A arte como resistência: designers respondem às ações do ICE

A arte de protesto passou a desempenhar um papel central no movimento contra a presença de forças federais na cidade de Minneapolis

partes de obras de arte em protesto contra ações de Donald Trump e do ICE
Créditos: Topsy, "Don’t Worry, I’ve Got You"/ Edel Rodriguez, "Minneapolis"/ James Herriott, "What Kind of American Are You"

Grace Snelling 6 minutos de leitura

O artista Edel Rodriguez enviou sua nova ilustração, "Minneapolis", em uma newsletter apenas algumas horas depois de um agente federal ter atirado e matado o enfermeiro de UTI Alex Pretti, em 24 de janeiro, na cidade de Minneapolis, no norte dos EUA.

A obra traz uma imagem em pop art do presidente Donald Trump, de boca aberta e com uma arma na mão, ajoelhado sobre o pescoço da Estátua da Liberdade, que sangra lentamente no asfalto após múltiplos ferimentos a bala.

Enquanto os moradores do estado de Minnesota continuam a testemunhar agentes do ICE interrompendo a vida em suas comunidades e mirando seus próprios vizinhos, a arte de protesto passou a desempenhar um papel central no movimento coletivo contra o aumento da presença de forças federais.

Em Minneapolis, grafites, placas de jardim, adesivos e até trenós com mensagens anti-ICE se espalharam rapidamente. Estúdios locais de serigrafia, como Burlesque of North America e Art Price Studio, criaram seus próprios designs e também passaram a oferecer serviços de impressão gratuita para manifestantes.

Agora, após o assassinato de Pretti, artistas de todo o país estão usando a arte de protesto para demonstrar apoio à cidade e expressar sua indignação com as ações do governo federal.

cartazes em protesto contra a ação do ICE em Minneapolis
Cartazes em protesto contra a ação do ICE em Minneapolis (Crédito: Roberto Schmidt/ AFP/ Getty Images)

“Esses eventos são complexos e podem ser facilmente manipulados”, diz Rodriguez. “Uma imagem ou um cartaz consegue atravessar tudo isso e chegar ao cerne da questão. A arte ajuda as pessoas a entenderem que não estão sozinhas.”

"MINNEAPOLIS"

O conceito de "Minneapolis", de Rodriguez, remonta a 2020, quando o policial Derek Chauvin matou George Floyd, morador daquela mesma cidade, ao forçar seu joelho sobre o pescoço do homem imobilizado no chão por mais de nove minutos.

Na época, Rodriguez fez um esboço inicial da cena e, algumas semanas depois, criou outra versão, segundo ele, com Trump “fazendo a mesma coisa com a Estátua da Liberdade”.

Após testemunhar os assassinatos de Renee Good e de Pretti, Rodriguez criou uma nova versão da ilustração, na qual Trump segura uma arma sobre o corpo caído da Estátua da Liberdade.

ilustração de protesto contra Donald Trump criada pelo artista Edel Rodriguez
Crédito: Edel Rodriguez

“Todos esses assassinatos aconteceram na mesma cidade e compartilham um elemento em comum – violência chocante e desprezo pela vida humana por parte de quem ocupa posições de autoridade”, afirma Rodriguez.

“Falamos sobre o ICE ou a Patrulha de Fronteiras violando os direitos civis dos americanos, mas a pessoa responsável por essas mortes é Donald Trump. Foi daí que veio a ideia para essa imagem.”

Desde 2016, Rodriguez vem usando seu estilo característico de pop art para documentar o período de Trump no poder, inspirando-se em artistas políticos como John Heartfield, George Grosz, Otto Dix e Max Beckmann. O objetivo, segundo ele, é usar a sátira como forma de “documentar a história para as gerações futuras”.

QUE TIPO DE AMERICANO É VOCÊ?

Sem dúvida, as imagens mais amplamente difundidas e impactantes relacionadas às mortes de Good e Pretti são os próprios vídeos e fotografias dos acontecimentos, registrados por cidadãos que estavam no local, de vários ângulos, em ambos os casos.

Esses registros se tornaram pontos de referência fundamentais para rebater as alegações da administração de que Good e Pretti teriam agido de forma violenta contra agentes federais. Eles também inspiraram James Herriott, um artista de Montana, a criar suas primeiras obras de arte de protesto, que desde então ganharam bastante repercussão no Reddit.

“Quando vi a notícia da morte de Alex Pretti, eu estava tremendo”, diz Herriott. “Assistir àquele agente federal descarregar tiro após tiro em um civil caído no chão foi absolutamente revoltante.”

ilustração de James Herriott, "What Kind of American Are You"
"What Kind of American Are You" (Crédito: James Herriott)

A ilustração de Herriott, intitulada "What Kind of American Are You" (“Que tipo de americano é você?”), combina imagens da morte de Pretti com uma cena do filme "Guerra Civil" (Civil War), lançado em 2024.

No filme, que imagina um futuro fragmentado, um antagonista armado, interpretado por Jesse Plemons, interroga um grupo de jornalistas sobre sua raça e país de origem, executando aqueles cujas respostas não lhe agradam. O subtexto da cena é que o personagem associa branquitude à ideia de ser americano.

“Nesse momento do filme, [o personagem de Plemons] está perguntando ‘Que tipo de americano você é?’ a um grupo de desconhecidos que ele pretende ferir”, explica Herriott. “Acho que essa pergunta atinge vários níveis. . . . Você é um ‘dos nossos’ ou um ‘deles’? . . . Você tem a cor certa? . . . Nasceu no lugar certo?”

Em "What Kind of American Are You", o personagem de Plemons aparece com seus inconfundíveis óculos vermelhos e um rifle de assalto, pairando sobre o corpo de Pretti, enquanto agentes federais apontam uma arma e uma lata de spray de pimenta para a cabeça dele.

Desde que publicou a obra, Herriott diz ter recebido algumas reações classificando o trabalho como “propaganda” – algo que, segundo ele, “meio que comprova o ponto da obra”. Ainda assim, a resposta majoritária foi de apoio.

“Acho que a arte de protesto cumpre o mesmo papel dos protestos de rua”, afirma Herriott. “Mesmo que não mude nada de forma direta e funcional, ela mostra que nem todo mundo pensa da mesma maneira. E mostra a quem está no poder que suas ações ou políticas não são aceitas por todos.”

NÃO SE PREOCUPE, EU CUIDO DE VOCÊ

Topsy é um grafiteiro de Seattle que pediu para permanecer anônimo nesta reportagem, por medo de retaliações. Ele vem criando arte pública de protesto desde a segunda posse de Trump, incluindo trabalhos em apoio aos protestos No Kings, que retratam agentes do ICE como porcos e satirizam a amizade de Trump com Jeffrey Epstein.

O rascunho inicial de Topsy destacava atos violentos cometidos pelo ICE. No fim, porém, o artista decidiu mudar o foco.

Leia mais: Por que o eleitorado dos EUA decidiu dar um segundo mandato a Donald Trump

“Pelos relatos de pessoas próximas, Alex era a personificação de alguém que se importava profundamente com a justiça, sempre disposto a ajudar os outros”, diz Topsy. “Eu queria criar algo bonito, que os pais dele pudessem ver e se orgulhar.”

A obra final se chama "Don’t worry, I’ve got you" (“Não se preocupe, eu cuido de você”). Ela mostra Pretti, que trabalhava no Hospital de Veteranos de Minneapolis, vestindo um uniforme azul de enfermeiro e com um estetoscópio no pescoço. Ele se inclina para ajudar a Senhora Justiça, caída no chão e usando sua tradicional venda nos olhos.

ilustração do artista Topsy sobre o enfermeiro Alex Pretti
"Don’t worry, I’ve got you" (Crédito: Topsy)

A imagem faz referência a um momento ocorrido segundos antes da morte de Pretti, quando ele tentou ajudar outro manifestante que havia sido derrubado por um agente federal.

Topsy escolheu um muro no bairro de First Hill, em Seattle – conhecido na cidade pela concentração de centros médicos – como local para a obra. Desde então, ela já foi vista milhares de vezes, tanto pessoalmente quanto nas redes sociais.

“Em um momento de tantas injustiças, em que até o próprio Departamento de Justiça se recusa a investigar o assassinato de cidadãos pelo ICE, quis destacar que pessoas comuns, como Alex, são aquelas que de fato vão tirar a Justiça da beira do abismo e garantir que ela sobreviva mais um dia.”


SOBRE A AUTORA

Grace Snelling é colaboradora da Fast Company e escreve sobre design de produto, branding, publicidade e temas relacionados à geração Z. saiba mais