Como o atraso da Apple em IA pode virar uma vantagem estratégica

A trajetória da Apple para incorporar IA ​​em seus produtos tem sido difícil, mas a empresa já demonstrou ser capaz de transformar atraso em vantagem

Apple Intelligence
Créditos: Yavor Kaludov/ Chase Clark/ Steve Johnson/ Unsplash

Mark Sullivan 6 minutos de leitura

A Apple vai transformar a Siri em um chatbot completo até o ano que vem. A empresa também trabalha em um dispositivo pessoal de IA para competir com aquele que a OpenAI está desenvolvendo em parceria com Jony Ive. Internamente, a empresa está colocando o controle de sua estratégia de IA em novas mãos.

É o que apontam uma série de novos relatos, todos reforçando a narrativa maior de que a Apple está fazendo o possível para voltar à corrida da inteligência artificial.

E está fazendo isso de um jeito que pode permitir, no melhor estilo Apple, liderar saindo lá de trás. Ou seja, observar de longe, aprender com os erros e acertos de quem saiu na frente ao comercializar uma nova tecnologia e chegar mais tarde, mas com um produto mais refinado.

Em 12 de janeiro, Apple e Google anunciaram que a assistente Siri (notoriamente lenta) vai passar a ser alimentada, ao menos em parte, por modelos Gemini desenvolvidos pela divisão DeepMind do Google.

No passado, a Apple expressou preocupação com questões de privacidade no caso de envio de dados de usuários para modelos de IA fora de sua própria infraestrutura. A empresa já afirmou que planeja rodar seus modelos de IA ou em uma nuvem segura da Apple ou, melhor ainda, diretamente nos chips dentro dos dispositivos da marca.

Mas isso pode estar mudando. Segundo Mark Gurman, da Bloomberg, a Apple agora negocia com o Google para executar os modelos Gemini que alimentam a Siri e os recursos do Apple Intelligence dentro do Google Cloud. Relatos anteriores indicavam que a Apple poderia estar pagando ao Google até US$ 1 bilhão por ano pelo acesso aos modelos Gemini.

A “nova” Siri deve chegar com o iOS 26.4, em março ou abril, segundo o relatório. A assistente deverá ganhar uma compreensão mais apurada do contexto do usuário ao acessar certos tipos de dados pessoais armazenados no próprio dispositivo. Também poderá ter consciência do que o usuário está vendo ou fazendo na tela, além de oferecer buscas na internet mais eficientes.

Esses são os mesmos recursos de “Apple Intelligence” que a empresa prometeu entregar em 2024, mas acabou adiando, alegando insatisfação com o desempenho e a confiabilidade da IA.

Em 2027, outra atualização deve fazer a Siri se parecer mais com um chatbot de verdade, permitindo trocas prolongadas de mensagens com o assistente (inclusive por voz), como já é comum com o ChatGPT, da OpenAI, e com os chatbots Gemini, do Google.

A Apple também planeja integrar a Siri mais inteligente de forma mais profunda ao sistema operacional, o que pode torná-la um intermediário mais funcional entre o usuário e as capacidades do dispositivo.

UM NOVO LÍDER DE IA DENTRO DA APPLE

O acordo com o Google em torno do Gemini e os relatos sobre um dispositivo de IA surgem após uma mudança significativa de poder dentro da Apple no que diz respeito à estratégia de inteligência artificial da empresa.

Por anos, a Apple teve dificuldades para desenvolver seus próprios modelos sob a liderança do ex-chefe de IA do Google, John Giannandrea, enquanto tentava equilibrar isso com sua preocupação histórica com privacidade de dados. No fim, acabou não entregando modelos com desempenho comparável aos da OpenAI, Anthropic e do próprio Google.

Agora, segundo relatos, a Apple colocou seus desafios com IA voltada ao consumidor nas mãos do chefe de software Craig Federighi, conhecido tanto por sua basta cabeleira quanto por sua visão pragmática (e um tanto cética) sobre a nova tecnologia.

Craig Federighi, da Apple
Craig Federighi (Crédito: Divulgação)

Federighi vê a IA como uma tecnologia habilitadora, que deve operar nos bastidores para fazer os recursos do celular funcionarem melhor. Ele também já manifestou preocupações sobre a previsibilidade e a confiabilidade dessa tecnologia.

Federighi assume o comando em um momento decisivo, visto que a Apple está em uma posição delicada em relação à IA. A empresa receia parecer cada vez mais atrasada em relação à OpenAI, mas também costuma ser cautelosa em vez de correr para adotar uma tecnologia emergente que ainda não se mostrou totalmente madura e confiável.

A Apple se sente mais confortável ao pegar uma tecnologia já amadurecida, como os celulares, e reinventá-la para o grande público com simplicidade, utilidade e design sofisticado.

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Nesse contexto, firmar parceria com o Google, falar sobre planos futuros com recursos baseados no Gemini e preparar um dispositivo pessoal de IA podem ser exatamente os movimentos certos para a Apple neste momento.

O acordo com o Google compra tempo para a Apple, enquanto seus próprios pesquisadores buscam formas de equilibrar duas necessidades difíceis: privacidade de dados e modelos de alto desempenho. Sem contar a possibilidade de poder jogar para o Google parte da responsabilidade caso a nova Siri não funcione como prometido.

CHEGAR ATRASADO JÁ FUNCIONOU ANTES

Não seria a primeira vez que a Apple usa essa estratégia. Ela dependeu de processadores da Intel em seus computadores enquanto construía a expertise necessária para desenvolver seus próprios chips. A empresa usou processadores Intel nos Macs por 15 anos, antes de migrar toda a linha para chips projetados internamente.

Planejar os recursos dos Macs era complicado, já que tudo dependia do cronograma da Intel para lançar novos processadores. Com o tempo, a Apple percebeu os ganhos de velocidade e eficiência que poderiam vir do design de chips personalizados, profundamente integrados ao sistema operacional do Mac. Esses avanços se materializaram pela primeira vez nos Macs com chips da série M, no fim de 2020.

A Apple se sente mais confortável ao pegar uma tecnologia já amadurecida e reinventá-la para o grande público.

A Apple também dependeu exclusivamente dos modems celulares da Qualcomm no iPhone antes de conseguir desenvolver os seus próprios. O primeiro modem criado pela Apple, o C1, estreou no iPhone 16e, lançado em 2025.

Embora a Qualcomm diga que continuará fornecendo modems para os iPhones em 2026, a intenção da Apple é integrar seu próprio modem ao “system-on-a-chip” que alimenta os iPhones, o que pode resultar em conexões celulares mais rápidas e confiáveis.

Em outros casos, porém, como na busca na internet, a Apple se mostrou satisfeita em depender do Google como parceiro. Talvez a empresa acredite que a IA generativa se tornará uma commodity no futuro – algo que faria mais sentido comprar do que construir internamente.

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Faz parte da cultura da Apple adotar uma visão de longo prazo sobre novas ondas de tecnologia (basta lembrar que a empresa não mudou de nome quando o “metaverso” viveu seu auge).

Essa hesitação, intencional ou não, pode dar à Apple mais tempo para avaliar a real dimensão da revolução da IA e mais tempo para entender o que tudo isso deve significar para a empresa e para seus clientes.


SOBRE O AUTOR

Mark Sullivan é redator sênior da Fast Company e escreve sobre tecnologia emergente, política, inteligência artificial, grandes empres... saiba mais