Vai e vem de Trump nas tarifas cria turbulência na indústria de chips
A mudança repentina do presidente dos EUA sobre as tarifas para chips destinados à China lança a indústria em uma espiral de incerteza

Uma semana é muito tempo na política. Mas, no mundo de Donald Trump, até um único dia pode parecer uma eternidade. Na terça-feira da semana passada (dia 13), os Estados Unidos aprovaram a exportação das GPUs H200 da Nvidia – o segundo chip mais avançado que sustenta a revolução da IA generativa – para mercados que incluem a China.
A decisão veio acompanhada de ressalvas. O fornecimento poderia ser suspenso caso os EUA começassem a enfrentar escassez, por exemplo. Ainda assim, tratava-se de uma autorização. Apenas 24 horas depois, porém, a Casa Branca impôs uma tarifa de 25% sobre esses mesmos chips no momento em que são importados para os Estados Unidos.
Isso é relevante porque, pelas regras acionadas por Trump, todos os chips H200 que podem ser exportados para a China continental, após serem fabricados em Taiwan, precisam primeiro passar pelos Estados Unidos para testes antes de serem reexportados aos clientes.
O resultado é uma conta mais alta para empresas chinesas de tecnologia que desejam importar chips de ponta. Para contornar esse obstáculo, a China vem acelerando o desenvolvimento e a produção doméstica de chips de IA e, recentemente, anunciou sua própria proibição à importação e ao uso dos H200.
Mas a medida determinada por Trump gera caos para os próprios fabricantes de semicondutores. Como o hardware de IA se tornou a espinha dorsal da competitividade, até pequenas mudanças na política comercial dos EUA reverberam em mercados trilionários e em cadeias globais de suprimento.
O mais recente vai-e-vem representa uma ruptura total com a forma tradicional de fazer negócios, afirma Willy Shih, professor de prática em gestão da Harvard Business School. “Os negócios, assim como os esportes, acontecem em um campo de jogo onde existem regras, regulamentos e também normas”, diz ele.
“Hoje em dia, com a situação das tarifas mudando quase todos os dias, digo às pessoas para imaginarem que são técnicos de um time de futebol e que as regras mudam a cada minuto”, brinca Shih. “É exatamente essa a sensação.”
MUDANÇAS TARIFÁRIAS DESESTRUTURAM MERCADOS
O impacto dessa incerteza sobre os mercados pode ser significativo. “Quando você vê empresas segurando investimentos à espera de alguma estabilidade, é por isso. Fica muito difícil assumir compromissos de longo prazo quando as regras podem mudar amanhã.”
Como as empresas não sabem qual será o custo para levar insumos às suas fábricas, elas tendem a hesitar antes de fazer novos investimentos. Diversas companhias ligadas à cadeia de chips já reclamaram de pedidos abaixo do esperado por causa da imprevisibilidade da política tarifária.

A ASML, empresa europeia de litografia, viu seu faturamento ficar abaixo das expectativas em mais de US$ 1 bilhão no primeiro trimestre de 2025 devido à incerteza em torno das tarifas, segundo afirmou seu CEO à época.
Os mercados também refletiram o caos provocado pelas guinadas tarifárias de Trump: as ações da Nvidia caíram mais de 3% após a introdução da tarifa de 25%, sinalizando o nervosismo dos investidores diante das constantes mudanças de rumo.
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O problema é que não são apenas os compradores que assumem compromissos de longo prazo em relação a seus gastos. Os fabricantes de chips precisam antecipar a demanda futura para expandir sua capacidade produtiva, algo que pode ser seriamente comprometido por mudanças rápidas nas tarifas impostas por Trump.
“Acredito que a maioria, ou francamente todos, os gestores de semicondutores têm visibilidade praticamente zero do que está acontecendo com a demanda”, afirma Stacy Rasgon, diretor gerente e analista sênior da Bernstein. “Eles não fazem a menor ideia. Tudo o que veem são os pedidos que estão na frente deles.”
EXECUTIVOS VIRAM DIPLOMATAS
A possibilidade de acelerar ou reduzir a capacidade produtiva em um ambiente geopolítico como esse torna o desafio ainda maior. E os chips H200 da Nvidia são particularmente complexos de fabricar, o que obriga a empresa – assim como outros fabricantes de chips afetados pelas mudanças tarifárias – a planejar com extremo cuidado a expansão de fábricas e capacidades.
Há menos de um mês, a Nvidia chegou a consultar seus fornecedores para saber se conseguiriam aumentar a produção a fim de atender a uma demanda por H200 equivalente a 185% dos níveis atuais de estoque da companhia.
a medida determinada por Trump gera caos para os próprios fabricantes de semicondutores.
Esse cenário aumenta a pressão sobre os executivos que comandam empresas de semicondutores, diz Srividya Jandhyala, professor de gestão da ESSEC Business School, e muda as habilidades necessárias para lidar com mudanças constantes.
“À medida que as empresas e seus produtos se veem no centro de tensões geopolíticas, a descrição do cargo de seus principais executivos mudou”, afirma, citando como exemplo a forma como o CEO da Nvidia, Jensen Huang, precisou adaptar sua atuação.
“Hoje, o trabalho dele é ser um diplomata corporativo eficaz, cruzando o mundo para convencer formuladores de políticas públicas de que os produtos da empresa têm um papel na visão que esses governos têm para seus países.”
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Mas essa visão pode ter de enfrentar realidades que mudam rapidamente em um mundo no qual os humores de Donald Trump passam a ditar o comércio internacional.