Por que Yann LeCun deixou a Meta e o que isso revela sobre a IA

A decisão de LeCun de seguir sua própria visão é um sinal de que o paradigma atual da IA generativa não será a palavra final em inteligência artificial

Yann LeCun, pesquisador de IA
Créditos: AP Photo/ Thibault Camus/ sankai/ Getty Images

Enrique Dans 7 minutos de leitura

Quando um dos fundadores da moderna inteligência artificial deixa uma das empresas de tecnologia mais poderosas do mundo para começar algo novo, é bom prestar atenção.

A saída de Yann LeCun da Meta, após mais de uma década no comando da pesquisa em inteligência artificial da empresa não é apenas mais uma troca de liderança. Ela expõe um profundo racha intelectual sobre o futuro da IA: devemos continuar escalando grandes modelos de linguagem (LLMs) ou investir em sistemas que compreendem o mundo, e não apenas o reproduzem?

LeCun é um cientista da computação franco-americano amplamente reconhecido como um dos “padrinhos da IA”. Ao lado de Geoffrey Hinton e Yoshua Bengio, recebeu em 2018 o Prêmio A.M. Turing da Associação de Máquinas de Computação por seu trabalho de base em aprendizagem profunda (deep learning).

Ele entrou na Meta (então Facebook) em 2013 para montar o setor de pesquisa em IA da empresa, que viria a se tornar o FAIR (Facebook/META Artificial Intelligence Research), um laboratório que buscou avançar ferramentas fundamentais como o PyTorch e contribuiu para versões iniciais do Llama.

Ao longo dos anos, LeCun se tornou uma figura de renome mundial na pesquisa em IA, argumentando com frequência que os modelos generativos atuais, por mais poderosos que sejam, não são inteligência de verdade.

O QUE LEVOU YANN LECUN A DEIXAR A META

A decisão de LeCun de deixar a Meta, confirmada no fim de 2025, foi moldada tanto por divergências estratégicas quanto filosóficas em relação ao foco cada vez mais dominante da empresa em inteligência artificial.

Em 2025, a Meta reorganizou seus esforços de IA sob o guarda-chuva do Meta Superintelligence Labs, uma divisão voltada ao desenvolvimento rápido de produtos e à escalada agressiva de sistemas generativos. A reorganização consolidou pesquisa, produto, infraestrutura e iniciativas de LLMs sob uma liderança distinta do domínio tradicional de LeCun.

aprendizado de máquina
Crédito: Freepik

Dentro dessa nova estrutura, LeCun passou a responder não a um líder de pesquisa pura, mas a uma cadeia de comando orientada a produto e comercialização – um sinal claro de mudança de prioridades.

Mais importante do que isso, porém, está a divergência filosófica profunda: LeCun tem sido cada vez mais enfático ao afirmar que os grandes modelos de linguagem, espinha dorsal da IA generativa – incluindo os modelos Llama, da Meta – são limitados.

Para LeCun, os modelos generativos atuais, por mais poderosos que sejam, não são inteligência de verdade.

Eles preveem padrões de texto, mas não raciocinam nem compreendem o mundo físico de maneira significativa. Os LLMs de hoje são bons em um tipo de imitação superficial, mas carecem de raciocínio causal robusto, capacidade de planejamento e embasamento em experiências sensoriais.

Como ele próprio já disse e escreveu, LeCun acredita que os LLMs “são úteis, mas não são um caminho para a inteligência em nível humano”.

Essa tensão foi agravada por reorganizações estratégicas dentro da Meta, incluindo mudanças no quadro de funcionários, realocação de orçamentos e uma virada estratégica em direção a ciclos curtos de produto, em detrimento da pesquisa exploratória de longo prazo.

A GRANDE IDEIA NA BASE DA NOVA EMPRESA

O novo empreendimento de LeCun está centrado em arquiteturas alternativas de IA que priorizam a compreensão baseada na realidade, e não a simples imitação da linguagem.

Embora os detalhes ainda sejam poucos, alguns elementos já vieram a público:

  • A empresa vai desenvolver sistemas de IA capazes de percepção e raciocínio no mundo real, e não apenas de previsão de texto.
  • O foco estará em “modelos de mundo” – IAs que entendem ambientes por meio de visão, interação causal e simulação, em vez de apenas padrões estatísticos em texto.
  • LeCun sugeriu que o objetivo são “sistemas que compreendam o mundo físico, tenham memória persistente, consigam raciocinar e planejar ações complexas”.

Segundo LeCun, não se trata de uma pequena variação da IA atual: trata-se de um paradigma de aprendizado fundamentalmente diferente, que poderia destravar o verdadeiro raciocínio das máquinas.

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Embora os fundadores da Meta e outras fontes internas não tenham divulgado números oficiais de captação, múltiplos relatos indicam que LeCun já está em conversas iniciais com investidores, e que o projeto vem atraindo atenção justamente por causa da visão e da reputação do pesquisador.

POR QUE ISSO IMPORTA PARA O FUTURO DA IA

A ruptura de LeCun com a Meta aponta para um debate mais amplo que está se desenrolando em toda a indústria de IA.

1. LLMs versus modelos de mundo

Os modelos de linguagem dominaram a atenção do público e as estratégias corporativas porque são poderosos, comercialmente viáveis e cada vez mais úteis. Mas cresce o reconhecimento de que compreensão, planejamento e raciocínio físico exigirão arquiteturas que vão além do texto.

2. Urgência comercial versus ciência de base

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As big techs estão focadas em lançar produtos e ganhar participação de mercado. Já a pesquisa fundamental – aquela cujo retorno pode levar anos – exige outro horizonte temporal e outro conjunto de incentivos. A saída de LeCun demonstra bem como essas duas perspectivas podem entrar em choque.

3. Uma nova onda de inovação em IA

Se a nova empresa de LeCun conseguir avançar modelos de mundo em escala, o impacto pode redesenhar o cenário da IA. Poderemos ver sistemas que não apenas geram texto, mas também preveem resultados, tomam decisões em ambientes complexos e raciocinam sobre causa e efeito.

Isso teria implicações profundas em setores que vão da robótica e dos sistemas autônomos à pesquisa científica, modelagem climática e tomada de decisão estratégica.

O QUE ISSO SIGNIFICA PARA O SETOR

A estratégia de IA da Meta parece cada vez mais de curto prazo, superficial e oportunista – estruturada menos em torno de uma visão coerente de pesquisa e mais pelo estilo de liderança altamente personalista de Mark Zuckerberg.

Assim como a aposta no metaverso queimou dezenas de bilhões de dólares ao perseguir uma narrativa antes de a tecnologia ou o mercado estarem prontos, o impulso atual em IA prioriza velocidade, posicionamento e manchetes, em vez de investigação profunda e paciente.

LeCun acredita que os LLMs são úteis, mas não são um caminho para a inteligência em nível humano.

Em contraste, organizações como OpenAI, Google DeepMind e Anthropic, apesar de todas as suas falhas, se mantêm ligadas a agendas de pesquisa de longo prazo, que tratam a compreensão de base como pré-requisito para uma vantagem que vá além do curto prazo.

A abordagem da Meta reflete um padrão conhecido: guinadas estratégicas abruptas, guiadas por convicções de seus executivos em vez de rigor científico, nas quais a ambição substitui o insight e escala é confundida com progresso. A saída de Yann LeCun é menos uma anomalia e mais uma consequência previsível desse modelo.

Empresas focadas em ganhos de curto prazo sempre terão espaço no ecossistema. Mas a pesquisa visionária, aquela que pode viabilizar a verdadeira compreensão, tende cada vez mais a encontrar abrigo em iniciativas independentes, parcerias acadêmicas e colaborações híbridas.

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A decisão de LeCun de deixar a Meta e seguir sua própria visão é mais do que um movimento de carreira. É um sinal de que o paradigma atual da IA generativa, por mais brilhante que seja, não será a palavra final em inteligência artificial.

Para líderes em negócios e tecnologia, a pergunta já não é se a IA vai transformar os setores, mas como ela vai evoluir daqui para frente. A nova linha de pesquisa de LeCun não é única: outras empresas estão explorando a mesma ideia. Essa ideia pode não apenas guiar o futuro da pesquisa em IA, mas defini-lo.


SOBRE O AUTOR

Enrique Dans leciona inovação na IE Business School desde 1990, hackeando a educação como consultor sênior de transformação digital na... saiba mais