Branco é mesmo a cor do ano?
A escolha da Pantone continua relevante, mas seu papel deixou de ser o de autoridade absoluta para marcas

Durante muito tempo, a Cor do Ano da Pantone foi tratada como um selo de tendência. Um código quase normativo que prometia antecipar desejos, comportamentos e direções estéticas. Mas o mundo mudou e, com ele, a função simbólica da cor.
Hoje, escolhas cromáticas dizem menos sobre o que vem pela frente e mais sobre como estamos tentando sobreviver ao agora.
Para 2026, a Pantone anunciou a Cloud Dancer, um branco suave e etéreo, como Cor do Ano. Para a empresa, uma resposta ao “cansaço coletivo” e ao excesso de estímulos visuais da atualidade.
Já nas redes sociais e entre profissionais do segmento cultural, da moda e do design, a escolha criou debate, reações e até críticas em um cenário mundial repleto de conversas sobre diversidade e representatividade.
Vale destacar que a escolha da Cor do Ano continua relevante, mas seu papel deixou de ser o de autoridade absoluta. Ela opera, cada vez mais, como um dispositivo de leitura cultural.
Aponta climas emocionais, estados de espírito coletivos, tensões silenciosas. Não define caminhos. Sinaliza atmosferas. Cabe às marcas decidir se esse clima conversa com sua essência, seu negócio e, sobretudo, sua coerência simbólica.
O FIM DA TENDÊNCIA COMO ORDEM CENTRALIZADA
O fato de múltiplas plataformas, marcas e comunidades apontarem cores diferentes não enfraquece o debate. Pelo contrário, o amplia.
Vivemos uma descentralização da autoridade cultural. Tendências já não nascem de um único polo, mas emergem de um ecossistema fragmentado, formado por algoritmos, territórios, comportamento social, clima político e urgências ambientais.
A Pantone deixa de ser a voz final e passa a ser uma voz relevante dentro de um coro complexo. E isso é saudável. Revela algo fundamental: seguir tendências deixou de ser uma obrigação estética e passou a ser uma decisão estratégica.

Quando uma marca decide não adotar a Cor do Ano, isso não é necessariamente um gesto de rebeldia. Pode ser, e muitas vezes é, um movimento de maturidade.
Aderir faz sentido quando a marca busca dialogar com o espírito do tempo, ganhar velocidade de reconhecimento cultural ou participar de um repertório coletivo.
Não aderir faz sentido quando a marca é guiada por códigos próprios, narrativas de longo prazo e uma essência bem definida. Nesse caso, a não adesão é coerência. E coerência gera valor mais duradouro do que alinhamento momentâneo.
UM MUNDO AMBÍGUO PEDE CORES AMBÍGUAS
O contraste entre tons suaves, associados à introspecção e ao silêncio, e a ascensão dos verdes ligados à coletividade, regeneração e sustentabilidade, revela um mundo em tensão.
De um lado, cansaço, sobrecarga, desejo de pausa e refúgio individual. De outro, urgência climática, responsabilidade social e necessidade de reconstrução coletiva.
Não é contradição. É coexistência.
seguir tendências deixou de ser uma obrigação estética e passou a ser uma decisão estratégica.
O risco surge quando marcas tentam responder a tudo ao mesmo tempo e acabam performando impacto positivo sem lastro real. Quando o discurso cresce mais rápido do que a capacidade de aplicação, a narrativa deixa de ser ambígua e passa a ser alegórica.
O interesse crescente por verdes e azul-esverdeados não é apenas estético. Ele aponta para uma tentativa de sair da lógica da excitação constante e entrar numa lógica de relação.
Esses tons comunicam continuidade, estabilidade, cuidado e tempo longo. Na psicodinâmica das cores, o verde ocupa um lugar singular. Não estimula nem retrai em excesso – regula.

Em um mundo hiper performático, inclusive na estética do low profile, essa busca por equilíbrio emocional não é trivial. É estrutural.
Na prática, essas escolhas impactam profundamente o design. Cores mais suaves e naturais exigem materialidade honesta, menos brilho artificial, mais tato e mais silêncio visual.
No digital, favorecem interfaces menos ansiosas. No físico, produtos que parecem durar mais e envelhecer melhor. A cor deixa de ser superfície e passa a ser parte da experiência emocional do uso.
PEQUENAS MARCAS, GRANDES OPORTUNIDADES
Curiosamente, marcas menores muitas vezes têm mais liberdade para explorar essas leituras cromáticas com autenticidade. Com menos camadas de aprovação e menor risco reputacional, conseguem interpretar tendências com autoria, território e verdade. O ponto nunca foi seguir a Cor do Ano. É traduzi-la de forma contextual e honesta.
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Talvez o ponto mais importante seja este. Cor não é uma tendência isolada. É um sintoma. Sintoma de um mundo cansado de ruído, desconfiado de promessas vazias e mais atento à coerência entre discurso e prática.
Seguir ou não a Pantone não é a pergunta certa. A pergunta é outra, e bem mais incômoda: essa escolha cromática revela quem a marca realmente é e como ela pretende se relacionar com as pessoas daqui para frente?
Quando a resposta é sim, a cor deixa de ser tendência. E passa a ser uma linguagem estratégica.