Como nasceu o boné de protesto da Groenlândia contra Trump
O boné, que traz o slogan “Make America Go Away” e bandeira groenlandesa em um dos lados, surgiu como forma de satirizar as pretensões de Donald Trump

No dia 17 de janeiro, o morador de Copenhague Jesper Rabe Tønnesen acordou cedo, encheu o compartimento de carga da sua bicicleta com 300 bonés vermelhos e seguiu até a embaixada dos Estados Unidos.
Ali, milhares de pessoas se reuniam na rua para protestar contra a proposta do presidente norte-americano, Donald Trump, de assumir o controle da Groenlândia. Quando o fim de semana acabou, os bonés haviam se tornado o principal símbolo do movimento de contestação.
Há meses, Trump vem insistindo que os EUA deveriam controlar a Groenlândia, um território semiautônomo da Dinamarca. Mas, nos últimos dias, elevou o tom da ameaça, anunciando em sua rede Truth Social que iria impor tarifas adicionais a oito países aliados que se manifestaram contra o plano.
Em resposta, dezenas de milhares de manifestantes se reuniram na capital dinamarquesa, Copenhague, e em Nuuk, capital da Groenlândia, para expressar sua oposição a uma ocupação do território pelos EUA. Tønnesen, dono de uma loja de artigos vintage em Copenhague chamada McKorman, estava entre eles.
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Ele também é o criador de uma linha de bonés que parodia os que ficaram famosos com o slogan “Make America Great Again” (MAGA). No lugar do slogan original, os bonés de Tønnesen trazem a frase “Nu det NUUK!”. É um trocadilho com a expressão dinamarquesa “nu det nok”, que pode ser traduzida como “agora chega”.
Os bonés de Tønnesen, assim como outros modelos semelhantes, despontaram como o principal símbolo visual dos protestos, aparecendo em inúmeras fotos das manifestações.
“Os bonés foram produzidos como uma resposta engraçada à ideia de Donald Trump de que poderia comprar a Groenlândia e como uma declaração política de que já basta”, diz Tønnesen. “Chega é chega.”

Tønnesen criou o boné “Nu det NUUK!” no verão passado, quando encomendou 100 unidades para sua loja e enviou outras 100 para a Groenlândia. A ideia era simples. “Os bonés vermelhos do MAGA se tornaram um símbolo político muito visível, então pareceu apropriado fazer os bonés anti-MAGA também em vermelho e branco”, explica, ao destacar que essas são as cores tanto da bandeira da Groenlândia quanto da Dinamarca, o que adiciona outra camada à paródia.
As vendas começaram devagar. Apenas algumas unidades foram vendidas na loja; outras foram distribuídas gratuitamente. Mas, uma semana antes da manifestação de sábado, em meio ao aumento da pressão de Trump pela tomada da Groenlândia, os bonés viralizaram.

Em poucas horas, 80 unidades foram vendidas e Tønnesen afirma que “poderia ter vendido centenas ou até milhares a mais, se não tivessem esgotado”. Ele agora tem milhares de novos bonés a caminho enviados pelo fabricante e planeja doar todo o lucro para a instituição de caridade infantil groenlandesa Grønlandske Børn.
“Foram algumas semanas intensas, falando com a mídia global e com pessoas querendo demonstrar apoio comprando os bonés”, diz Tønnesen. “Em momentos como este, é importante se manter firme e ter solidariedade. Tem sido bom ver as pessoas fazendo isso e concordando que o que está acontecendo é simplesmente intolerável.”
COMO OS BONÉS GANHARAM VISIBILIDADE
Embora os bonés de Tønnesen tenham ganhado destaque recentemente, ele não é o primeiro designer dinamarquês a satirizar o MAGA. Na verdade, Tønnesen se inspirou em um modelo anterior criado pelo designer Jens Martin Skibsted.
Skibsted é a mente criativa por trás do site c55, que vende uma variedade de bonés de protesto com mensagens políticas. No passado, ele criou diversos modelos em apoio a instituições ucranianas durante a invasão russa.

Segundo ele, a ideia surgiu depois que Donald Trump Jr. visitou o território, em janeiro de 2025, “em protesto contra a ambição dos Estados Unidos de afirmar controle sobre a ilha”. Seu boné se chama Kalaallit, nome dado aos inuítes da Groenlândia em sua própria língua, o kalaallisut.
O modelo traz o slogan “Make America Go Away”, acompanhado da bandeira groenlandesa em um dos lados. “Embora faça uma referência lúdica ao slogan de Trump, o design é distinto”, diz a descrição online do produto.
Segundo Skibsted, o boné é produzido em parceria com a ONG groenlandesa Uagut, dedicada a promover o bem-estar dos groenlandeses na Dinamarca. Desde que distribuiu gratuitamente o modelo original no ano passado, na cidade groenlandesa de Sisimiut, ele criou mais três variações do boné, cada uma homenageando algum aspecto da herança cultural do território.
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Uma das variações é na cor branca – que, segundo ele, foi adicionada depois que a “mídia MAGA” apagou digitalmente o texto dos bonés originais para fazê-los parecer com os verdadeiros MAGA.
Assim como Tønnesen, Skibsted distribuiu 200 unidades do modelo original durante o protesto em Copenhague. Ele afirma que as vendas dispararam recentemente, à medida que as ameaças de Trump contra o território passaram a alcançar um público muito mais amplo. “Muita gente quer ficar ao lado dos groenlandeses e também, por extensão, dos dinamarqueses”, acredita Skibsted.