Como o YouTube favorece canais de notícias e pode impactar as eleições

Levantamento do NetLab, da UFRJ, revela que a recomendação de notícias do YouTube tem padrões, repetições e não esconde preferências

logotipo do YouTube suspenso por um anzol
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Rose Marie Santini 7 minutos de leitura

Há poucos anos atrás, por mais que o consumo de conteúdo pela internet fosse bastante expressivo, a TV aberta ainda era a principal forma de consumo global de notícias por sua natureza totalmente gratuita e sua linguagem audiovisual que atraia uma base massiva de espectadores.

Porém, as plataformas digitais vêm transformando o consumo de notícias. O ano de 2025 marca um ponto de inflexão dessa mudança, quando o YouTube começa a se consolidar globalmente como alternativa à televisão.

Ou seja, atualmente, muitas pessoas passaram a entrar no YouTube para assistir a todo tipo de conteúdo, inclusive os próprios programas da TV. Esse fenômeno vem acontecendo no mundo inteiro.

Na Inglaterra, pela primeira vez, o YouTube superou o alcance mensal dos canais da BBC no último trimestre de 2025, segundo dados oficiais do Barb (Broadcasters' Audience Research Board). Embora a emissora ainda lidere em outras métricas, o feito é um marco histórico que desafia a dominância tradicional da TV aberta britânica.

No Brasil, as plataformas de vídeo sob demanda (que incluem Netflix, Globoplay, Disney+, YouTube e TikTok) chegaram a 37% do consumo total de vídeos nos domicílios em 2025, segundo dados da Kantar Ibope.

Porém, mais importante do que identificar as mudanças, é preciso perguntar o que elas significam para a sociedade. Quais os impactos sociais de um consumo de conteúdo completamente mediado por algoritmos como acontece no YouTube, cuja lógica de funcionamento e critérios de recomendação não são transparentes?

Há tempos que o YouTube, que reúne uma base massiva de usuários, vem forçando a plataformização da TV. E, de modo sutil e determinante, passou a definir o que aparece na homepage de quem entra na plataforma e busca notícias, escondendo mecanismos silenciosos de filtragem e curadoria de informação.

O relatório do NetLab/ UFRJ sobre o tema, lançado no segundo semestre de 2025, mapeou minuciosamente a engrenagem das recomendações na seção de “Principais Notícias” do YouTube ao longo de 38 dias.

A análise percorreu 3.551 coletas automatizadas, uma a cada 15 minutos, e identificou mais de 597 mil recomendações de vídeos, cobrindo 33.731 vídeos únicos de 153 canais.

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O volume de dados revela que a recomendação de notícias do YouTube tem padrões, repetições e não esconde preferências. Nove dos 10 canais mais recomendados fazem parte da Google News Initiative, parceria que o Google (dono do YouTube), passou a estabelecer com determinados veículos de notícias.

O topo do ranking sugere um clube fechado. Apenas 10 canais concentram 54% de todas as recomendações, com outros 143 veículos dividindo o espaço restante. Quem está dentro desse grupo de parceiros do Google ganha visibilidade, recomendação e consequentemente endosso da plataforma. Quem está fora quase não aparece.

O caso da CNN Brasil impressiona pelo alcance e regularidade. O canal aparece em 100% das aquisições de dados. Liderou em 97% dos dias analisados como o canal mais recomendado.

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Além disso, em 16,7% das vezes um vídeo da CNN aparecia como o primeiro da lista das recomendações, posição que influencia diretamente a decisão do usuário sobre o que assistir. O YouTube, nesse arranjo, conduz o olhar do público para conteúdos que elege sem explicar abertamente por quê.

A plataforma afirma que privilegia “fontes confiáveis”, mas evita detalhar os critérios técnicos que utiliza, nunca publica uma lista completa dos canais que recebem tal rótulo e não explica por que outras fontes com reputação e credibilidade social não são recomendadas.

Na prática, essa curadoria é enviesada e pouco transparente. As recomendações automáticas, que teriam o objetivo de garantir qualidade, acabam sendo um processo de seleção onde interesses privados e relações institucionais substituem métricas transparentes e critérios baseados no interesse público.

Quais os impactos sociais de um consumo de conteúdo completamente mediado por algoritmos ?

Os impactos sociais desse “processo editorial disfarçado” são enormes. Considerando que mais de 70% do consumo do YouTube é impulsionado por recomendações, estar entre os preferidos da plataforma se traduz em audiência maior, monetiza- ção e influência pública.

O contrário também é verdadeiro: veículos que não integram o grupo de preferidos do YouTube enfrentam barreiras quase intransponíveis para ampliar seu público, mesmo com produções relevantes. Consequentemente, prioridades editoriais e lógicas de distribuição concentradas em poucos canais definem a visão de mundo dos usuários.

O modelo lembra antigas práticas de favorecimento conhecidas do rádio e da música, o “jabá”, em que pagamentos garantiam tempo de exposição. Agora, a moeda circula de formas mais sofisticadas. A programação dos algoritmos, suas regras internas e opacas, substituem negociações explícitas.

O termo “playola” usado no relatório do NetLab UFRJ sintetiza essa nova modalidade em que plataformas distribuem visibilidade de forma desigual e induzem os usuários a determinadas escolhas (nudge) com base em seus próprios interesses não declarados.

YouTube no celular

Outro ponto delicado é a ausência de fiscalização externa sobre as métricas de audiência. O YouTube opera com parâmetros próprios, sem auditoria independente. Porém, bots e todo tipo de automatização de interações ainda escapam ao monitoramento do mercado tradicional. Assim, o critério de sucesso é artificial, baseado em uma relevância social que é fabricada e pré-acordada.

É preciso deixar claro que hospedar conteúdo é diferente de promover conteúdo e deveríamos tratá-los com diferentes regimes de responsabilidade. A concentração de recomendações em poucos canais cria também distorções competitivas.

O relatório do NetLab destaca que o YouTube, ao adotar práticas aparentemente editoriais, atua como um novo gatekeeper digital. Mas, diferente das redações tradicionais, a plataforma deixa pouco espaço ao escrutínio público e não se responsabiliza pela qualidade da informação – que, em muitos casos, pode expor valores e prioridades alheios à lógica jornalística.

veículos que não integram o grupo de preferidos do YouTube enfrentam barreiras quase intransponíveis para ampliar seu público.

Além disso, o padrão global do modelo de negócios das big techs revela uma ambivalência: enquanto essas empresas defendem que estão a serviço da pluralidade (e por isso não deveriam se responsabilizar pela moderação de conteúdo), suas plataformas cultivam  recomendações enviesadas e homogêneas.

No fim, a pluralidade tão promissora do ambiente digital se estreita e depende cada vez mais de algoritmos que ninguém fora das big techs consegue auditar. O cidadão recebe uma lista pré-filtrada e acredita estar diante de um cardápio neutro definido por máquinas. Mas a neutralidade é apenas um verniz.

O avanço desse cenário suscita questões fundamentais sobre as formas de exposição de opiniões, fatos e dados, sobre as reais possibilidades de escolha dos cidadãos e, sobretudo, sobre o futuro da democracia.

PESQUISA SOBRE NOTICIÁRIO NAS ELEIÇÕES

Sobre as eleições de 2022 o Netlab/ UFRJ publicou uma pesquisa que mostra como as recomendações enviesadas de notícias podem alterar a percepção da população sobre os candidatos.

Em nosso experimento, realizamos 205 testes simulando o comportamento de novos usuários brasileiros (sem histórico prévio) que buscavam notícias confiáveis durante as eleições. Documentamos os grupos de mídia brasileiros sugeridos na página inicial, analisando a presença, a posição e o conteúdo dos vídeos.

Verificamos que Jovem Pan foi o canal sistematicamente favorecido entre as fontes de notícias recomendadas, sendo recomendada como primeira fonte de informação em 53,2% dos testes, em detrimento de outras fontes de informação.

manipulação de notícias

Entretanto, a Jovem Pan foi condenada a pagar multa por danos morais coletivos, devido a sua participação em campanha de desinformação empreendida em 2022 para desacreditar as instituições públicas e o processo eleitoral brasileiro.

O YouTube participou, de alguma maneira, da amplificação da Jovem Pan durante as eleições. Longe de conter conteúdo extremista e de desinformação, o YouTube priorizou sistematicamente a Jovem Pan nas recomendações e não removeu ativamente conteúdos tóxicos do canal.

Portanto, mais do que nunca, é essencial saber quais critérios orientam a vitrine informativa e o que justifica sua seleção. O estudo do NetLab evidencia a urgência desse debate, especialmente em um ano eleitoral como o atual.

A circulação de ideias não pode ser capturada por poucos atores nem condicionada a parcerias privadas opacas, cujas intenções escapam ao escrutínio público.

É inevitável perguntar: onde há curadoria automática, haverá transparência? E como proteger os usuários de possíveis formas de manipulação sem conhecer a arquitetura e a lógica que estruturam a experiência online?


SOBRE A AUTORA

Rose Marie Santini é fundadora e diretora do Laboratório de Estudos da Internet e Redes Sociais da UFRJ (NetLab). saiba mais