O que um botão feito para cães ensina sobre design inclusivo

A experiência de Luisa Ruge de projetar um botão para ser acionado por cães a ajudou a se tornar uma designer melhor para humanos

Créditos: Capuski/ Helping Hand Photos/ Getty Images

Elissaveta M. Brandon 4 minutos de leitura

Por décadas, pessoas com deficiência têm contado com cães para realizar tarefas cotidianas como abrir portas, acender luzes ou alertar cuidadores em situações de emergência. Só nos EUA, segundo algumas estimativas, existem cerca de 500 mil cães de serviço.

No entanto, pouca atenção foi dada ao fato de que esses animais foram treinados para interagir com interfaces pensadas para humanos. Um grupo de pesquisadores do Reino Unido quer mudar isso, projetando produtos acessíveis para cães e com cães.

O Laboratório de Interação Animal-Computador da Open University, no Reino Unido, foi fundado em 2011 com o objetivo de promover a arte e a ciência do design de sistemas centrados nos animais.

Liderado por Clara Mancini, professora de interação animal-computador, o laboratório estuda como os animais interagem com a tecnologia e desenvolve sistemas interativos pensados para melhorar seu bem-estar e apoiar suas relações com humanos.

O primeiro produto comercialmente disponível da equipe é um botão projetado especificamente para que cães de serviço possam acioná-lo e, assim, ligar eletrodomésticos em casa – como uma luminária, uma chaleira ou um ventilador. O Dogosophy Button levou mais de 10 anos para ser desenvolvido e foi testado com cerca de 20 cães da ONG britânica Dogs for Good.

O processo também ensinou à equipe algumas lições sobre como projetar para pessoas. “Hoje, sou uma designer melhor para humanos”, diz Luisa Ruge, designer industrial que trabalhou com Mancini e liderou o design do botão.

Por enquanto, o Dogosophy Button está disponível para compra apenas no Reino Unido (por cerca de US$ 130).

OS DESAFIOS DE PROJETAR PARA ANIMAIS

Qualquer pessoa que já tenha projetado um produto para um cliente humano sabe que o processo depende de uma combinação de variáveis como gênero, idade, histórico e preferências pessoais.

Só que esses designers contam com a vantagem de poder perguntar ao cliente o que ele acha em cada etapa do processo. Já conseguir feedback de um cachorro é muito mais difícil e exige uma compreensão profunda do comportamento animal.

Ruge iniciou sua carreira como designer industrial, mas, à medida que avançava no mundo corporativo, percebeu que era fascinada por animais. Esse interesse a levou a se formar como treinadora de cães de serviço.

Crédito: The Open University

Em uma conferência sobre mudança de comportamento humano voltada ao bem-estar animal, a designer conheceu Mancini e se interessou pelo laboratório, passando os três anos seguintes escrevendo uma tese sobre design da experiência do usuário animal e validando sua metodologia centrada no cão.

Ruge seguiu o modelo dos cinco fatores humanos, um método que ajuda designers a compreender o comportamento do usuário final ao dividir a experiência em cinco dimensões. A lista tradicional inclui fatores físicos, cognitivos, sociais, culturais e emocionais. Ruge acrescentou um sexto, o sensorial, e depois um sétimo: consentimento.

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Para entender exatamente as características e habilidades para as quais precisava projetar, ela focou em cães das raças labrador e golden retriever, as mais comuns entre cães de serviço.

Por exemplo, como são raças predispostas à displasia de quadril e a problemas nas articulações, o botão não poderia exigir que o cão pulasse para ativá-lo. E como todos os cães enxergam o mundo em tons de amarelo, azul e marrom, o botão deveria ser feito em uma dessas cores para facilitar a percepção.

SOLUÇÕES SOB MEDIDA

Quando Ruge se envolveu no projeto, o protótipo desenvolvido por Mancini tinha formato quadrado e lembrava um botão metálico padrão, como os que pessoas em cadeiras de rodas usam para abrir portas.

Depois de cerca de 20 iterações e cinco protótipos, agora o botão é redondo, convexo e azul, tem textura para evitar que o focinho molhado do cão escorregue e a profundidade do acionamento foi pensada para que até um cão mais tímido não precise fazer força para ativá-lo.

Ruge também precisou testar algumas ideias da forma mais dura. O primeiro protótipo que ela construiu levou dias para ficar pronto e foi destruído pelos cães “em dois segundos”, conta, rindo.

cachorro é treinado para apertar botão com o focinho
Crédito: The Open University

Projetar para cães fez Ruge questionar suas próprias certezas. “Isso mostra que você nunca está 100% certa”, reconhece. A experiência também a tornou uma designer melhor para humanos, porque a ajudou a identificar seus próprios vieses e suposições.

Mas sua verdadeira paixão é o design para animais. Após concluir seu doutorado, ela voltou para sua Colômbia natal e fundou uma consultoria de design chamada Ph-auna, focada em inovação centrada nos animais. Ela também apresenta um podcast chamado Pomodogo, no qual ajuda humanos a se conectarem melhor com seus cães.

Atualmente, Ruge trabalha em um aplicativo que gamifica o treinamento para cães e incentiva as pessoas a serem cuidadoras melhores. “Existe uma enorme oportunidade para que o design animal se torne uma disciplina própria”, afirma. “Adoraria que cidades inteiras fossem mais acessíveis para cães e outros animais urbanos.”


SOBRE A AUTORA

Elissaveta Brandon é colaboradora da Fast Company. saiba mais