Existe valor no que é vivido mesmo quando não é postado

Quando a gente não compartilha tudo, a rede vai ficando mais longe e a vida, mais perto

casal sentado na praia observa o mar
Créditos: cyano66/ Mesquita FMS/ Getty Images

Genesson Honorato 3 minutos de leitura

Lá estava eu na praia, me dividindo entre meu filho mais novo – que vibrava a cada torre nova do castelinho que ficava de pé mesmo depois das ondas que chegavam sobre a areia dourada – e o outro mais velho – que estava muito feliz por ter aprendido qual onda é melhor para pular e qual é para furar.

No cenário, o mar da Bahia, céu azul, sol brilhante, coqueiros de folhas tão verdes que pareciam uma foto saturada, quase um comercial de margarina, se é que você me entende. Ah o verão da Bahia… Mas, quem me segue nas redes não viu nada disso, não postei, não compartilhei. 

No fim do ano passado, uma amiga querida me mandou uma mensagem de áudio com uma pergunta direta: “amigo, percebo que você não posta seus filhos, sua família, o que você faz na vida pessoal, viagens, restaurantes, etc. Isso é intencional?” 

A pergunta veio de uma curiosidade genuína de quem quer entender um pouco mais as maneiras de estar nas redes sociais. Isso me deixou pensativo. Esse simples questionamento talvez evidencie uma expectativa de todos nós, que talvez tenha virado regra silenciosa: se algo é importante, a gente mostra. Se não mostrou, talvez nem seja tão importante assim.

Faz mais ou menos quatro anos que passei a prestar mais atenção no que para mim não faz sentido mostrar.

Meu exercício na academia.

Os passeios de bicicleta com as crianças para ver tartarugas.

O acarajé dos domingos.

O livro que estou lendo.

A comida que estou comendo.

O show que estou assistindo.

Ou o sorriso lindo na face dos meus filhos.

Tenho observado que são as conversas longas, sem telefone por perto ou, justamente, aquelas via ligação, sem digitar nada, as que valem mais. As viagens que ficam só na memória. No silêncio tranquilo da certeza de que ninguém precisa saber onde estou e o que está diante dos meus olhos.

cadeiras de praia em frente ao mar
Crédito: Freepik

Percebi que quanto menos eu posto estes momentos, mais eu vivo dentro deles. Sem pensar no ângulo ou na legenda. Sem a busca pelo celular para registrar aquilo que já foi registrado pelos meus olhos. Só eu, as pessoas que estão ali e o tempo, que finalmente passa mais devagar, puderam ver e sentir aquele acontecimento no presente.

Comecei a perceber que quando a gente não compartilha tudo, a rede vai ficando mais longe e a vida, mais perto. A atenção se volta para o agora. O olhar encontra o outro, é a arte do encontro. 

É estranho pensar que, hoje, a foto virou um vício, o vídeo também. Parece que o tempo de qualidade não pode existir sem uma tela. 

a gente não precisa registrar tudo, mas viver de verdade. Presença não se publica, se vive.

A gente se acostumou tanto a transformar tudo em conteúdo que o simples fato de viver sem postar causa estranhamento. Parece que, se não está no feed, não aconteceu.

Mas, e se for o contrário? E se o que a gente não mostra for exatamente o que mais importa?

Porque tem coisas que não cabem em uma legenda. Tem relações que não se medem por curtidas. Tem memórias que valem mais justamente porque ficaram só entre quem viveu.

Acho que a gente não precisa registrar tudo, mas viver de verdade, escolher o que não precisa ser mostrado. Porque presença não se publica, se vive.

No fim das contas, o que fica mesmo nem é o que viraliza nas redes. Às vezes, é apenas o que permanece leve e tranquilo dentro da gente. 

Luz do sol, que a folha traga e traduz, em verde novo, em folha, em graça, em vida, em força, em luz.” (Caetano Veloso)

Até a próxima.


SOBRE O AUTOR

Genesson Honorato é psicólogo com olhar para a psicanálise, tem formação em Marketing e Design Digital pela ESPM e MBA em inovação pel... saiba mais