Criadora de Assassin’s Creed fecha estúdios e cancela jogos
O fundador da Ubisoft afirma que a empresa precisa se reorganizar radicalmente para sobreviver, cortando custos e reorientando seu portfólio

Um dos gigantes da indústria de games despencou pelo abismo. A Ubisoft, publisher francesa conhecida principalmente pela franquia Assassin’s Creed, acaba de anunciar planos para uma reestruturação profunda de seus negócios.
No processo, a empresa vai cancelar seis jogos que estavam em desenvolvimento, incluindo um aguardado novo Prince of Persia, previsto para este mês. Após a divulgação da notícia, as ações da Ubisoft caíram mais de 30%.
A empresa afirmou que as mudanças têm como objetivo torná-la mais ágil e impulsionar uma “forte recuperação”, depois de ver seu valor de mercado derreter ao longo dos últimos cinco anos.
Para traçar esse novo rumo, a Ubisoft vai fechar seus estúdios em Estocolmo (Suécia) e Halifax (Canadá), além de reestruturar outras operações em Abu Dhabi (Emirados Árabes), Malmö (Suécia) e Helsinque (Finlândia).

A companhia vai consolidar seus estúdios em cinco “casas criativas” organizadas por gênero, reunindo produção e publicação de jogos. As medidas buscam recolocar a empresa em uma trajetória de crescimento sustentável. Para o ano fiscal, a Ubisoft agora projeta reservas líquidas de cerca de € 1,5 bilhão, uma redução de € 330 milhões em relação à previsão anterior.
“É uma mudança radical, baseada em uma organização criativa mais descentralizada, com tomada de decisão mais rápida e serviços centrais multifuncionais de classe mundial apoiando cada Casa Criativa”, escreveu o fundador e CEO da Ubisoft, Yves Guillemot, em comunicado à imprensa.
Leia mais: Netflix fecha seu estúdio de produção de games sem lançar um único título
Ele destacou ainda que o plano envolve uma forte redução de custos para “redimensionar” a empresa, que hoje tem cerca de 17 mil funcionários.
Além do remake agora cancelado de Prince of Persia: The Sands of Time, a publisher vai abandonar quatro jogos ainda não anunciados, incluindo três novas propriedades intelectuais e um título para dispositivos móveis.
DECLÍNIO DRAMÁTICO DE UM PESO-PESADO
As mudanças em curso na Ubisoft evidenciam uma queda impressionante para uma empresa que se tornou sinônimo da indústria de games. Além da longeva franquia Assassin’s Creed, a gigante francesa publica diversos sucessos, como as séries Tom Clancy, Far Cry, Rayman, Just Dance e Watch Dogs.
O recuo da Ubisoft simboliza transformações mais amplas no setor de games, mas também erros que poderiam ter sido evitados.
O boom dessa indústria durante a pandemia, quando milhões de jogadores estavam fechados em casa em busca de entretenimento, ficou para trás. A inflação reduziu o dinheiro disponível para gastos não essenciais, especialmente depois que o preço de muitos lançamentos subiu.
Ao mesmo tempo, grandes estúdios classe AAA, como a própria Ubisoft, tentam enxugar orçamentos à medida que os custos de desenvolvimento continuam aumentando.
Mas parte dos tropeços da Ubisoft é resultado de decisões internas. A empresa foi forçada a encarar seus próprios problemas em um episódio recente, que revelou padrões de assédio sexual e discriminação no ambiente de trabalho em várias companhias.

No ano passado, três ex-executivos da Ubisoft foram considerados culpados por um tribunal francês de promover uma cultura de assédio psicológico e sexual.
A empresa também sofreu com o fracasso de produtos que eram grande apostas, como o lançamento de Star Wars Outlaws, em 2024 – jogo que a Ubisoft esperava que fosse um sucesso financeiro. Os problemas desse título se refletiram no lançamento seguinte, Assassin’s Creed Shadows, que acabou adiado após a recepção “mais fraca do que o esperado” do jogo anterior.
Leia mais: Novo jogo chinês provoca críticas sobre a cultura machista no universo gamer
É difícil exagerar o papel da Ubisoft na definição das tendências de games da última década. No auge, seus jogos eram elogiados por mundos abertos vastos e cuidadosamente detalhados. Mas, depois de muitos lançamentos e inúmeras iterações, essa fórmula pode ter passado do ponto.
Em 2026, os jogadores têm mais opções do que nunca e não hesitam em escolher títulos independentes inovadores, criados de forma artesanal por pequenas equipes, em vez de grandes produções que parecem cada vez mais desgastadas.