computacional para ler textos, identificar pessoas e narrar o mundo ao redor.

- Programas como Microsoft AI for Accessibility, que financiam soluções de IA voltadas para inclusão e trabalho digno de PCDs.

Neste nível, os decisores passam a fazer perguntas do tipo:

-“Qual é o impacto da nossa estratégia de IA na autonomia dos colaboradores PCD?”

- “Nossos modelos geram barreiras adicionais ou de fato reduzem o número de passos para essas pessoas?”

- “Temos PCD sentadas à mesa quando definimos prioridades de produto e IA?”

CASOS GLOBAIS QUE MOSTRAM O POTENCIAL DA IA PARA ACESSIBILIDADE

Alguns exemplos ajudam a tirar essa discussão do abstrato:

  • Be My Eyes + GPT-4: a startup dinamarquesa, que conecta pessoas cegas e voluntários via vídeo, passou a usar IA multimodal para criar um “voluntário virtual” que descreve cenas, lê textos e ajuda em tarefas do dia a dia com alto nível de contexto. O resultado é mais autonomia e privacidade para usuários, além de escalabilidade muito maior do que depender apenas de humanos.
  • Seeing AI, da Microsoft: um app gratuito, desenhado com e para a comunidade de baixa visão, que narra o mundo ao redor, lê documentos, reconhece produtos e pessoas usando IA.
  • Legendas e transcrição em tempo real em plataformas corporativas: recursos de captioning e transcrição automática em ferramentas como Microsoft Teams e outras soluções de videoconferência reduziram drasticamente barreiras de comunicação para pessoas surdas ou com perda auditiva, especialmente em ambientes corporativos distribuídos.
  • Padrões e frameworks emergentes: iniciativas do W3C Web Accessibility Initiative e da comunidade técnica vêm mapeando como machine learning e IA generativa impactam a acessibilidade, propondo práticas para aproveitar o lado positivo (assistência, automatização de testes) e mitigar riscos (novas barreiras, vieses).

O ponto em comum entre esses casos não é apenas o uso de IA. É o fato de terem sido desenhados com a comunidade PCD desde o início – algo que os decisores podem exigir dos seus times e fornecedores.

Se construímos desde o começo, as soluções não ficarão mais caras e o ROI será muito maior, potencializando inclusive mais eficiência nos processos, o surgimento de novos mercados e oportunidades e retenção de todos os clientes, não só pessoas com deficiência.

ROTEIRO PRÁTICO PARA AS EMPRESAS

Para transformar essa discussão em ação, sugerimos cinco movimentos concretos:

1. Revisar a estratégia de IA à luz da acessibilidade

  • Colocar LBI, Lei de Cotas, WCAG/eMAG e princípios de design inclusivo como insumos explícitos da estratégia digital e de IA.

2. Instituir métricas claras de acessibilidade digital e de IA

  • % de produtos em conformidade com WCAG 2.2 (mínimo AA).
  • % de jornadas críticas testadas com usuários PCD.
  • Impacto da IA na autonomia dos colaboradores PCD (ex.: tempo ganho, tarefas antes impossíveis).

3. Colocar PCD no centro do ciclo de desenvolvimento de IA

  • Criar painéis ou comitês consultivos com participação de pessoas com diferentes tipos de deficiência.
  • Garantir que pilotos, testes de usabilidade e sprints de design incluam esses usuários, com orçamento e tempo previstos.

4. Tratar IA acessível como investimento de crescimento, não só de compliance

  • Uma web acessível aumenta alcance, reduz fricção e fortalece reputação de marca. Diversos guias de acessibilidade empresarial já mostram esse vínculo entre acessibilidade, confiança e resultado de negócios.

5. Integrar acessibilidade na arquitetura de dados e IA

  • Adotar ferramentas que automatizam verificação de acessibilidade.
  • Incluir atributos e cenários relacionados a PCDs nos testes de qualidade de modelos – por exemplo, como um modelo de linguagem responde a comandos de uma pessoa com fala diferente, ou como uma interface reage a uso via teclado e leitor de tela)

TRANSFORMAÇÃO DIGITAL AI-FIRST SEM ACESSIBILIDADE É TRANSFORMAÇÃAO PELA METADE

Transformação digital AI-first não é sobre colocar IA em tudo. É sobre reconfigurar como sua empresa pensa, decide e atende pessoas – internas e externas – usando IA como alavanca.

Em um país com 14,4 milhões de pessoas com deficiência e legislação clara sobre inclusão e acessibilidade, deixar PCDs de fora da estratégia de IA não é somente uma falha ética. É também uma decisão ruim de negócios, que ignora talento, mercado e inovação. 

ilustração de pessoa em cadeira de rodas  com recursos de acessibilidade
Crédito: Istock

Call to action para as empresas: 

Revisem a estratégia de IA da sua organização com um olhar explícito de acessibilidade. Perguntem, nos próximos comitês e reuniões de conselho:

  • Onde a IA, hoje, está criando barreiras para pessoas com deficiência?
  • Onde ela poderia, com pequenos ajustes, derrubá-las?
  • Quem, dentro e fora da empresa, está sentado à mesa para tomar essas decisões junto com vocês?

Empresas que fizerem essa lição de casa cedo vão obter todos os benefícios da inclusão e da diversidade, além de perceber, na prática, o imenso valor agregado que pessoas com deficiência podem acrescentar.

Ao mesmo tempo, devolvem para a sociedade os ganhos que obtiveram, realizando uma transformação verdadeiramente AI-first: aquela que inclui e expande o acesso com a participação de todos. 

Seguindo essa risca, você “mata dois coelhos com uma só cajadada”, ajudando numa estratégia de IA mais robusta de IA – ou seja, Inteligência Artificial e também de Inclusão e Acessibilidade, ou Inteligência Acessível.


SOBRE O AUTOR

Fernando Saback é diretor de tecnologia da Leiaute Propaganda. Thierry Cintra Marcondes é especialista em inovação, impacto e acessib... saiba mais