Como se preparar para um ano que exigirá mais do que performance?

Planejar o futuro sem revisar a forma como se lidera no presente é apenas repetir o passado em um cenário que já mudou

habilidades de liderança
Créditos: Eoneren/ Getty Images/ Pawel Czerwinski/ Unsplash

Luana Ozemela 4 minutos de leitura

Todo início de ano traz promessas. Alguns anos, no entanto, trazem alertas. 2026 é um deles.

Entramos em um ciclo que combina eleições, grandes eventos globais, aceleração da inteligência artificial e um ambiente social cada vez mais polarizado. Isso não é pano de fundo. É o cenário onde decisões de negócio, de pessoas e de impacto vão acontecer. Ignorar essa complexidade não é neutralidade. É risco.

Depois de fechar meu próprio balanço de liderança, ficou claro para mim que se preparar para o ano não é apenas planejar mais. É decidir melhor. Essa é uma conversa que os líderes precisam ter agora, antes que o ritmo do calendário nos empurre novamente para a reação.

E como se decide melhor? Primeiro, aceitando uma verdade desconfortável: o modelo de liderança que funcionou até aqui não basta para o que vem aí. A IA vai redesenhar funções, eleições vão tensionar relações e grandes eventos vão amplificar expectativas e contradições – e tudo isso atravessa empresas, marcas e times.

Liderar nesse contexto exige mais do que executar: exige ler o ambiente econômico-político-social, ter disciplina para sustentar as decisões construídas com o time – sem recuar a cada oscilação de mercado, movimento de concorrentes ou ruído regulatório – e atuar com visão de ecossistema: uma rede de atores interdependentes em que cada decisão ativa encadeamentos e reações em cadeia.

Quando penso no que líderes precisam desenvolver agora, não começo por ferramentas. Começo por postura. Aprender, neste momento, significa saber fazer perguntas melhores. Significa ampliar repertório para além do “mundo” da própria empresa.

Escuta, argumentação, pensamento crítico e tomada de decisão ética são competências estratégicas.

Significa entender tecnologia como meio de gestão, não como estratégia em si. Significa reconhecer que pluralidade e sustentabilidade não são pautas paralelas, mas componentes centrais de crescimento, gestão de risco e inovação.

A inteligência artificial, por exemplo, não vai substituir líderes. Mas vai expor lideranças que ainda não aprenderam a contextualizar, priorizar e decidir. O diferencial não será dominar a ferramenta, e sim saber onde e por que usá-la.

Se eu tivesse que oferecer uma perspectiva de mentoria para quem começa o ano agora, eu diria uma coisa simples. Revise antes de acelerar. Pergunte-se, com honestidade:

  • Onde eu fui, de fato, arquiteta de valor?
  • Onde diversidade esteve conectada a crescimento e onde virou apenas um discurso bonito?
  • Onde tentei apoiar meu time e não consegui?
  • Que relações não funcionaram e o que isso revela sobre meu modelo de gestão?
  • O que eu insisto em manter que já não entrega impacto?

Essas perguntas não são confortáveis, mas são estratégicas. Líderes que não fazem esse tipo de autoavaliação acabam terceirizando falhas para alguém.

LIDERANÇA QUE GERA VALOR REAL

Outro ponto central para 2026 é a capacidade de promover diálogo em um ambiente de opostos.

Polarização não é uma abstração política. Ela entra nas reuniões, nos corredores, nas decisões de marca e nas relações de trabalho.

Liderar agora é saber construir conversas produtivas entre visões diferentes, sem perder direção nem valores. Isso exige habilidade emocional, clareza de princípios e preparo. Não se improvisa diálogo construtivo sob pressão. Ele é treinado, incentivado e praticado. 

grande sombra de uma pessoa projetada na parede
Crédito: Juliasv/ Getty Images

E aqui entra uma responsabilidade clara da liderança: que habilidades estamos formando dentro das organizações para lidar com esse cenário? Escuta, argumentação, pensamento crítico e tomada de decisão ética não são soft skills. São competências estratégicas.

Também acredito que líderes precisam ser mais intencionais sobre com quem conversam e o que consomem intelectualmente. Ler apenas relatórios internos empobrece a visão. Conversar apenas com quem concorda reforça vieses. Buscar apenas eficiência sem inovação reduz impacto.

Preparar-se para o ano é ampliar o campo de visão. É buscar referências diversas. É ouvir quem está fora do círculo habitual. É entender que representatividade não é um bônus reputacional, mas uma responsabilidade contínua para quem ocupa posições de influência.

se preparar para o ano não é apenas planejar mais. É decidir melhor.

Quando penso em onde quero estar ao final de 2026, a resposta não é um cargo ou um indicador isolado. É o tipo de liderança que quero exercer. Uma liderança que gera valor real, desenvolve pessoas, sustenta impacto e toma decisões com consciência do contexto em que está inserida.

Ser arquiteta de valor continua sendo meu norte. Mas isso exige evolução constante, ajustes de rota e escolhas mais precisas. Para mim e para qualquer líder que queira atravessar o próximo ciclo com relevância.

O ano vai exigir mais. A pergunta é se você também vai exigir mais da sua própria liderança. Porque planejar o futuro sem revisar a forma como se lidera no presente é apenas repetir o passado em um cenário que já mudou.


SOBRE A AUTORA

Luana Ozemela é Chief of Sustainability Officer do iFood, Conselheira do Global Future Councils 2025, iniciativa do Fórum Econômico Mu... saiba mais