As ideias que movimentaram Davos (e para onde elas apontam)

Fórum Econômico Mundial trouxe à tona a ruptura com a ordem mundial e os impactos da inteligência artificial na sociedade

As ideias que movimentaram Davos (e para onde elas apontam)
World Economic Forum (reprodução) e tj-rabbit via Getty Images

Camila de Lira 8 minutos de leitura

Em meio a um mundo em ruptura e com menor confiança em instituições, o Fórum Econômico Mundial, que aconteceu na última semana em Davos, na Suíça, mostrou que 2026 será um ano de incertezas sobre decisões geopolíticas, sobre o retorno financeiro e social da inteligência artificial e questões éticas-filosóficas sobre a capacidade da sociedade em lidar com esta tecnologia.

Um pouco antes do encontro anual das principais lideranças políticas e econômicas do mundo começar, o Fórum já deu o tom com o seu relatório anual de análise de riscos. Pela primeira vez nos últimos dez anos, o risco relacionado à crise climática caiu nas preocupações dos executivos. No lugar, no topo do ranking de risco para os próximos dois anos estão a incerteza geopolítica e a desinformação. 

Em Davos, esses assuntos estiveram nos diálogos e nas apresentações. Selecionamos quatro ideias que se destacaram no evento. 

1- Isolamento dos países - e das pessoas

    O que esperar de 2026? Um ano de instabilidades geopolíticas e quebra de antigos acordos que regiam os países. A presença de Donald Trump em Davos sublinhou este cenário.

    O presidente norte-americano foi incisivo sobre a tomada da Groenlândia, apesar de descartar uma ação militar. Ele ameaçou tarifar os países europeus que são contra a tomada do território dinamarquês. Além disso, Trump ainda criou uma aliança paralela à Organização das Nações Unidas, o “Conselho da Paz”.

    Donald Trump em um cubo, envolto de gráficos
    Dilen_ua via Getty images, Pete Linforth por Pixabay



    A desconfiança de Trump com a ONU se refletiu nos outros líderes que discursaram, abertamente, sobre o fim da ordem mundial estabelecida desde o pós-Segunda Guerra

    "Preferimos a ciência às teorias da conspiração e preferimos o Estado de Direito à brutalidade."

    Emmanuel Macron, presidente da França

    O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou em discurso que “não é momento para imperialismos e colonialismos”. "Preferimos o respeito aos valentões. Preferimos a ciência às teorias da conspiração e preferimos o Estado de Direito à brutalidade", disse o líder, que defendeu o fim da hegemonia norte-americana.

    Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, falou sobre ruptura. O mundo está "em meio a uma ruptura, não a uma transição", e a velha ordem mundial "não voltará", disse Carney.  “As potências médias devem agir em conjunto porque, se não estivermos à mesa de negociações, estaremos no cardápio”, afirmou o primeiro-ministro canadense.

    O que isso significa? Que os países estão em busca de proteger os seus interesses, contribuindo para a fragmentação. Um clima também captado no Trust Barometer da Edelman, indicador anual apresentado em Davos, que mede o nível de confiança da população.

    De acordo com o indicador, que entrevistou 37,5 mil pessoas em 28 países, o mundo já não está mais polarizado, mas separado e isolado pelas “bolhas”

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    Segundo o indicador, 7 em cada 10 cidadãos do planeta hesitam em confiar ou simplesmente não confiam em quem tem visões ou culturas diferentes das suas. A confiança em instituições está sendo corroída pelo nacionalismo, pelo medo dos funcionários perderem empregos para a IA e pela disseminação da desinformação.

    Apenas 32% dos entrevistados pela Edelman acreditam que a geração seguinte terá uma vida melhor do que a sua, um sinal de crescente pessimismo em relação à capacidade das instituições, políticos e líderes empresariais de construir um futuro mais promissor.

    2 - Bolha? Não na minha IA!

      Afinal, há uma bolha no mercado de inteligência artificial? A pergunta foi repetida para líderes da indústria nos palcos e nos corredores em Davos. 

      O presidente do conselho da Open AI, Bret Taylor, falou que o atual valor de mercado de empresas de IA é provavelmente uma bolha e que haverá “correção” nos próximos anos. Em entrevista à CNBC norte-americana, Taylor disse que o setor passará por uma consolidação. Para 51% dos economistas-chefes escutados pelo Fórum Econômico Mundial, a tendência do valor de mercado das empresas de IA é cair nos próximos 12 meses.

      bolha do setor de IA
      Crédito: Just_Super/ Getty Images

      Na visão do CEO da Black Rock e co-chair do Fórum, Larry Fink, não há uma bolha, mas um reajuste. É apenas um setor que necessita de bilhões de dólares de investimentos antes de dar resultados. “Eu acredito que teremos grandes falhas [na área de IA], mas não estamos numa bolha”, afirmou.

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      A opinião é a mesma de Jensen Huang, CEO da Nvidia, que afirmou ainda que a infraestrutura para a tecnologia é a “maior já construída na história”. As conversas sobre IA também deixaram de se concentrar em aplicações (como o ChatGPT da OpenAI) e agentes (softwares capazes de tomar decisões e executar tarefas) e passaram a focar em infraestrutura.

      Ao longo da semana, executivos compartilharam informações sobre a capacidade de energia e rede necessária para o surgimento de data centers construídos especificamente para suportar IA. Já Satya Nadella, CEO da Microsoft, fez um alerta: se a IA não chegar a outros setores da economia além da tecnologia, ela pode se transformar em uma bolha rapidamente. 

      3 - IA é um tsunami para o mercado de trabalho?

      O impacto da IA no mercado de trabalho foi outra questão levantada em Davos. De acordo com o Fundo Monetário Internacional, 40% dos empregos serão aprimorados, transformados ou eliminados pela IA nos próximos anos.

      “Isso é como um tsunami atingindo o mercado de trabalho”, afirmou a diretora-geral do Fundo, Kristalina Georgieva. Ela explica que uma parte dos empregos tomados pela IA será aquele feito por jovens trabalhadores, eliminando posições de entrada no mercado.

      Embora a maioria dos CEOs e executivos insistam que a IA tornará o trabalho melhor, alguns deles começaram a falar, publicamente e nos corredores, sobre as funções que a IA eliminará e a necessidade de preparar os trabalhadores para a mudança. 

      “A característica principal dessa tecnologia é que ela nos levará a um mundo com um crescimento muito alto do PIB e, potencialmente, também com um desemprego e desigualdade muito altos."

      Dario Amodei, da Anthropic

      Para o CEO da Anthropic, Dario Amodei, a IA tem o poder de criar economias que crescem rapidamente sem a geração de empregos. “A característica principal dessa tecnologia é que ela nos levará a um mundo com um crescimento muito alto do PIB e, potencialmente, também com um desemprego e desigualdade muito altos. Essa é uma combinação que quase nunca vimos”.

      Amodei deu o exemplo de engenheiros em sua empresa que usam IA para escrever código e depois o revisam. Mas, à medida que a IA avançar, talvez não haja mais trabalho para eles. “Ainda há coisas para os engenheiros de software fazerem. Mesmo que eles só façam 10% do trabalho, ainda terão uma função a desempenhar ou poderão subir de nível. Mas isso não vai durar para sempre”, afirmou.

      Em entrevista para a Fast Company, a CEO da Lumen Technologies, Kate Johnson, afirmou que está apostando na honestidade com a força de trabalho. Johnson disse que a empresa está comprometida em treinar funcionários para novas funções na organização, mas acrescenta: “Precisamos reimaginar como será o mundo no futuro, e [os funcionários] precisam imaginar um mundo onde seus empregos atuais podem não existir mais”.

      4 - A IA será mais humana, hiperhumana ou… polinteligente?

      Entre os executivos, não há dúvidas: a IA está em vias de superar os humanos. Elon Musk, que deu as caras em Davos pela primeira vez, projeta que tal limite será ultrapassado até o final deste ano. E deve “superar toda a inteligência da humanidade combinada” em menos de cinco.

      Já o CEO do Google DeepMind, Demis Hassabis, afirmou que o caminho para a inteligência artificial geral (IAG) de nível humano está se tornando mais claro, mas ainda faltam "ingredientes". Ele estimou que a IAG estará disponível em cinco a dez anos, um prazo maior do que as previsões de seus pares na Anthropic e na OpenAI, cujos executivos sugeriram que ela poderia chegar em 2026 ou 2027.

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      Para os filósofos e pensadores sobre a tecnologia, a busca pela AGI super-humana não levará, necessariamente, a uma sociedade melhor.

      O cientista da computação, conhecido como um dos padrinhos da IA, Yoshua Bengio acrescentou que os sistemas de IA nunca serão humanos. “Muitos interagem com eles com a falsa ideia de que são humanos. E há aqueles que querem que eles se pareçam com a gente, mas não está claro se isso será bom”, disse.

      data centers e a relação com o consumo de energia
      Crédito: Just Super/ Getty Images



      Mas, afinal, a IA precisa ser humana? Na visão do filósofo e autor Yuval Noah Harari, a comparação entre máquinas e humanos não é justa, nem faz sentido. “Seria como perguntar quando um avião irá voar como um pássaro”, comparou. 

      E mesmo se ela deixar os humanos mais inteligentes, será que isso significa algo? Para Harari, não. “As entidades mais inteligentes do planeta também podem ser as mais iludidas”.  Na visão do autor, se a conversa não voltar para o centro do que significa ser humano e para as forças que dividem a sociedade, como o ódio e a inequalidade, a IA será apenas uma lupa para ampliar as “doenças” do planeta

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      O olhar diferente  veio do cofundador e chairman da Moderna, Noubar Afeyan. Para ele, não se trata de uma inteligência humana ou maquínica, mas uma polinteligência, que leva em conta também a inteligência biológica vinda dos seres vivos. “O problema é na verdade com os seres humanos, porque nossa compreensão, nossa linguagem, nossa ideia de entendimento é bastante limitada", ele diz.

      Afeyan testemunha o uso da IA para busca de novos medicamentos e para o entendimento do corpo humano na Moderna. Segundo o empresário, a tecnologia traduz conhecimentos biológicos que, até então, eram indecifráveis. Em um futuro próximo, ele entende que tais saberes serão traduzidos, replicados e, quem sabe, serão capazes de mudar os humanos para melhor.


      SOBRE A AUTORA

      Camila de Lira é jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata) e especializada em storytelling para n... saiba mais