Quando a IA do Google fala de saúde, o YouTube é a principal fonte
Estudo aponta que, nos resumos sobre questões ligadas à saúde, a IA da busca do Google se baseia mais no YouTube do que em sites médicos confiáveis

Todos os meses, cerca de 2 bilhões de pessoas veem os AI Overviews, o recurso de busca com inteligência artificial do Google que gera resumos para as perguntas dos usuários.
Um novo estudo, porém, revela um padrão preocupante em parte dessas respostas: ao lidar com questões relacionadas à saúde, os AI Overviews parecem recorrer ao YouTube com muito mais frequência do que a sites médicos confiáveis.
Desde o lançamento, os AI Overviews acumularam controvérsias, desde relatos sobre respostas sem sentido até uma série de processos movidos por empresas e grupos de publishers que alegam que o recurso prejudica o tráfego orgânico.
A preocupação mais recente veio de uma investigação do jornal "The Guardian", publicada no dia 2 de janeiro, que afirma que a ferramenta tende a oferecer orientações de saúde falsas, enganosas e potencialmente perigosas. Na época, o Google contestou essas alegações.
Agora, um novo estudo da ferramenta de SEO para IA SE Ranking mostra que os AI Overviews têm de duas a três vezes mais probabilidade de citar vídeos do YouTube do que “sites médicos confiáveis” em respostas a perguntas sobre saúde. O Google, no entanto, afirma que essa não é a história completa.
RESPOSTAS DA AI OVERVIEW SOBRE SAÚDE
Para entender como os AI Overviews coletam orientações de saúde na web, pesquisadores da SE Ranking analisaram mais de 50 mil buscas relacionadas à saúde feitas por usuários alemães no Google. A escolha do país se deu, segundo os autores do estudo, por conta de seu sistema de saúde rigidamente regulamentado.
“Se sistemas de IA dependem muito de fontes não médicas ou não autorizadas mesmo em um ambiente assim, isso sugere que o problema pode ir além de um único país”, escreveram os autores no relatório.

A SE Ranking descobriu que, de todos os resultados analisados dos AI Overviews, apenas cerca de 34% vinham de “fontes médicas confiáveis” – definidas como sites de instituições médicas e de governo, publicações acadêmicas etc. Os outros 66% se originavam de “fontes gerais ou não especializadas” (como sites comerciais ou blogs).
Na prática, o YouTube foi a principal fonte para consultas relacionadas à saúde, respondendo por 4,43% de todas as citações nos AI Overviews.
De acordo com o relatório, isso representa 3,5 vezes mais citações do que o netdoktor.de, um dos maiores portais de saúde para consumidores da Alemanha, e mais do que o dobro das citações dos Manuais MSD, uma referência médica consolidada. No total, 20.621 de 465.823 resultados dos AI Overviews citaram o YouTube.
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“Isso importa porque o YouTube não é um publisher médico”, afirma o relatório. “É uma plataforma de vídeo de uso geral. Qualquer pessoa pode publicar conteúdo ali – por exemplo, médicos certificados, canais de hospitais, mas também influenciadores de bem-estar, coaches de estilo de vida e criadores sem qualquer formação médica. Do ponto de vista da IA, todo esse conteúdo está no mesmo balaio.”
GOOGLE CONTESTA CRITÉRIOS E RESULTADOS
Em declaração à Fast Company, o Google contestou as conclusões da SE Ranking. A empresa afirmou que a definição de fonte confiável adotada pelo estudo é “falha e excessivamente simplista”.
Além disso, acrescentou que “ela classifica quase dois terços das fontes como ‘menos confiáveis’ ao agrupar desde sites comerciais até blogs de múltiplos temas. Isso ignora o fato de que um artigo escrito por especialistas em um ‘blog de múltiplos temas’ pode ser uma fonte de alta qualidade”.
Apenas um terço dos resultados dos AI Overviews analisados vinham de “fontes médicas confiáveis”, segundo a pesquisa.
O Google também destacou que uma análise mais atenta dos 10 domínios mais citados no relatório – que, além do YouTube, incluem a Fundação Alemã do Coração e a segunda maior seguradora de saúde do país – mostra que eles são “praticamente todos fontes respeitadas e autorizadas de informação, o que contradiz diretamente a narrativa central do relatório”.
A empresa argumenta também que a afirmação de que os AI Overviews recorrem ao YouTube de duas a três vezes mais do que a sites médicos confiáveis “ignora o fato de que uma ampla variedade de autoridades de saúde credenciadas e profissionais médicos licenciados cria conteúdo no YouTube”.
O Google aponta ainda que, segundo os próprios dados do estudo, 24 dos 25 vídeos do YouTube mais citados vieram de canais ligados à área médica, como hospitais, clínicas e organizações de saúde.
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No entanto, os pesquisadores da SE Ranking observam no relatório que esses 25 vídeos representam “apenas uma fração mínima” de todos os vídeos do YouTube aos quais os AI Overviews realmente fazem referência.
No fim, um porta-voz do Google afirmou: “a insinuação de que os AI Overviews fornecem informações não confiáveis é refutada pelos próprios dados do relatório, que mostram que os domínios mais citados nos AI Overviews são sites respeitáveis. E, pelo que vimos nos resultados publicados, os AI Overviews citam conteúdo especializado do YouTube produzido por hospitais e clínicas.”