Influenciadores combatem o vício em redes sociais e o pessimismo online

Um grupo cada vez maior de influenciadores passaram a produzir vídeos incentivando as pessoas a fechar o aplicativo que estão usando

influenciadores combatem vício em redes sociais
Créditos: cherezoff/DNY59/ Mininyx Doodle/ Stefano Spicca/ Getty Images

Kaitlyn Huamani 4 minutos de leitura

É fácil cair, sem perceber, no transe de um ciclo infinito de vídeos no Instagram ou no TikTok. Mas, às vezes, esse rolar de tela de forma automática é interrompido por um lembrete incômodo: aquela pausa que você achou que duraria 10 minutos no celular, na verdade, chegou mais perto de meia hora.

Armada com uma voz gentil e de pesquisas científicas, Olivia Yokubonis costuma surgir nos feeds das redes sociais para apontar, com delicadeza, que você talvez nem se lembre do vídeo que viu dois posts antes de ela aparecer na tela.

Yokubonis é criadora de conteúdo e atende pelo nome Olivia Unplugged nas redes. Ela produz vídeos para combater o uso excessivo (ou automático) das redes sociais. Na maior parte das vezes, quem assiste aos vídeos recebe bem essa interrupção no ciclo infinito de conteúdo, tratando-a como um alerta para largar o celular. Em outras ocasiões, as reações são mais sarcásticas.

Ela faz parte de um grupo cada vez maior de criadores de conteúdo que produzem vídeos incentivando as pessoas a fechar o aplicativo que estão usando. Alguns adotam uma abordagem mais agressiva; outros, mais suave. Há quem fale do vício em redes sociais só de vez em quando, mas alguns, como Yokubonis, dedicam todo o perfil a esse tema.

Ela trabalha no Opal, um aplicativo de controle de tempo de tela criado para ajudar usuários a “recuperar o foco”, segundo ela. Ainda assim, quem interage com seu conteúdo talvez não faça ideia dessa ligação com a empresa.

Logotipos de marca, apelos constantes para baixar o app e outros sinais explícitos de branding praticamente não aparecem em sua página. “As pessoas gostam de ouvir outras pessoas”, afirma. Os milhões de visualizações de seus vídeos parecem comprovar isso.

“É uma linha tênue, um equilíbrio entre encontrar uma forma de furar esse ruído e, ao mesmo tempo, não virar mais ruído”, acrescenta.

aplicativo Opal, para controle de tempo de tela

Ian Anderson, pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), diz achar esse tipo de conteúdo interessante, mas questiona se ele é realmente disruptivo o suficiente para gerar ação concreta. Também se pergunta se as pessoas muito acostumadas a ficar rolando a tela não são “desatentas à forma como estão consumindo informação”.

“Se estiverem prestando atenção de verdade, acho que pode ser uma interrupção eficaz. Mas também acredito que, se você é alguém que rola a tela de forma muito habitual, talvez não esteja se engajando de verdade isso”, afirma.

“Consigo imaginar diversas variáveis que podem alterar a eficácia [dessa estratégia], mas, mesmo assim, parece uma maneira interessante de intervir estando do lado de dentro do sistema.”

REDUZINDO O TEMPO DE TELA

Para quem quer controlar melhor seus hábitos nas redes sociais, Anderson sugere mudanças pequenas, mas significativas, para evitar abrir automaticamente o aplicativo favorito.

Mudar o app de lugar na tela do celular ou desligar notificações são “intervenções leves”. Já opções mais profundas, como não levar o telefone para o quarto ou para outros ambientes onde ele costuma ser usado também podem ajudar.

Diversos métodos de intervenção já foram oferecidos aos consumidores na forma de produtos e serviços. Mas essas soluções exigem autoconsciência e o desejo real de reduzir o uso.

Leia mais: Quer desgrudar do celular e não consegue? Tente fazer exatamente o oposto

Criadores de conteúdo que se infiltram nos feeds com informações sobre a psicologia por trás do hábito de passar horas rolando a tela podem plantar essas primeiras sementes na cabeça dos heavy users de redes sociais.

Cat Goetze, conhecida online como CatGPT, produz o que define como conteúdo “despretensioso e não paternalista” sobre inteligência artificial, a partir de sua experiência no setor de tecnologia. Mas ela também percorre, há tempos, seu próprio caminho para reduzir o tempo de tela.

Com frequência, ela publica vídeos explicando por que as redes sociais são tão envolventes e por que tendemos a passar nelas mais tempo do que imaginamos.

Modelos mais vendidos da Physical Phones
Modelos mais vendidos da Physical Phones (Crédito: Divulgação)

“Existe um exército de nerds cujo único trabalho é fazer você aumentar o tempo que passa naquela plataforma”, diz. “Há toda uma máquina tentando reforçar esse comportamento, não é culpa sua. E você não vai vencer isso só com força de vontade.”

Goetze também fundou a Physical Phones, empresa que fabrica telefones fixos com Bluetooth que se conectam a smartphones, incentivando as pessoas a passar menos tempo nos dispositivos. Dentro da embalagem, a mensagem é clara: “offline é o novo luxo”.

Leia mais: O que o scroll infinito faz com sua mente e como se livrar desse vício

Ela conseguiu acelerar o crescimento do negócio graças à sua audiência nas redes sociais. Mas o sucesso inicial da Physical Phones também demonstra a demanda por soluções para o alto tempo de tela, afirma.

“As redes sociais sempre vão fazer parte das nossas vidas. Se conseguirmos reduzir o tempo médio de tela de uma pessoa de 10 horas para uma hora, ou de três horas para 30 minutos, isso já é um benefício para o indivíduo e para a sociedade”, diz Goetze.

“Dito isso, eu adoraria ser a pessoa que elas assistem nesses 30 minutos.”


SOBRE A AUTORA

Kaitlyn Huamani é repórter de tecnologia da Associated Press. saiba mais