Yahoo entra na corrida da busca com IA e lança o Scout

O novo buscador com IA é capaz de fazer resumos inteligentes e responder perguntas com base nos bancos de dados do Claude, do Bing e do próprio Yahoo

busca com inteligência artificial no Yahoo
Crédito: Yahoo

Mark Wilson 6 minutos de leitura

O Yahoo pode não ser mais a empresa de tecnologia que estampa tantas manchetes quanto antes, mas seu alcance continua inegável. Com quase 700 milhões de usuários mensais no mundo, ainda é o segundo serviço de e-mail mais popular do planeta e o terceiro mecanismo de busca mais usado nos Estados Unidos (mesmo que, tecnicamente, esse buscador seja alimentado pelo Bing ou pelo Google desde 2009).

Segundo o CEO Jim Lanzone, os últimos anos foram dedicados a “arrumar a casa”. Mas agora, ele promete: “esta é uma das maiores 'viradas' que as pessoas já tentaram na história da internet”. E, de acordo com ele, essa virada começa com o Yahoo Scout, lançado esta semana em versão beta.

O Yahoo Scout é um novo buscador com inteligência artificial, gratuito (e também um botão onipresente em verticais do Yahoo como Finanças, Esportes e Mail), criado para resumir o desempenho de uma empresa ou destrinchar os principais momentos de um jogo.

Em um modo, ele é essencialmente a versão do Yahoo para Claude ou ChatGPT. No outro, funciona como um botão de tradução por IA que acompanha o conteúdo editorial do Yahoo, reduzindo artigos a pontos chave. Também consegue resumir o sentimento dos comentários nas matérias que você lê em toda a plataforma.

“Não somos os primeiros a chegar ao mercado, mas, ao avaliar se deveríamos continuar terceirizando ou construir a camada de IA internamente, ficou claro que poderíamos fazer isso melhor para os nossos usuários”, diz Lanzone.

PARCERIAS COM CLAUDE E BING

“Tínhamos muitos ativos únicos para isso. Nesse contexto, o timing se torna quase irrelevante. Porque isso é sobre usuários do Yahoo no Yahoo, buscando no Yahoo, em comparação com o que eles tinham antes.”

Liderado pelo vice-presidente sênior e gerente geral do Yahoo Research Group, Eric Feng (mais conhecido por recrutar e liderar a equipe técnica que criou o Hulu), o Scout é alimentado por uma combinação do grafo de conhecimento do Yahoo, do Claude, da Anthropic, e das APIs de web aberta do Bing.

Isso significa que o Yahoo ainda depende de parceiros externos. Mas a equipe afirma que a experiência de busca vai “parecer Yahoo”, por estar profundamente integrada ao ecossistema da empresa.

logotipo do Yahoo Scout

O Yahoo Scout pode responder a uma pergunta usando tudo o que o Claude sabe dentro de seu modelo de linguagem mas também buscar diretamente na web, assim como no Bing.

Ainda assim, o time insiste que o próprio grafo de conhecimento do Yahoo adiciona muito mais camadas além do que Claude e Bing oferecem hoje – e promete ainda mais no futuro.

O Yahoo publica diariamente 30 mil conteúdos licenciados e outros materiais que ficam à disposição da plataforma e os usuários geram 18 trilhões de “eventos” por ano em seus serviços. “Cada evento que você obtém torna a experiência como um todo mais inteligente”, afirma Feng.

Mesmo algo tão simples quanto buscar o placar do seu time favorito já é um dado acionável para o Yahoo no curto prazo, mas ainda mais relevante no médio e longo prazo, à medida que o Scout evolui de um mecanismo de busca ou resumidor de IA genérico para algo mais próximo de uma IA pessoal.

A EXPERIÊNCIA DO YAHOO SCOUT

O Yahoo Scout existe como um site responsivo e também como um aplicativo independente. Como mecanismo de busca, sua barra branca é acompanhada por uma rotação constante de cliparts animados, resgatando parte da excentricidade original da marca.

O restante da experiência será bastante familiar para quem já usou um LLM: cada consulta é menos uma lista de links azuis e mais uma explicação estruturada de uma ideia.

tela do Yahoo Scout

Em uma demonstração a que assisti, ficou claro que o sistema tem um viés para decompor buscas em tabelas comparativas. Ao mesmo tempo, ele é menos carregado de texto do que muitos LLMs, pois faz uso abundante de miniaturas que listam notícias e produtos à venda.

Essa preferência por links destacados e coloridos não é coincidência. Os publishers estão no meio de um evento de extinção em massa que já dura 30 anos, agravado recentemente por ferramentas de busca com IA que extraem reportagens e as apresentam a um público que não precisa mais clicar até a matéria original.

Lanzone argumenta que a presença de links em destaque é fundamental para proteger a saúde da indústria editorial — da qual o Yahoo depende para seu negócio principal de agregação de mídia.

tela do Yahoo Scout

“Nosso trabalho número um é fazer a ponte para os publishers… [com] uma interface bonita, muito rica e intuitiva, mas que ainda aposta fortemente em links externos, sem poluir a página”, afirma. “Desde o primeiro dia, isso é prioridade para nós. E a prioridade número dois é: conseguimos trazer junto a publicidade de busca também?”

Falando a partir de duas décadas no mercado de publicação digital, sei que o que o Yahoo mostrou até agora está longe de ser suficiente para proteger os publishers. O design do Yahoo pode melhorar levemente as taxas de clique, mas nem de longe o bastante para sustentar a indústria editorial.

Pesquisas da Cloudflare sobre tráfego de referência de mecanismos de busca mostram o quão crítico é este momento: para cada 70.900 vezes que bots da Anthropic raspam informações de um site, os usuários clicam apenas uma vez.

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Assim como o McDonald’s não sobreviveria se o Uber Eats começasse a distribuir seus hambúrgueres de graça, o jornalismo não consegue existir se os mecanismos de busca sequestram seus insights sem uma compensação significativa.

“Não está na versão um, mas também somos apaixonados pela ideia de que a publicidade de busca foi extremamente eficaz tanto para publishers quanto para mecanismos de busca e anunciantes. E deveria haver uma forma de atravessar esse abismo e levar esse modelo para os mecanismos de busca generativos”, diz Lanzone.

PUBLICIDADE NO MODELO DE NEGÓCIO

Mas não se engane: o Yahoo está, sim, exibindo anúncios no Yahoo Scout. Enquanto a Anthropic ainda não introduziu publicidade e a OpenAI está apenas começando, o Yahoo já inclui anúncios nas buscas do Scout desde o primeiro dia. Eles aparecem como links patrocinados tradicionais no feed (pense no Google Ads).

A empresa também monetiza indicações de compras, graças à plataforma de compras com IA Vetted, adquirida no fim do ano passado. Esses são apenas os primeiros passos de uma ampla estratégia publicitária do Yahoo, que deve ganhar mais sofisticação ainda este ano.

Fora da busca, porém, o Yahoo acredita que o Scout, por estar presente em diversos serviços da empresa, vai trazer benefícios indiretos para a monetização.

telas do Yahoo Scout

“Se você está no Mail, em Finanças ou no Esportes, queremos que a tecnologia que estamos oferecendo torne essa experiência melhor, para termos mais engajamento”, diz Feng. “Esses usuários ficam mais tempo conosco, e essas propriedades conseguem monetizar melhor.”

Por enquanto, o Yahoo acredita que a monetização gerada será suficiente para justificar manter o Scout gratuito. Ainda assim, nem mesmo o Yahoo resiste ao apelo da receita por assinatura e sugere que uma versão premium paga pode surgir no futuro.

“Temos produtos por assinatura em finanças, esportes e outros setores, e dá para imaginar uma versão disso chegando aqui”, diz Lanzone. “Mas 100% do nosso esforço [no lançamento] foi a evolução da busca do Yahoo para o Yahoo Scout. Podemos nos dar o luxo de fazer isso porque já temos um negócio de busca muito sólido.”


SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos. saiba mais